
Breve análise do debate na Band: O futuro é sinistro. Uni-vos
Dhiego Recoba*, por e-mail
Henrique Meirelles: é o Temer modo 1.
Tentou passar a ideia de que seu passado político é Lula e nada mais, rejeitando a paternidade da crise oriunda do golpe.
Os reflexos econômicos da deposição de Dilma são como merda encontrada no vaso: ninguém assume que fez.
Ferrou com mais de 100 milhões de brasileiros nos últimos 3 anos e teve o desplante de se mostrar como alguém preocupado com o “povo”.
Marina Silva: um monte de generalidades sem especificar coisa alguma, sem se comprometer com nada.
É uma das representantes do “fora todos”, só ela presta e mais ninguém. Fala de tudo mas não aponta um caminho para nada.
Diz que é preciso “enfrentar o problema da reforma tributária” mas não diz como, justamente porque não pode se comprometer com pautas do povo que contrariam os interesses de sua amiga Neca Setúbal, herdeira do Itaú, um dos maiores agiotas deste país.
Ciro Gomes: foi isolado no debate, tanto pelo formato que não pretende estimular grandes reflexões, quanto pelos seus adversários que fugiam dele como o diabo foge da cruz.
É compreensível, pois nenhum dos postulantes à presidência, à exceção de Lula e Boulos, tem condições de debater com Ciro, o que não justifica ter sentido o golpe.
Na tentativa de alcançar o eleitorado conservador, imensa maioria no Brasil, acanhou-se de um modo que o fez parecer um político comum.
Precisa radicalizar da mesma forma que em suas aparições públicas nos últimos dois anos.
Foi a clareza frente aos problemas do Brasil que consolidaram uma militância em torno de seu nome nas redes sociais, pois encabeça a única chapa que demonstra ter um projeto nacional de desenvolvimento e uma saída rápida da crise social que assola o País.
Seus melhores momentos no debate passaram por aí, quando desequilibrou Bolsonaro e carimbou “Temer” na testa de Alckmin ao falarem da reforma trabalhista.
Cabo Daciolo: facilmente confundido com Cabo Sem Miolo, conseguiu a proeza de empurrar Bolsonaro para a direita, demonstrando que o buraco do fundamentalismo cristão no Brasil é muito, mas muito mais embaixo do que se supõe.
Seu auge foi a URSAL, coisa de gente doente que propaga sua loucura na web.
Durante as mais de três horas de programa, a impressão que se tinha era a de que, a qualquer momento, sacaria um fuzil escondido debaixo do terno e metralharia todos no estúdio. Foi assustador.
Sua presença no debate reflete o nível proposto pelo stablishment para a discussão dos problemas do país.
Como um sujeito desses ocupa o lugar de Vera Lúcia do PSTU?
Como o PSOL não percebeu toda essa loucura quando de sua filiação ao partido, dando-lhe notoriedade suficiente para ser eleito deputado federal?
Guilherme Boulos: falando em PSOL, destaca-se a participação de Boulos no debate.
Parece ser o último reduto de uma civilização fraterna no Brasil. Compreende-se por que seu partido não aceitou a frente ampla proposta pelo PT, com Lula à frente, é lógico.
Cortou a cabeça de Bolsonaro na primeira oportunidade, coisa que Ciro não fez quando pôde.
Teve boas sacadas, como a história dos 50 tons de Temer, por exemplo. O problema é que ainda fala para um grupo muito específico, notadamente pessoas com alto grau de instrução e valores humanistas sólidos.
Quem dera a massa brasileira estivesse mais para Boulos e menos para Daciolo. Seria um presidente de respeito.
Jair Bolsonaro: sustentou muito bem uma máscara de democrata por mais ou menos duas horas, tentando parecer algo que não é para o grande público, até Ciro Gomes lhe cutucar com a fosfoetanolamina, palavra tão difícil quanto “establishment”, vocábulo que Bolsonaro não conseguiu pronunciar.
Aí a máscara caiu e o que apareceu foi o conhecido füher do youtube.
Deve se preocupar (e muito) com o cabo Daciolo, do contrário perde uma fatia da manada de estúpidos que lhe veneram.
Álvaro Dias: é o Temer modo 2. até o dia de ontem, pouca gente sabia que o Coringa havia sido senador pelo estado do Paraná.
Sujeito esperto, fez carreira no PSDB a vida toda e saiu do partido na primeira vez que o casco do navio furou.
Álvaro Dias preocupa por duas razões: a primeira é que encarnou o ideário da lava-jato, este estado paralelo que acabou com 160 bilhões da Petrobrás em contratos, resgatando apenas 1 bi, em nome de um moralismo demagógico e servil ao império norte-americano.
A segunda razão é que pessoas que pensam a política nacional a cada quatro anos são um alvo fácil para este tipo.
Álvaro Dias é, seguramente, um dos cartuchos que o ESTABLISHMENT (atenção na grafia, Bolsonaro) guarda na cintura.
Geraldo Alckmin: é o Temer no seu último upgrade.
Em alguns momentos, o picolé de chuchu lembrou o Serra falando, o que não é nenhuma surpresa, já que o cinismo é parte do DNA tucano.
Vivi tempo suficiente para ver o Alckmin criticar o “bolsa banqueiro”, simplesmente porque todos ali falavam o mesmo.
Alckmin vende uma ideia de São Paulo que beira o ridículo, como se esta fosse moderna como Londres e pungente como Pequim, quando não passa de uma Munique mal construída, berço de um pensamento racista e autoritário.
Valha-me Deus (outro presente no debate), que o Brasil tenha uma sorte melhor.
Sobre as considerações finais: foi o momento que quem escreve esta análise debatia-se no sofá, involuntariamente.
É assustador o quão miserável é a oferta proposta pelo sistema político brasileiro.
Sobre o modelo do debate: feito exclusivamente para minar o confronto de ideias, valorizando a ignorância e o fundamentalismo de todas as matizes.
Agora compreende-se perfeitamente o porquê da perseguição a Lula.
Sem ele, tive a impressão de que qualquer um pode ganhar o pleito, tamanho o nivelamento dos candidatos.
Quem se destaca em ideias perde no modelo de discussão, como Boulos e Ciro.
Mais: aumenta a responsabilidade de Lula caso a tragédia se confirme.
Seria fundamental indicar um candidato de fora.
Poderia ser Ciro, poderia ser Boulos, mas para o PT a hegemonia interna parece valer mais do que o Brasil.
Nuvens densas se aproximam. Busquem abrigo.
*É professor de História em Porto Alegre, convivendo com atrasos de salário há 32 meses
Viomundo
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