Sociólogo e especialista em Relações Internacionais, Marcelo Zero critica em artigo o discurso do futuro chanceler de Bolsonaro, Ernesto Araújo, que expôs suas intenções de espionar "falcatruas" do PT, com Celso Amorim na mira; "Trata-se de reação típica dos nossos conservadores, medievais ou não. Na falta de argumentos racionais, algo compreensível em quem rejeita o iluminismo, apela-se ao golpe baixo e sujo de acusar os adversários de corrupção", diz ele; para ele, todo o esforço em prol da nossa soberania promovido na gestão de Amorim, durante o governo Lula, "está agora sendo destruído pelo governo do golpe e pelo novo governo de tintes neofascistas que lhe dá continuidade"



O chanceler nomeado, discípulo de Plínio Corrêa e Olavo de Carvalho, cruzado na guerra santa contra o “marxismo cultural”, anti-iluminista e admirador de Trump, afirmou, doído após as críticas que recebeu, que vai investigar as “falcatruas” da política externa altiva e ativa, conduzida por Celso Amorim.

Trata-se de reação típica dos nossos conservadores, medievais ou não. Na falta de argumentos racionais, algo compreensível em quem rejeita o iluminismo, apela-se ao golpe baixo e sujo de acusar os adversários de corrupção.

Foi com esse neoudenismo tardio e com esse macarthismo extemporâneo que a democracia e a economia brasileiras foram para o buraco. A luta contra a corrupção, obviamente imprescindível em qualquer pais, foi politicamente instrumentalizada para inviabilizar um projeto progressista e levar ao poder alguém que já foi descrito como neofascista. Agora que o estrago foi feito, basta o arrependimento para lavar eventuais pecados. Já os inocentes devem apodrecer na cadeia.

Ao contrário do que apregoam as fake news e o neoudenismo de ocasião, nosso problema maior não está na corrupção da representação política, pois ela é mero efeito colateral da ligação estrutural que há entre poder econômico e poder político.

Na realidade, o Brasil tem duas grandes “corrupções” que o enfraquecem estruturalmente: a corrupção da pobreza e da desigualdade e a corrupção do entreguismo e da falta de uma soberania plena. Ambas impedem o Brasil de ser país realmente desenvolvido.

Concentremo-nos na segunda.

Celso Amorim, considerado o “melhor chanceler do mundo” pela prestigiada revista Foreign Policy, promoveu, no governo Lula, uma política externa que deu contribuição extremamente relevante para solidificar a soberania brasileira e promover os interesses do Brasil no mundo.

Tal política, que diversificou muito nossas parcerias e fez crescer extraordinariamente nossas exportações e nossos superávits comerciais, foi fundamental para a superação da vulnerabilidade externa da economia brasileira e para nos livrar da tutela do FMI. Foi também graças a essa política que conseguimos amealhar quase US$ 380 bilhões em reservas internacionais, que são justamente as que impedem o Brasil do golpe de quebrar, tal como quebrava nos tempos do neoliberalismo da década de 1990.

O êxito de tal política não se restringiu, contudo, ao âmbito comercial e econômico. Na realidade, os ganhos mais expressivos foram político-diplomáticos.

Com efeito, naquela época o Brasil diversificou e intensificou as parcerias estratégicas com países emergentes, investiu no multilateralismo, reaproximou-se à África, empenhou-se na integração regional, com o fortalecimento do Mercosul e criação da Unasul e da Celac, e, sem abandonar as suas boas relações com países mais desenvolvidos, deu prioridade à cooperação Sul-Sul.

O resultado desse grande esforço foi o fortalecimento da nossa soberania e a grande ampliação do protagonismo mundial do Brasil. Nunca o nosso país havia tido tanto prestígio internacional e Lula se converteu no primeiro mandatário brasileiro a ser liderança realmente mundial.

Entretanto, todo esse esforço em prol da nossa soberania está agora sendo destruído pelo governo do golpe e pelo novo governo de tintes neofascistas que lhe dá continuidade.

O novo governo, em particular, esmera-se em promover trapalhadas em política externa, além de prometer empenhar-se em entreguismo amplo e irrestrito de recursos estratégicos. De fato, é tocante ver como a armada Bolsoleone se esforça em dar declarações e anunciar decisões que visam contrariar os interesses objetivos do Brasil e nos enfraquecer.

São verdadeiras falcatruas contra nossa soberania.

O capitão, talvez obedecendo a determinações superiores, comprou briga com a China, nosso principal parceiro comercial, com os países árabes, vitais para nossas exportações de alimentos, e com Cuba, rompendo unilateralmente com o acordo firmado com a OPAS e o governo daquela ilha e deixando sem assistência médica cerca de 30 milhões de brasileiros.

Não bastasse, Bolsonaro e seu novo chanceler, emulando seu ídolo Trump, resolveram brigar com todo o movimento ambientalista mundial, pois questionam abertamente o caráter antropogênico do efeito estufa. O capitão prometeu até retirar o Brasil do Acordo de Paris. Já o chanceler inquisitorial diagnosticou que o aquecimento global é uma ideologia inspirada, é claro, no “marxismo cultural”. Mereceu artigos jocosos na imprensa internacional.

Por sua vez, o superministro Paulo Guedes e a nomeada ministra da Agricultura já assestaram suas baterias contra o Mercosul, bloco de grande relevância para o Brasil. A nova ministra prometeu até retirar o Brasil do Mercosul, caso “acordos não sejam revistos”.

Trata-se de ignorância ou má-fé. Talvez ambos.

Apenas no ano passado (2017), exportamos US$ 22,6 bilhões para o Mercosul e, para a América do Sul como um todo, US$ 35, 2 bilhões. Saliente-se que os países da América do Sul, em função de acordos comerciais com esse bloco, já fazem parte da área de livre comércio do Mercosul, mesmo aqueles que não integram o bloco como membros plenos, como os da Aliança para o Pacífico, por exemplo. Para toda a América Latina, exportamos nada menos que US$ 43,9 bilhões, em 2017.

Pois bem, no mesmo período, exportamos apenas US$ 26, 8 bilhões para os EUA e US$ 34,9 bilhões para a União Europeia. Desse modo, o Mercosul e a integração regional mais ampla que ele propicia são mais importantes comercialmente para o Brasil que os EUA e a União Europeia.

Mas a principal característica de nossos fluxos comerciais com o Mercosul e a América Latina tange ao grande percentual de produtos manufaturados que exportamos para a região. Com efeito, as exportações brasileiras para o bloco são, em cerca de 90%, de produtos industrializados, com alto valor agregado.

Na realidade, no período 2010-2014, a Associação Latino-americana de Integração (ALADI) e o Mercosul absorveram mais produtos manufaturados brasileiros que todos os países desenvolvidos somados. Somente no ano passado (2017), exportamos US$ 20,11 bilhões de manufaturados para o Mercosul.

Contudo, a importância do Mercosul e da integração regional como um todo, que se corporifica na Unasul e na Celac, não é apenas econômica e comercial, é também política e diplomática.

A bem da verdade, o Mercosul nasceu de um ditame geopolítico. Após a queda das ditaduras militares no Brasil e na Argentina, os novos governos democráticos (Sarney e Alfonsín) resolveram acabar com a rivalidade entre os dois países e promover o distensionamento na região, visando à conformação de um entorno pacífico, democrático e soberano. Essa foi a grande realização do Mercosul.

Com tal distensionamento geopolítico, nossa região se tornou, de fato, mais integrada e soberana. Unidos, nos tornamos mais fortes e prósperos. Hoje em dia, não se pode pensar no fortalecimento da soberania brasileira sem se pensar na soberania de todo nosso entorno regional.

Não obstante, o governo do golpe e o novo governo neofacista que lhe dá continuidade parecem querer jogar esse esforço integrador de décadas pelo ralo. Almejam que o Brasil e a região voltem ao estágio em que estavam na época das ditaduras. Querem a volta da atomização e dos conflitos internos na América do Sul. Sonham com a desintegração regional e com a integração assimétrica com países desenvolvidos. Querem a perda de soberania. Visam algo que só beneficia interesses estrangeiros. Parecem querer até uma guerra econômica ou militar com a Venezuela, obedecendo à administração Trump.

Somando-se a isso a intenção, corroborada pela criação da Secretaria das Privatizações, de vender e desnacionalizar recursos estratégicos e as grandes empresas estatais que restam, inclusive os bancos, e temos o quadro acabado de uma enorme falcatrua contra a soberania nacional. Uma falcatrua que irá nos transformar numa neocolônia regida por valores pré-modernistas.

America First e Brazil Last, parece ser o lema do governo desse grande logro político, que não foi debatido com a população.

Assim sendo, o novo chanceler de ideias vetustas deveria parar de querer emular Torquemada e adular Trump, e tentar aprender algo com Celso Amorim. Um pouco de iluminismo, pragmatismo e verdadeiro patriotismo lhe faria muito bem.


Brasil 247

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