Por vezes a expectativa de uma entrevista pode ser frustrada mas, a participação de Bolsonaro na Central das Eleições na Globo News extrapolou todas as esperanças de alguma racionalidade. Trata-se de um candidato com grande dificuldade de responder questões politicamente prosaicas. Percebendo a forte dificuldade intelectual e de construção textual, os jornalistas da Globo, que em geral insultam nossa inteligência, apostaram mais da metade do programa em temas ligados à economia.

Dentre muitas baboseiras ditas pelo insólito e nonsense candidato, nada salvou, apenas o momento em que Bolsonaro afirmou que a TV Globo surgiu no apoio à ditadura, da mesma maneira que Revista Veja, a primeira em 1965 e a segunda, em 1968. Além de citar o fato, defendeu o golpe abordando o famoso editorial de 1964 em que Roberto Marinho aborda o golpe como uma revolução para garantir a democracia: “Vocês vão me dizer que o senhor Roberto Marinho não era um democrata?” Perguntou Bolsonaro. Sem resposta, os jornalistas ficaram completamente sem reação e mudaram de assunto. Por isso, a técnica da Globo News perdeu o controle no final do bloco, em que as imagens permaneceram ao vivo, mesmo após o som da vinheta. Certamente, não sabiam se o editorial viria naquele momento ou no final do programa.


A questão ficou tão desgraçadamente na cabeça da direção da TV, que esperaram apenas o fim da sabatina e mantiveram no ar, de modo que demonstraram completo desconforto com a situação que envolveu inclusive os jornalistas presentes. Sem saber o que fazer, com imagens ao vivo e aguardando uma posição, Miriam Leitão pediu um minuto e, pouco tempo depois, surgiu uma nota narrada no ouvido da apresentadora.

Em um misto de improviso e “telefone sem fio”, alguém falou pelo ponto eletrônico e Miriam Leitão repetiu, gaguejando, o trecho final do editorial da Globo publicado em 2013, quando reconheceu que o apoio ao golpe de 1964 foi um erro.

“À luz da História, contudo, não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original. A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma.””
Disse Mirian: (Vídeo no final)

“É fato que Roberto Marinho e O Globo apoiaram a ditadura num editorial de 1984, assim como todos os grandes jornais com exceção do Última Hora. Aos que dirigiam o jornal na época, aquela pareceu ser a atitude certa, visando o bem do país. O que Bolsonaro esqueceu é que o Grupo Globo considerou o apoio um erro. O editorial diz ao fim, explicitamente, que o apoio foi um erro a luz da história, assim como foram equivocadas outras decisões editoriais no período que ocorreu esse desacerto original. A democracia é um valor absoluto, corre risco e só pode ser salva por si mesma.”

A situação foi de tamanho constrangimento que deixou tanto a emissora, quanto os jornalistas completamente sem ação no momento da argumentação de Bolsonaro. Foi quando a Globo demonstrou todo o seu poder, exercendo a última palavra sobre um candidato inepto. Em outras palavras, a Globo foi excessivamente covarde ao apresentar um ditatorial justificar que se arrependeu de ter apoiado toda a covardia do golpe de 64. Não poderia ser diferente.

No final, a Globo foi a mesma Globo de 1964.



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