
Confirmado esse cenário, o quanto o antipetismo irracional da direita do centro vai continuar a ser mais importante do que a defesa do Estado Democrático de Direito e da aposta na superação da instabilidade política estrutural observada no país?
O processo eleitoral delimitou uma questão-chave, bipolar, um divisor de águas na acirrada disputa em curso: o que importa mais para as lideranças políticas, sociais e econômicas e para os eleitores, o antibolsonarismo ou o neoantipetismo, que emerge desde 2014? Essa polarização alavanca duas grandes frentes lutando para conquistar a maioria nas urnas: a frente anti-Bolsonaro e a frente anti-PT. O pano de fundo conceitual e prático da disputa tem o seguinte conteúdo subjetivo e objetivo: no que os atores apostarão, no autoritarismo pró-mercado excludente ou na democracia capitalista inclusiva? Afinal, os significados das candidaturas de Bolsonaro e de Haddad são, respectivamente, por um lado, o neoliberalismo autoritário e, por outro lado, a democracia social-desenvolvimentista.
Na frente anti-Bolsonaro, a maior força organizada é o PT, estruturada na candidatura presidencial de Fernando Haddad, bancada por Lula a partir da prisão em Curitiba. Mas essa frente é plural, social e partidariamente. Contém em seu interior, no que diz respeito ao perfil dos que declaram voto em Haddad e em comparação com a outra frente, mais mulheres que homens, mais não brancos que brancos, mais eleitores de baixa renda que ricos e mais nordestinos que sulistas. Mas, devido ao seu caráter plural, contém também eleitores de Ciro, de Marina, de Alckmin, de Meirelles, de Amoedo, de Boulos e dos outros cinco candidatos presidenciais desse primeiro turno. Há nela também agentes do mercado de dentro e de fora do Brasil, como evidenciado, recentemente, pela matéria de capa da revista conservadora The Economist, que caracteriza Bolsonaro como uma ameaça à economia e à democracia na América Latina, ou seja, não apenas no Brasil.
Bolsonaro é rejeitado por 49% dos eleitores, segundo pesquisa do Ibope (o texto foi escrito antes da divulgação da última pesquisa do Ibope, em 1º de outubro). A rejeição a Haddad é bem menor, 29%, mas, devido ao antipetismo, tem aumentado rapidamente. Entre as mulheres, que são 52,5% dos eleitores, sua taxa de rejeição é de 50%. Segundo a pesquisa do Datafolha divulgada em 13 de setembro, entre os jovens de 16 a 24 anos, que são 15,1% do eleitorado, sua rejeição chega a 56%.
Na frente antipetista, a maior força está no bolsonarismo convicto, hoje 19% dos eleitores, segundo a última pesquisa do Ibope, que mensurou Bolsonaro na liderança, com 28% das preferências. O eleitor típico desse candidato de extrema-direita é homem, branco, de classe média e de curso superior completo. Mas a frente contra o PT também é plural. Tem eleitores em todas as faixas de renda e conta com adeptos nas demais candidaturas supramencionadas.
O centro político está em crise. As quatro vitórias presidenciais dos petistas, a Lava Jato e os problemas na economia em 2014-2015 alimentaram a emergência do antipetismo. Ele empurrou tão fortemente para a direita o centro político-ideológico abrigado nos partidos e na sociedade, que acabou surgindo um extremismo direitista. Ou seja, a extrema direita, que ora assusta a direita autodenominada centrista, nasceu no que chamaria de neoantipetismo, cuja força motriz no plano institucional foi o PSDB, mais precisamente por meio de Aécio Neves, imediatamente após ser derrotado nas eleições de 2014.
Enquanto o velho antipetismo habitava o campo democrático, o novo agregou uma quantidade que lhe alterou a qualidade, tornando-o autoritário. E o autoritarismo é um campo político no qual a força subordina o direito. Em 2014-2015, as forças do neoantipetismo, a começar pelas lideranças, alinhadas na coalizão deposicionista, não visavam, em primeiro lugar, a construir um projeto alternativo de Brasil, mas sim afastar, criminalizar, excluir da competição política o principal obstáculo às suas pretensões de mudança: a existência de um partido de esquerda eleitoralmente competitivo, comandado por Lula. O pacto nacional do senador Romero Jucá (MDB-RR), “com o Supremo com tudo”, sintetizou, em 2016, o processo de construção da estrutura autoritária necessária para sustentar o restante da engenharia política da ponte neoliberal para o futuro.
Mas os principais partidos da nova ordem, MDB e PSDB, unidos no boicote ao ajuste fiscal de Levy, sob a liderança de Eduardo Cunha, na investida pela deposição de Dilma e na sustentação do governo Temer naufragaram duplamente: na corrupção e na economia. Em duas cartas recentes de atores tucanos, uma de Fernando Henrique Cardoso e outra escrita a quatro mãos por Eliana Cardoso e Bolívar Lamounier, os signatários exortam a direita do centro – Marina, Álvaro Dias, Amoedo e Meirelles – a unir-se em torno da candidatura de Alckmin. Essa proposta aparece com toda a clareza na carta escrita em dupla. Marina logo a rejeitou. Conforme as declarações de Tasso Jereissati já haviam evidenciado, os tucanos estão em crise, pois a candidatura de Alckmin não decolou. Mas apelo tucano parece ser infrutífero.
Outro movimento para tentar salvar a lavoura desse campo órfão é a investida no voto útil em Ciro Gomes, candidato da centro-esquerda. A Globo, por meio de alguns de seus veículos e jornalistas, faz certa ofensiva nesse sentido. No último levantamento do Datafolha, o candidato do PDT aparece tecnicamente empatado com Haddad, embora marcando três pontos percentuais a menos que o petista. Mas há também quem avalie ser Ciro visto por forças da direita como herdeiro de Lula.
Enfim, pelas tendências das pesquisas e pela capilaridade do PT nas bases sociais e eleitorais, parece mais provável que o antibolsonarismo chegará ao segundo turno pelo social-desenvolvimentismo democrático de Fernando Haddad, e não com Ciro Gomes. Confirmado esse cenário, o quanto o antipetismo irracional da direita do centro vai continuar a ser mais importante do que a defesa do Estado Democrático de Direito e da aposta na superação da instabilidade política estrutural observada no país?
Merval Pereira, que questionou a resultado das urnas em 2014 e defendeu a deposição de Dilma tão rapidamente quanto Aécio Neves, e outros atores da direita não desistem de projetar freudianamente no PT qualidades antidemocráticas. Pensar e atuar no sentido de que o PT não tem espaço no país é algo que, se fosse possível viabilizar, seria à custa da liberdade política. O neoantipetismo é uma ameaça à democracia, seja o da direita moderada e o da direita extremada. Como disse recentemente uma eleitora para Haddad e para o governador Rui Costa, em Jequié, na Bahia, quem afastou Dilma e prendeu Lula esqueceu-se de prender o povo, ou seja, o soberano na democracia representativa. Qual das duas frentes políticas os atores em geral e as elites em particular apoiarão, sobretudo no segundo turno? O regime democrático depende de que a cultura democrática sustente uma sociedade democrática.
Crédito da foto inicial: Ed Machado/Folha de Pernambuco
Brasil Debate
Postar um comentário
-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;