Bolsonaro tem muita margem de manobra para fazer jogadas impopulares e de alto risco e ainda assim sobreviver politicamente.
Por Renato Rovai*
Bolsonaro foi tratado como carta fora do baralho por quase todo o período eleitoral. Em especial pelo campo progressista que o considerava o adversário ideal no segundo turno. Deu no que deu.
Sua eleição é algo surpreendente e pode ter alguma relação com a facada que o humanizou, mas não pode ser explicada apenas pelo Sobrenatural de Almeida.
Ela foi se consolidando como projeto político das bordas para o centro desde a eleição de 2014 e ganhou potência com a divulgação dos áudios da JBS que via desmoralização de Aécio acabaram com o PSDB.
Ali muita gente deve ter estranhado o que levou ao vazamento daqueles áudios contra Aécio. Hoje, com o esquema Moro no governo Bolsonaro talvez fique mais fácil entender certas coisas.
Bolsonaro já era ali o plano A da Lava Jato. Ele já era entendido como o único capaz de enterrar os avanços da Constituição de 88 e ao mesmo tempo acabar com a esquerda.
O que se seguiu foi só ampliando esse conceito de mito do candidato do PSL e tornando corruptos todos os seus adversários políticos.
Como Lula venceria Bolsonaro ou qualquer outro adversário, foi preso.
Depois da vitória do capitão, já começam a surgir análises de que seu governo não se sustentará por muito tempo. Que em seis meses estará desmoralizado. A chance de essa análise estar equivocada é tão grande quanto àquela que subestimou o seu potencial eleitoral.
Bolsonaro tem muita margem de manobra para fazer jogadas impopulares e de alto risco e ainda assim sobreviver politicamente. Porque ele tem um ativo que perpassa os resultados objetivos da economia e pode lhe garantir manter boa parte de sua base social, o ódio aos direitos humanos, ao movimento social, aos corruptos, aos bandidos etc.
Este ódio pode ser alimentado com perseguição e violência. E se os resultados não vierem a esses que estão sendo combatidos será atribuída a culpa pela crise do país.
Isso cansa depois de muito tempo, mas no começo soará como música para a militância de extrema direita que foi alimentada com mamadeira de sangue. Eles querem continuar tomando sangue, mas agora em proporções maiores.
Os ataques serão suficientes para garantir a Bolsonaro alguma tranquilidade pra ir operando medidas impopulares na economia que podem garantir num primeiro momento algum crescimento e geração de emprego. O que será suficiente para justificar sua ação, como está acontecendo com Trump nos EUA.
Não é inteligente menosprezar a força dos adversários, mas neste caso específico agir assim é burrice.
Há um projeto muito mais complexo a sustentar Bolsonaro do que se pode visualizar à primeira vista. Por isso não é hora de avaliações apressadas acerca da sua derrocada, mas de medir a temperatura dos seus atos pra tentar antecipar suas jogadas. O jogo parece ser de truco, mas é xadrez. Não vai ser decidido no berro.
*Renato Rovai é jornalista, mestre em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP) e doutor pela Universidade Federal do ABC.
Fonte: Revista Fórum
Portal Vermelho
Sua eleição é algo surpreendente e pode ter alguma relação com a facada que o humanizou, mas não pode ser explicada apenas pelo Sobrenatural de Almeida.
Ela foi se consolidando como projeto político das bordas para o centro desde a eleição de 2014 e ganhou potência com a divulgação dos áudios da JBS que via desmoralização de Aécio acabaram com o PSDB.
Ali muita gente deve ter estranhado o que levou ao vazamento daqueles áudios contra Aécio. Hoje, com o esquema Moro no governo Bolsonaro talvez fique mais fácil entender certas coisas.
Bolsonaro já era ali o plano A da Lava Jato. Ele já era entendido como o único capaz de enterrar os avanços da Constituição de 88 e ao mesmo tempo acabar com a esquerda.
O que se seguiu foi só ampliando esse conceito de mito do candidato do PSL e tornando corruptos todos os seus adversários políticos.
Como Lula venceria Bolsonaro ou qualquer outro adversário, foi preso.
Depois da vitória do capitão, já começam a surgir análises de que seu governo não se sustentará por muito tempo. Que em seis meses estará desmoralizado. A chance de essa análise estar equivocada é tão grande quanto àquela que subestimou o seu potencial eleitoral.
Bolsonaro tem muita margem de manobra para fazer jogadas impopulares e de alto risco e ainda assim sobreviver politicamente. Porque ele tem um ativo que perpassa os resultados objetivos da economia e pode lhe garantir manter boa parte de sua base social, o ódio aos direitos humanos, ao movimento social, aos corruptos, aos bandidos etc.
Este ódio pode ser alimentado com perseguição e violência. E se os resultados não vierem a esses que estão sendo combatidos será atribuída a culpa pela crise do país.
Isso cansa depois de muito tempo, mas no começo soará como música para a militância de extrema direita que foi alimentada com mamadeira de sangue. Eles querem continuar tomando sangue, mas agora em proporções maiores.
Os ataques serão suficientes para garantir a Bolsonaro alguma tranquilidade pra ir operando medidas impopulares na economia que podem garantir num primeiro momento algum crescimento e geração de emprego. O que será suficiente para justificar sua ação, como está acontecendo com Trump nos EUA.
Não é inteligente menosprezar a força dos adversários, mas neste caso específico agir assim é burrice.
Há um projeto muito mais complexo a sustentar Bolsonaro do que se pode visualizar à primeira vista. Por isso não é hora de avaliações apressadas acerca da sua derrocada, mas de medir a temperatura dos seus atos pra tentar antecipar suas jogadas. O jogo parece ser de truco, mas é xadrez. Não vai ser decidido no berro.
*Renato Rovai é jornalista, mestre em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP) e doutor pela Universidade Federal do ABC.
Fonte: Revista Fórum
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