Enviado por Felipe A. P. L. Costa
Amazônia: a ilusão de um paraíso
por Betty J. Meggers [1]
Uma das características mais surpreendentes da vida na Amazônia de hoje é a ausência de diferenciação regional. Ao longo de todos os rios principais e de alguns tributários menores, o povo come a mesma comida, veste roupas semelhantes, vive no mesmo tipo de casa e participa das mesmas crenças e aspirações. Tendo perdido a [capacidade] de satisfazer suas necessidades com os recursos da floresta, é obrigado a comprar não somente panos, potes e panelas, facas e espingardas, mas, também, muitos gêneros de subsistência básicos, tais como açúcar, sal, arroz, feijão e café. O pagamento deve ser feito segundo a procura do mercado exportador e não em termos do que a área poderia melhor produzir.
As principais atividades são limitadas, por conseguinte, à coleta da borracha, frutas e castanhas, à pesca, à caça em busca de pele (especialmente de onça, jacaré e anta), à agricultura e à criação de gado. A distância em que se encontram os mercados, a alta dos preços provocada pela intermediação e uma organização comercial que impede o vendedor de procurar o melhor preço, todos esses são fatores que contribuem para restringir o lucro do produtor. Doenças, azares, mau tempo e outras circunstâncias atenuantes reduzem, muitas vezes, a produtividade do homem, deixando-a abaixo do mínimo necessário para suprir as necessidades da família. Diante disso, é levado a conseguir crédito com o comerciante local e, uma vez dado esse passo, torna-se escravo do sistema, sem qualquer esperança concreta de dele sair. Impossibilitado de conseguir os alimentos adequados e sem dispor de tempo para pescar ou cultivar um roçado, ele e seus filhos tendem a sofrer de carências alimentares, o que diminui sua resistência para os outros tipos de doença.
O hábitat sofreu uma degradação na mesma ordem. Uma superexploração da terra em torno das grandes concentrações provocou uma acentuada e provavelmente irreversível deterioração do solo e da vegetação, causando a extinção local de muitas espécies de aves e [outros] animais. A superexploração e outros distúrbios reduziram ainda a incrível densidade, anteriormente existente, de tartarugas, jacarés, aves aquáticas e outras modalidades de vida aquática a simples remanescentes que buscam esconderijos em lugares distantes e inacessíveis. Os caprichos dos compradores vindos de todas as partes do mundo, que querem animais de estimação exóticos, penas espetaculares, adornos estranhos ou comidas fora do comum, incentivam a dilapidação das espécies, dos [grandes] animais e mesmo dos insetos. Na medida em que aumenta a escassez, os preços sobem e os esforços para atender a procura têm que ser intensificados. Até recentemente, o pequeno tamanho da população aculturada e o alto custo do transporte mantiveram os danos ecológicos confinados à várzea e às margens dos tributários principais. Às vastas regiões do interior, que permaneceram despovoadas ou que têm somente remanescentes de grupos indígenas, pouco ou nenhum dano foi causado.
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Nota
[1] Betty J. [Jane] Meggers (1921-2012). Extraído do blogue Poesia contra a guerra, o excerto acima integra o capítulo 5 do livro Amazônia: a ilusão de um paraíso (Civilização Brasileira, 1977 [1971]). (Uma edição original revisada foi publicada em 1996.) A tradução é de Maria Yedda Linhares (1921-2011).
GGN

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