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| © AFP 2018 / Mauro Pimentel |
Já era quase madrugada em Portugal quando o maior acervo cultural e científico da América Latina começou a ser destruído pelo fogo. O país acordou com o incidente nas manchetes nacionais.
"A notícia do dia para nós tem sido o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro", diz à Sputnik Brasil Manuel Carvalho, diretor do Público, um dos principais jornais de Portugal. "É a notícia que nossos leitores mais procuram. Estamos com uma equipe de jornalistas desde o início da manhã a acompanhar, para nós é o grande acontecimento do dia, trágico, infelizmente", explica o jornalista.
O Museu Nacional do Rio de Janeiro, consumido pelas chamas, também deixa órfãos milhões de portugueses, que reconhecem a importância do acervo perdido para o patrimônio nacional. "Desapareceram coisas que são insubstituíveis, nem consigo efetivamente expressar a tristeza que é", declara emocionado à Sputnik Brasil o historiador Anísio Franco, que é conservador do Museu Nacional de Arte Antiga, um dos principais equipamentos culturais de Portugal. "Mais do que fazer parte da nossa história ou da história do Brasil, o que se perdeu foi um patrimônio da humanidade", declara o historiador.
Criado por Dom João VI quando o Brasil ainda era colônia portuguesa, em 1818, o então Museu Real foi instalado no palácio da Quinta da Boa Vista, que serviu como casa da família real. Em 1822, depois da Independência, foi rebatizado como Museu Imperial e Nacional. Foi com a proclamação da República, em 1889, que se tornou o Museu Nacional do Rio de Janeiro. Ao longo de 200 anos, o equipamento reuniu um acervo de 20 milhões de peças de arte e científicas.
Foi o ministro da Cultura um dos primeiros a alertar Portugal para a gravidade da situação. "Um mau momento para o Brasil", escreveu Luís Castro Mendes no próprio perfil no Facebook, enquanto acompanhava pela televisão o trabalho de combate ao incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro. O ministro está no Brasil em agenda oficial e a visita ao museu era parte dos compromissos. Em declarações à imprensa, Castro Mendes demonstrou a solidariedade do governo português.
O apoio vem também dos profissionais da museologia. "Estamos naturalmente abertos a toda necessidade que houver. Já mandamos e-mail para o diretor a prestar o nosso apoio", diz o conservador do Museu Nacional de Arte Antiga.
As manifestações de solidariedade e pesar multiplicam-se a todo momento. A Direção Geral do Patrimônio e Cultura, órgão que administra os principais equipamentos culturais de Portugal, diz que "hoje é um dia de luto". Um dos grandes nomes da literatura portuguesa da atualidade, o escritor Valter Hugo Mãe se diz "horrorizado" e chama a atenção para o descaso das autoridades brasileiras com o Museu Nacional.
Especializado na cobertura da atualidade no Brasil, o jornalista Manuel Carvalho acredita que a destruição do museu pode ter impactos negativos nas próximas eleições. "Isso mostra que o Estado brasileiro falhou, que não se importa com o patrimônio cultural, e reflete também sobre o amor próprio dos brasileiros. Um desastre dessa proporção contribui negativamente. Isso faz com que haja uma parte importante do eleitorado que esteja disposta a votar em projetos absolutamente radicais, pois já não acreditam que os partidos e políticos do sistema sejam capazes de os defender", analisa o jornalista.
Ainda não se sabe o que causou o incêndio. Para Manuel Carvalho, a investigação deve ajudar na prevenção. "O edifício vai ser restaurado, mas o mais importante não é a sua fachada, é a memória. Agora é hora de olhar para as riquezas patrimoniais que o Brasil conserva. Eu tive a oportunidade de visitar alguns museus no Rio e nota-se que há, claramente, problemas de conservação. A grande utilidade que todos nós, sendo ou não brasileiros, podemos ver numa tragédia dessas é que se olhe para o que aconteceu e se tente evitar em outros que ainda estão de pé".
Sputnik Brasil

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