O incêndio do Museu Nacional é apenas a ponta visível de uma grande tragédia nacional. (Foto: Vitor Abdala/ Agência Brasil)

Tarso Genro (*)

A quebra democrática e social nos dois países mais importantes da América do Sul mostram a falácia, incompetência e a sordidez dos políticos liberal-rentistas e dos principais “técnicos” da economia neoliberal que se refestelaram, nos últimos dois anos, com a “genialidade” de Macri para retirar a Argentina da crise e vibraram com os métodos golpistas “democráticos” de Temer e FHC, para derrubar uma Presidenta eleita com mais de 50 milhões de votos. Os algozes de Macri estão no mercado, que detém a propriedade da sua alma. Tudo em nome da defesa da economia de mercado e contra o “populismo”.

Os dois países estão desmantelados, a fome ressurgiu mais forte e o desemprego aumentou brutalmente. A mortalidade infantil voltou a crescer em ambos os países, o dólar explodiu e os mercados mandaram todos os seus apóstolos se danar, porque a sua especialidade não é a solidariedade. Nem o reconhecimento da dor. Não é a preocupação com a fome ou com a violência, mas a taxa de juros mais alta e a extorsão das riquezas de cada nação, sufocada pela dívida.

Recomeçam os saques na Argentina. Macri, enleado na teia de compromissos com o capitalismo financeiro tornou-se um sub-gerente do FMI, repassando para o povo argentino mais pobre o pagamento das suas exigências criminosas. A Argentina agoniza e provavelmente tenha razão Zaffaroni – quando esteve aqui em Porto Alegre – ao afirmar que o Presidente não chegaria a março de 19 – sacudido por grandes movimentos de rua, com protestos, saques a supermercados e armazéns. É a indignação de um povo que – à semelhança do que ocorrera aqui no Brasil nos dois Governos Lula e no primeiro Governo Dilma – passara, com os “populistas”, a viver melhor e com mais dignidade.

Se fosse apenas desconhecimento da História, esta classificação de “populistas” – feita aos governos populares do continente como os de Lula e Kirchner – poder-se-ia dizer que a perplexidade destes gênios” da má fé, sobre aquilo que ocorre na Argentina, seria apenas consequência da sua ignorância inicial. Mas não é assim. Os governos que distribuem um pouco da riqueza concentrada são taxados de populistas pelos mais rematados populistas! Quais são? Os que fazem do mercado uma profecia perfeita, precisamente porque o mercado não distribui renda, o Estado sim. O mercado apenas recebe os consumidores com rendas já desiguais, o que faz do elogio religioso do mercado a propaganda do populismo pós-moderno: ao invés de serem iguais perante a lei, as pessoas que se contentem em serem iguais perante o mercado.

O incêndio do Museu Nacional é apenas a ponta visível de uma grande tragédia nacional, que vai muito além do prejuízo histórico brutal da perda do seu acervo, pois ele atesta que o teto de gastos, incensado pela imprensa tradicional, atravessará todos os poros da sociedade e assim como dizimará museus, já está impiedosamente a espalhar a dor e a exclusão, como regra de ouro de uma sociedade, que não cuida do seu passado nem do futuro do seu povo generoso.

(*) Tarso Genro foi Governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil.


Sul 21

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