A manchete do Estadão, hoje, é quase um lamento pela chance que Geraldo Alckmin teve de mudar a impressão geral de nada do que se faça por ele consegue desfazer a sua falta de capacidade de empolgar e convencer as pessoas.
Vai ser difícil esperar um crescimento expressivo nos tucanos que as pesquisas, inexplicavelmente postergadas, pudessem atribuir ao seu desempenho televisivo, uma vez que a aliança com o centrão não vitaminou os índices do ex-governador paulista.
Por isso, mais que por qualquer coisa, justifica-se uma análise do debate de ontem que, ao fim e ao cabo, pouca importância de massa tem além de uma primeira impressão sobre os candidatos que se engalfinham para ter a vitória ungida pela Justiça, que tirou Lula do páreo, e não por sua capacidade.
Millôr Fernandes, numa daquelas suas frases ferinas, disse que “muito mais importante que ser genial é estar cercado de medíocres”.
O debate de ontem na Bandeirantes era a ocasião por excelência para alguém brilhar e meio à mediocridade.
Mas, ao que parece, a mediocridade espalhou-se ali como um vírus destes de epidemia que não poupa ninguém.
Ciro Gomes, que tinha capacidade para destacar-se ali com o apelo nacional, popular e democrático, arranjou uma “ideia-força” de marqueteiro, a de anistiar os brasileiros inscritos no cadastro do SPC para se agarrar durante todo o debate, como se isso fosse a panaceia da economia. Claro que é possível até mesmo fazer algo neste sentido, mas o alívio da situação de inadimplência é, essencialmente, fruto da retomada da atividade econômica. Até porque, sem isso, é como enxugar gelo.
Perdeu a chance de, assumindo ser uma voz pelo direito de Lula participar da eleição, reduzir as arestas que criou à esquerda e os ressentimentos dos simáticos ao ex-presidente.
Boulos, logo na abertura do debate (e depois não mais, até para minha surpresa) fez a menção a “Lula estar preso e Temer estar solto”, mas também não se aprofundou ou insistiu na questão central deste processo eleitoral: a de que ele se dá com a interdição da maior força política do país e com o evidente objetivo de dar formalidade a um projeto de dominação do povo e desmonte do país.
Jair Bolsonaro, ao que parece, não teve problemas com a sua incapacidade de expressar-se de forma articulada. Seu eleitor também não tem capacidade de entender argumentos e, portanto, estão ambos entendidos no reino da estupidez. Ninguém, exceto Boulos no primeiro bloco, quis confrontá-lo.
Henrique Meirelles é patético, incapaz de falar sobre qualquer coisa que não seja uma ridícula autolouvação em que se apresenta como o responsável pelo sucesso dos governos de Lula. Um amigo disse-me que Meirelles parece ser alguém que ” só escreve no Excel, não no Word”.
Álvaro Dias fez exatamente o que se tinha antecipado aqui. Fez da Lava Jato e de Sérgio Moro os sucedâneos de Hugo Henrique, o cão bichon frisé com que sustentou sua candidatura ao Senado em 2014. Bateu no PSDB sem nenhum pudor, num espetáculo de amnésia de ter sido, por anoes e anos e até há pouco, também ele um tucano.
Marina Silva é mais do mesmo: fria, antipática e destino ideal para as perguntas de quem não quer “fazer marola” e que o debate não ‘esquente”. Foi e é o acompanhamento ideal para o “Chuchu” Alckmin.
Este, a meu ver, foi o grande perdedor.
Incapaz de imprimir emoção, deixo que dele fale a tucanérrima Vera Magalhães, do Estadão, que lhe dá o penúltimo parágrafo de sua análise do debate, acima apenas da ausência de Lula:
O tucano procurou se manter propositivo, mas soou professoral e pouco didático. Enfileirou uma série de siglas de difícil compreensão para o eleitorado comum e evitou revidar na mesma moeda as chineladas [muito leves, diz este blog] que recebeu. Soou frio e burocrático a maior parte do tempo”.
Era dele a chance de brilhar, demonstrando-se enérgico, capaz, convincente.
Ah, por fim, o candidato a “meme”, o tal Cabo Daciolo, com direito a criação da inédita “União das Repúblicas Socialistas da América Latina”, a ser combatida “em nome de Jesus”.
Pobre Cristo, não merecia esta cruz…
TIJOLAÇO

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