O que o Brasil gasta por habitante é três a quatro vezes menos que o registrado nos países desenvolvidos com os quais a qualidade dos serviços públicos é normalmente comparada
Há anos ouvimos no debate político e econômico do país que o Estado brasileiro é muito grande e que gasta demais. Com base nessa alegação, inclusive, o Congresso aprovou no final de 2016 emenda constitucional que congelou por vinte anos a despesa primária da União em termos reais, o que significa, dado que a população cresce, a progressiva redução dos gastos do governo em termos per capita.
A acusação de gasto excessivo geralmente se apoia em dois tipos de evidência, ambas falaciosas. A primeira delas aponta que o gasto total do governo em relação ao PIB é no Brasil superior ao verificado em outras economias em desenvolvimento. De fato, enquanto essa relação é de cerca de 38% no país, ela é de apenas 30% na média geral desse grupo e de 33% na média da América Latina. Ocorre que a relação entre gastos do governo e PIB simplesmente não possui nenhuma ligação óbvia com o grau de desenvolvimento de um país, mas, sim, com o nível de desigualdade que sua sociedade considera tolerável e, daí, com a parcela do seu produto total que decide concentrar nas mãos do Estado para que ele possa implantar mecanismos distributivos como as transferências de renda e o fornecimento de serviços públicos universais.
É por isso que gastos elevados do governo são encontrados tanto em países desenvolvidos (a grande maioria deles) como em alguns de renda mais baixa como Moldávia e Bolívia, e gastos baixos são registrados na maioria dos países em desenvolvimento e também em alguns países ricos que são mais tolerantes à desigualdade como os EUA.
A segunda evidência aponta que o gasto do governo no Brasil seria excessivo em vista da baixa qualidade dos serviços públicos que fornece quando comparados aos existentes em países com gasto supostamente equivalente. Ocorre que a comparação, feita com esse gasto em relação ao PIB, é, apesar de recorrente, absolutamente descabida, uma vez que o que determina a qualidade dos serviços é o valor real do gasto per capita, ajustado pelas diferenças no poder de compra entre os países, e nunca o valor relativo. Quando nos apercebemos disso e comparamos no gráfico abaixo o que importa, vemos que o gasto do Estado por habitante no Brasil é, na verdade, três a quatro vezes menor que o registrado nos países desenvolvidos com os quais a qualidade dos serviços públicos é normalmente comparada.

Entretanto, por mais importantes que tais considerações sejam, elas não devem mascarar o elemento central na discussão sobre o tamanho dos gastos do Estado, que reside no quanto a sociedade tolera que grande parte da população se mantenha na pobreza em meio à riqueza de alguns. Essa discussão é certamente legítima, mas deve ser bem informada, evitando os argumentos falaciosos aqui apontados e tão frequentemente evocados no debate.
Crédito da foto inicial: Paula Laboissère/Agência Brasil
Brasil Debate

Postar um comentário
-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;