Ricardo Boechat no debate de presidenciáveis da Band. Foto: Divulgação/Band/Flickr
Você começa a perceber o nível da miséria política de um país quando num debate eleitoral a grande sensação fica a cargo de um sujeito como Cabo Daciolo.

Não há como negar, eleitoralmente o rapaz foi o grande vitorioso da noite.

Completamente desconhecido e sem votos para sequer figurar nas pesquisas, a sua, digamos, performance, lhe garantiu uma visibilidade nas redes sociais que não terá na propaganda eleitoral em todo o decorrer da campanha.

Para além dos surtos psicóticos, o seu fanatismo religioso e o apelo militar não foram jogados para o público ao sabor dos ventos. O candidato mira flagrantemente os eleitores de Marina e Bolsonaro.

Ninguém deve se surpreender se nas próximas pesquisas o cidadão já aparecer com 1% das intenções de votos. Essa é a vantagem de quem não tem nada. Na pior das hipóteses, fica como está.

E aí reside o porquê de sua “vitória”.

Já participei de velórios mais animados do que aquele debate. Ao fim e ao cabo, à exceção do Cabo (com o perdão do trocadilho), todo mundo saiu da mesma forma que entrou.

Seja pela dinâmica das perguntas, seja pela mesmice das respostas, a impressão que ficou é que o debate não serviu para absolutamente mais nada além de reafirmar o que já se sabia sobre os candidatos nas diversas sabatinas efetuadas anteriormente.

E aqui, justiça seja feita, no quesito mais do mesmo é preciso reconhecer que Bolsonaro se saiu melhor do que os demais.

Não que o fascista tenha tido algum lampejo de racionalidade, essa é uma seara que ele desconhece profundamente. Mas para quem esperava uma surra descomunal, essa foi de longe a sua melhor, ou menos ruim, participação frente a um debate de ideias.

Está claro que para Bolsonaro é infinitamente mais vantajoso ir a debates, onde todos são interpelados, do que a sabatinas, onde ele é o único alvo. Num período maior de exposição ele consegue, por ficar calado na maioria do tempo, falar menos besteiras.

E justamente em função dessa pulverização, somada a estratégia de uns a isolarem os outros, que Ciro e Boulos foram de uma certa forma prejudicados.

Menos visados nas perguntas, tiveram participação inferior (no sentido de que foram menos acionados) do que o candidato da grande mídia, Geraldo Alckmin.

Aliás, talvez esse tenha sido o grande triunfo da Band, além de banir do debate o líder absoluto das pesquisas, ainda conseguiu uma forma de promover o seu candidato.

No mais e a reboque dessa última constatação, é preciso louvar um dos pontos mais importantes do evento e a expressão maior de solidariedade, respeito e justiça praticados pelo candidato Guilherme Boulos.

De todos os presentes, foi o único a ter a coragem de denunciar o medo, a injustiça e a censura da não participação do ex-presidente Lula no debate.

É preciso que jamais nos esqueçamos que Lula livre e Lula candidato são requisitos essenciais para o exercício da plena democracia e do pleno respeito à vontade soberana da grande maioria do povo brasileiro.


DCM

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