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A velha sentença usada para eleger políticos corruptos pode vir a ser mudada moralmente para eleger políticos sem propostas. O brasileiro acabou por se afogar nesse dilema maldito. Ou um político que faz as duas coisas; ou um que simplesmente nada faz


Por Raphael Silva Fagundes

Para Jugen Habermas “um acordo sobre questões teóricas ou moral-práticas não pode ser imposto nem dedutivamente nem por evidências empíricas”.1 São questões que estão para além da prova física. Essa questão leva Habermas a acreditar que não existem proposições assertóricas capazes de serem autônomas como as normas morais. O que isso quer dizer? Que quando, num debate, um orador quer provocar o outro com proposições técnicas, como soluções empíricas para a educação, saúde etc., ele pode perder a peleja, caso o orador despreparado tecnicamente recorra a princípios morais reconhecidos por todos.

Se perguntado como resolver o problema do desemprego, uma pessoa desqualificada responder, “é só acabar com a corrupção”, quem será contra esta assertiva, já que a corrupção é algo execrado por todos. Se perguntado como resolver a crise econômica este mesmo indivíduo responderá: “é só acabar com as questões ideológicas que comandam a economia”. Todos serão a favor dessa premissa, pois não há hoje nenhum candidato que se oponha abertamente ao livre mercado.




Perguntado se é contra os direitos das mulheres é só responder que é contra o estupro. Se perguntado como melhorar a educação é só dizer que é necessário respeitar o professor. Esses argumentos normativos, embora não sejam práticos, são mais eloquentes que as soluções técnicas. Após apresentar um princípio moral compartilhado por todos, alguns, seduzidos pela moralidade, não se interessam mais pela maneira que aquela moralidade será alcançada, seja através de militares como diretores de escola ou através da castração química – argumento usado, inclusive, para provar que não se é machista.

Quando Marina pressionou Bolsonaro sobre a questão da mulher, este logo a retrucou dizendo que a candidata da rede defende o plebiscito para o aborto e da legalização da maconha. A questão empírica que ela trouxe para a discussão (o fato de homens e mulheres terem a mesma capacidade) foi respondida com argumento moral, que possui uma forte pretensão de validez entre o eleitorado do candidato do PSL.





Certos eleitores perderam a racionalidade ou preferem desprezá-la. Estão vidrados pelos fins, mesmo que os meios prejudiquem a eles mesmos. É a vitória da vontade sobre o juízo. Imagine uma mulher votar em Bolsonaro sendo que este acredita que ela deve ganhar menos? Ou um professor, já que o deputado prometeu, se eleito, demitir professores em massa para adotar o ensino à distância? Onde está a racionalidade nisso?

Um discurso “herético” reacionário, incapaz de criar uma nova visão de mundo, precisa lançar uma imagem simples que alimenta a transparência, anulando a política e criando, portanto, “um discurso político despolitizado”. Usa-se uma espécie de retórica da imparcialidade através de um suposto ethos de decência e inocência.2 Por isso se diz não entender de economia, mas que no seu governo uma economia “inocente” livre de ideologias seria adotada.





Além disso, em todo processo retórico político, existe a estratégia de condescendência que obriga um nobre fazer gestos que dão a impressão de que ele é simples. Esse jogo cultural é muito comum nos políticos, mas é mais evidente em Bolsonaro que adota estratégias linguísticas e intelectuais que o assemelham a um homem comum, ao mesmo tempo que declara um patrimônio de milhões no TSE.

A mudança do paradigma popular





Um articulista político do governo de Charlinho em Itaguaí disse no período da candidatura do famigerado político à prefeitura da cidade localizada na região metropolitana do Rio de Janeiro: “Charlinho é como Maluf, rouba, mas faz”. Um mote que contribuiu para levá-lo à vitória. Mas sem dúvida, o que se provou foi que só a primeira sentença pode ser corroborada já que o município sofre com inúmeros problemas sociais. Hoje a maior parte da população reprova o seu governo.

Contudo, vemos nascer uma inversão desse argumento político que habitou o folclore politico brasileiro desde Adhemar de Barros. Ou seja, precisamos deixar claro que não há uma superação desse argumento, apenas uma inversão, ou melhor, a introdução da negação.

Pelo fato dessa frase ser mera retoricidade, a introdução do advérbio de negação “não” é interessante porque pode abrir espaço para uma gama de indivíduos despreparados com uma grande adesão popular. Não importa mais a proposta, se possível, não precisa ter nenhuma, apenas impor a imagem (mesmo que falsa) de que não se está contaminado pelo mundo corrupto supostamente endêmico à política.

A questão é que a velha sentença usada para eleger políticos corruptos pode vir a ser mudada moralmente para eleger políticos sem propostas. O brasileiro acabou por se afogar nesse dilema maldito. Ou um político que faz as duas coisas; ou um que simplesmente nada faz.





Não existe uma proposta para distribuir o que não seria roubado. E mesmo se tivesse, o povo só quer saber da honestidade do candidato. O primeiro e o segundo lugar nas pesquisas são justamente políticos que são reconhecidos como não corruptos, ou pelo menos, são os que mais investem nesse ethos (Bolsonaro mais que Marina). Os dois possuem propostas genéricas ou impraticáveis (às vezes até absurdas), resumindo, assim, suas propostas a suas próprias imagens.

O cidadão comum nunca foi chegado a política, e passou a entender que todo político é ladrão. Sendo assim, para mudar todo o estado de coisas, é necessário só uma: que o político não roube. Em seguida, tudo se resolveria automaticamente. Antes as pessoas já estavam convencidas de que a natureza do político era roubar, mas contanto que fizesse estava tudo bem. Hoje, talvez pela sistemática investida midiática contra Lula, que tanto fez pelo país, acusando-o de corrupção, em meio a um cenário de crise econômica, vemos a opinião pública dando a luz a uma criatura esquisita e traiçoeira.

Cabe lembrar que tudo isso é fabricado para o controle da opinião pública. A mudança do paradigma popular não era exatamente o que as elites queriam, mas, no ruim de tudo, sabem que os políticos que chegarem ao poder serão facilmente submetidos às suas propostas. Se eles não possuem propostas, elas certamente têm. Essa mudança de paradigma, portanto, só pôde ser tolerado pelas elites devido ao enfraquecimento da esquerda, pois a imagem de honesto, por mais que muitos políticos de esquerda não estejam envolvidos em corrupção como é o caso de Boulos, tornou-se um conceito antitético e assimétrico ao de esquerdista. É a maravilha da manipulação política.



1 HABERMAS, J. Consciência moral e agir comunicativo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989. P. 83.

2 BOURDIEU, P. A economia das trocas linguísticas. 2 ed. São Paulo: EdUsp, 2008. P. 121.


Revista Fórum

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