
Roteiro de domingo do eleitor de extrema direita
por Mário Lima Jr
O eleitor brasileiro de extrema direita acordou no domingo da eleição, deu um beijo nos filhos ainda na cama e tomou café da manhã olhando o WhatsApp. Tinha recebido uma imagem absurda, na noite anterior, com uma fala atribuída ao Haddad dizendo que todas as crianças a partir de 5 anos de idade passam a ser propriedade do Estado. Logo compartilhou a notícia falsa com todos os seus contatos, sem verificar a informação.
Para ir à igreja, cristã, colocou o tênis, vestiu uma calça jeans e uma camiseta branca estampada com o rosto do candidato do Partido Social Liberal à Presidência da República, homem que é a favor da tortura e do assassinato e rejeita a democracia.
Antes de sair de casa, viu na TV que um homem foi morto pela polícia militar poucas horas atrás. Mais um negro morador de favela assassinado pelo Estado. Temente a Deus mas sem medo de julgar o próximo, o eleitor comenta nas redes sociais que talvez o homem fuzilado tivesse envolvimento com o tráfico. Sendo assim, menos um bandido no mundo. Além disso, pensa que na guerra inocentes morrem até a vitória completa, desde que os mortos sejam os favelados.
“Como combater dez bandidos armados com fuzis apontados pra você?”, na porta da igreja o radical perguntou babando, com sangue nos olhos, a um amigo que declarou voto diferente. A resposta é óbvia, a Lei permite atirar e matar quando há situação iminente de risco de vida. A questão que a extrema direita não discute é quais medidas podem ser criadas para impedir que bandidos coloquem as mãos em armas. Medidas de inteligência não atraem votos de extrema direita, só o ódio.
Encerrou a conversa rápido, a missa estava começando, e terminou se despedindo defendendo a volta do regime militar, “pela ordem e pela moral da nação”. Mulheres grávidas, crianças e todo tipo de gente foram arrancados de casa e depois torturados físico e psicologicamente. O Congresso foi fechado, o habeas corpus foi suspenso, atentados terroristas eram praticados tanto pela direita quanto pela esquerda. Não houve ordem nem moral após o Golpe de 64.
Diante da urna o eleitor desejou um Brasil melhor. Onde a empresa que ele abriu recentemente dê certo e ele enriqueça pra gerar empregos. Alega que geraria ainda mais se a reforma trabalhista não tivesse sido tão suave. Quando digitou o número do candidato, não pensou no bem-estar popular ou no desenvolvimento geral da cidadania. Porque rejeita a história de escravidão, pobreza e dor que constituiu o país. Rejeita inclusive qualquer estatística atual sobre miséria e violência. O número de jovens negros assassinados é três vezes maior do que jovens brancos, mas isso tudo é “mimimi”.
De novo em casa, sem arrependimentos, viu no noticiário noturno que não era uma arma na mão do favelado, como a polícia pensou, era um guarda-chuva.
GGN
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