Existir é muito melhor do que não existir, acho que nisso estamos de acordo. Há quem diga que não existir tem suas vantagens – não se paga mais imposto, por exemplo – mas são poucas. A maioria prefere ficar viva nem que seja para não perder o fim da novela. E ninguém ainda voltou do “outro lado” para nos dizer como é não estar vivo. Eu não tenho a menor curiosidade para saber como é a alternativa para existir.

Há casos em que a alternativa para o que existe é conhecida. Já passamos pela alternativa para a democracia e sabemos muito bem como ela é, num país sem políticos, ou com políticos cerceados por um poder mais alto e armado. Tivemos vinte anos desta alternativa e quem tem saudade dela precisa ser constantemente lembrada de como foi. Não havia corrupção? Havia sim, não havia era investigação para valer. Havia prepotência, havia censura à imprensa, havia perseguição política e tortura, enquanto a presidência do país passava de general para general.

Ao contrário da morte, de uma experiência totalitária se volta, de preferência com uma lição aprendida. Pior do que uma geração sem idade para se lembrar como foi são os que sabem como foi aquele tempo e querem repeti-lo. O entusiasmo de até quem menos se espera por um “governo de força” surpreende. Vamos ver o que vai dar. Até tudo se definir nas urnas, respire fundo.

Luís Fernando Veríssimo




Contexto Livre

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