Ricardo Stuckert e ABr Um expressa a esperança. O outro, o medo

Enquanto Lula e Bolsonaro capturam a preferência dos desiludidos e marginalizados, os “candidatos do golpe” patinam 


por Jessé Souza

A atual eleição é incompreensível sem o golpe de 2016. Lembremos que as disputas municipais de 2016, sob a ação do conluio entre a mídia venal e a Lava Jato, dizimaram o PT e fizeram o PSDB renascer das cinzas.

O quadro político hoje é completamente diferente. Lula tem quase 40% dos votos válidos e Bolsonaro quase 20%. O candidato diretamente golpista mais bem colocado, Geraldo Alckmin, tem menos de 5% das intenções de voto.

Embora não tenha havido nem aprendizado coletivo real nem debate público articulado, o povo não é imbecil. O cheiro é de coisa podre e todos o sentem. A grande dificuldade do conluio golpista comandado pela mídia venal e pela “casta jurídica” do Estado, ansiosa por mesquinhos dividendos corporativos de curto prazo, é o fato de serem lacaios de um capitalismo rentista não só improdutivo como abertamente fraudulento e destrutivo.


O País é literalmente assaltado pela pirataria rentista e o povo empobrece a olhos vistos. Este é o real pano de fundo das eleições.

Lula cresce a cada dia posto que é a memória viva de quando as coisas eram diferentes e melhores. Ainda que não tenha havido uma reconstrução coletiva consciente dos motivos inconfessáveis do golpe, essa lembrança basta como esperança para muita gente.

Preso, seu prestígio só aumenta, pois seu ordálio é concomitante e tem o condão de representar o sofrimento da imensa maioria da população. Ele é, portanto, o “profeta exemplar” do crime cometido contra todo o povo brasileiro. Isso é algo que os pigmeus intelectuais da “casta jurídica”, que comanda a estratégia golpista na dimensão conjuntural e concreta, têm enorme dificuldade de compreender.

Exceto a eficiente rapina de todos os ativos importantes do País, articulada de fora para dentro, a estratégia interna dos pigmeus jurídicos e midiáticos é burra e, por conta disso, obviamente ineficiente.

A condenação pela ONU da perseguição política a Lula só faz agravar o processo. A “casta jurídica” golpista, embora não confesse, foi atingida no coração e posta na defensiva. O “ônus da prova” foi simplesmente invertido. O Brasil tende a perder qualquer credibilidade e respeitabilidade internacional, cujo reflexo interno, ainda mais em um país “vira-lata” que idealiza as “culturas superiores”, não é pequeno.


Como a “casta jurídica” não vai ficar mais inteligente de um dia para o outro, o preço no médio prazo será altíssimo em termos de perda de respeitabilidade institucional das corporações jurídicas.

Bolsonaro monopoliza o voto não da esperança, como Lula, mas do protesto desesperado. Qualquer idiota percebe que a corrupção, tanto a ilegal quanto a legalizada pela captura do Estado pelo sistema financeiro, só fez aumentar. O contexto social, ademais, é marcado pelo cinismo e pela hipocrisia diária da mídia tradicional, do Ministério Público e do STF, assim como das demais instâncias da “casta jurídica”.

Bolsonaro é a reação de quem se sentiu enganado pelos justiceiros que prometeram “limpar” o Brasil e entregaram o galinheiro às raposas. É o pessoal que percebe a “crise moral” como a verdadeira crise do País. Para eles, Bolsonaro é a honestidade rebelde e enraivecida como a deles mesmos.

O medo da proletarização de amplos setores da baixa classe média e da marginalização de setores da classe trabalhadora é, deste modo, moralizada e expressa de modo distorcido na figura do arauto da tortura e da violência aberta.

Pessoalmente, posso estar enganado, não acredito que ninguém ligado ao golpe, ainda que com todos os minutos de tevê do mundo e todo o apoio da mídia desacreditada, consiga chegar ao segundo turno. São os perdedores do golpe e da consequente rapina que irão decidir as eleições de 2018.

A hipócrita Lava Jato não tem mais nada na cartola – aliás, nunca teve além da criminalização de Lula e das classes populares que ele representa - e a elite não tem mais qualquer discurso crível e convincente, além do hoje crescentemente desacreditado moralismo de fachada.

A elite brasileira, sem este moralismo de fachada inventado depois, é exatamente a mesma da República Velha.

O essencial da República Velha era seu combate e seu medo da participação popular. Nenhuma eleição teve mais de 5% da população votante. Além, é claro, de seu interesse em se apropriar do Estado como seu “banco particular”.

É apenas o Estado para maioria da população que é combatido, não o Estado como butim para o saque e rapina da elite de proprietários por meio de juros escorchantes, isenções fiscais ou ataque direto ao orçamento público via dívida pública fraudulenta e nunca auditada e que possui ramificações em todos os níveis da administração pública.

À dita esquerda cabe a responsabilidade da denúncia corajosa dessa gigantesca fraude como forma de alimentar a esperança, de modo a possibilitar que esta vença o desespero da raiva e do medo.


CartaCapital

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