O que está ocorrendo na política brasileira evidencia o temor de termos entrado em uma era extremamente perigosa da História não só do Brasil como também da Humanidade.

Esse mal estar é puxado por alguns vetores dos quais destacaria o avanço desenfreado dos meios de comunicação ao mesmo tempo em que a qualidade da informação apresentada é baixa. Não é só uma pequena manchete, um “tweet” de poucas palavras mas também pequenos vídeos de reflexões rasas, pouco adensadas, sem espaço pra debate, sem confronto de pensamento. Esta é a era das “fakes news” que já produz resultados perigosos reais como o Impeachment de um presidente sem o amparo da Constituição (para citar os casos de Paraguai 2012 e Brasil 2016) ou a eleição para presidente de uma figura como Jair Bolsonaro via propaganda massiva nas redes sociais, sem debate, sem reflexão, sem conversa.

Esta era é perigosa não só pela capacidade de desinformação inédita da população como também é uma ferramenta de cabresto e de dominação ideológica ou superestrutural como nunca antes vista. Essa capacidade de colocar um povo inteiro de joelhos a uma figura medíocre como Bolsonaro tendo como base apenas uma ferramenta que cabe na palma de uma mão e conectado numa rede gigantesca como a internet deixaria Joseph Goebbels do Partido Nazista na Alemanha dos anos de 1930 boquiaberto. E esse projeto tem coordenação, não é uma experiência “fora do controle”. Sobre quem está no controle disso tudo, já escrevi a respeito em outra publicação intitulada “Neo-fascismo à brasileira: experiência que saiu do controle ou plano articulado?”.

Algumas das consequências dessa desinformação coletiva animalesca é a possibilidade inédita de manobrar situações. O grande Capital financeiro percebeu isso com eficácia e rapidez desconcertantes. Se as redes sociais reduzem significativamente a capacidade dos indivíduos de fazerem uma análise crítica da realidade, por que não usá-las a seu favor para emplacar políticas econômicas que naturalmente (em qualquer sociedade minimamente racional) não teria apoio algum?

Quando entramos no Mundo da semiótica como arma, não existem limites conhecidos. Falemos de Paulo Guedes, o futuro ministro da Fazenda de Jair Bolsonaro. Guedes não é só um árduo defensor do fascismo (como ele próprio já declarou ter apoiado a ditadura de Pinochet no Chile) como também representante do que existe de pior e de mais retrógrado na Economia em todo o Mundo. Esta figura é simplesmente ovacionada junto com seu parceiro fascista pela população que provavelmente nunca ouviu falar em Paulo Guedes em toda a sua vida. A vulnerabilidade das pessoas é tamanha que praticamente nenhum dos apoiadores do Bolsonaro ou do programa econômico deste governo têm consciência real do que Guedes representa. Seria equivalente à população aplaudir aquele que irá em breve arrancar o coração da população num altar, como se estivéssemos em um ritual sacrificial da Civilização Maia. Como o povo apoia quem irá lhes agredir? Como foi possível chegarmos à este ponto? O que está por trás disso? Qual é o limite disso? Atualmente são mais perguntas do que respostas para esse quadro inédito e perigoso.

As pessoas não conseguem mais interpretar textos, contextos, ideias, tendências. Uma das coisas mais valiosas da discussão política que é a de apreciar uma tese, uma antítese e extrair uma síntese simplesmente acabou para maioria da população que terceirizou metade do seu cérebro para o Whatsapp em notícias rasas e vídeos com discursos questionáveis. E nós não estamos falando mais de “brasileiros humildes”, que nunca tiveram acesso a Educação na vida. Quando falo “brasileiros” no geral, estou me referindo a um parcela gigantesca de trabalhadores assalariados pertencentes ao Terceiro setor e estratificação econômica média urbana do país que corresponderia a aproximadamente 85% da população. São uma parte significativa dos “eleitores de Bolsonaro” que possuíram um dia na vida alguma capacidade mínima de reflexão no passado (E que aparentemente não o fazem mais). Votam, apoiam, defendem uma determinada pessoa pelo que ela “aparenta” ser e não pelo que a pessoa fala, opina, reflete.

Paulo Guedes surfa bem nesta onda. Tendo uma aparência de gente “mais culta” que Bolsonaro, usa e abusa do seu título de mestre da Escola de Chicago de Economia como propaganda. Poucos na realidade sabem que o núcleo de Economia de Chicago é conhecido Mundo afora como um antro da mais absoluta irracionalidade econômica, uma facção de economistas formados em bajulação dos grandes especuladores financeiros do Planeta, que inclusive estão em desespero com a Crise sistêmica do Capital aberta na Crise de 2008. Guedes sabe o que preciso fazer para destruir uma nação para garantir o lucro dos grandes especuladores. Se trata de estar no lugar certo, na conjuntura certa e ter apoio de quem detém o controle efetivo do Estado. Para angariar apoio do povo meia palavra basta ou meia dúzia de palavras bonitas que soam coerentes e pronto: automaticamente considerado uma autoridade no Whatsapp. Esse é o Mundo que queremos? Um “falar bonito” é mais importante que uma avaliação global da linha de pensamento de uma pessoa? Alguns podem alegar que isso é exagero…mas em breve nós veremos os exageros sentidos na carne do que Paulo Guedes quer implantar no país e tem retaguarda para tal. Aí sim veremos quem está “exagerando” no Brasil, direita ou esquerda.

Em linhas gerais, é triste ver o que estamos vendo. Um povo inteiro sendo empurrado para o abismo sem perceber. É a estética acima da razão multiplicada por 1000. E quando a irracionalidade começa a ganhar da racionalidade….corram para as Montanhas! Seria o caso de classificarmos o que estamos vivendo nos dias atuais de “Guerras Semióticas Massivas”.


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