Bolsonaro cancelou entrevista coletiva no Fórum Econômico Mundial, em Davos, nesta quarta (23) (Foto Carlos Cauti/EXAME)

Má fé é mais uma dessas expressões que somem em momentos de altíssima perversão como o que estamos vivendo no Brasil atual. É com o propósito de refletir sobre nossos momento coletivo que devemos nos colocar esse tema.

A expressão “má fé” resume muita coisa, mas sobretudo o declínio de nossos interesses e sentimentos éticos. A mentira, a manipulação, o dolo, a má intenção. A má fé de uma pessoa está provada nos seus atos, no modo como se porta, no que ela faz. E não esqueçamos nunca que dizer e falar, escrever e expressar-se também são parte do campo do “fazer”.

A má fé define as condições subjetivas de uma ação. Ela é uma qualidade da ação que provém dos elementos subjetivos que movem alguém, ou um grupo de pessoas a fazer algo.

Dizer ou fazer algo errado uma ou duas vezes na vida, dizer ou fazer algo imoral ou até mesmo anti-ético não pode nos levar a definir uma pessoa ou um grupo como sendo de má fé. De fato, uma pessoa pode ter usado a má fé em sua vida, mas pode arrepender-se, sentir-se culpada e fazer de tudo para não repetir, para mudar. Mas quem age sempre com má fé, aquele que podemos definir como o sujeito da má fé, esse não muda. E não se arrepende. Não é capaz de sentir culpa, como não são capazes de sentir culpa e remorsos aqueles que, em psiquiatria, são classificados como psicopatas.

É evidente que as pessoas erram também em seus atos em geral e em seus atos de fala. Mas a diferença entre um erro e a má fé não é pequena. A má fé carrega uma maldade profunda, tão profunda que é difícil mudar.

Quando se trata de má fé, não se trata de medir consequências, como se o efeito da ação diminuísse o problema de sua intenção. O empurrão que uma pessoa dá em outra, não diminui o seu erro mesmo quando não há feridos. E se essa pessoa se acostuma a empurrar como se esse fosse um direito ou uma prerrogativa sua, então já não estamos falando de erro.

Na origem da ação, sendo ação aquilo que vemos concretizado, há um destino traçado. Ou seja, se na origem, o processo da ação é corrompido, não deixará de sê-lo no meio do processo. Um bom exemplo de exposição do princípio da má fé é a sentença maquiavélica “os fins justificam os meios”.

Vamos usar o exemplo clássico, e atualmente incômodo para muita gente, mas que precisa ser enfrentado com coragem e lucidez: para “tirar o PT do poder” era preciso votar em Bolsonaro, mesmo sabendo quem ele era e o que propunha em termos de falta de projeto para o país e incentivo à violência. Vale sempre lembrar que o PT estava fora do poder desde 2016 com o golpe. Aliás, chamar o golpe simplesmente de impeachment também implica má fé porque a boa fé não se nega a ver as evidências tais como foram as armações judiciárias, midiáticas e legislativas que levaram a isso.

A boa fé, por sua vez, está sempre pronta a entender e, em geral, ajuda a pensar o melhor. Em um mundo de má fé, ela é confundida com ingenuidade.

Davos, seis minutos

Eu votei em Fernando Haddad, por exemplo, por muitos motivos, todos relacionados à minha crença de que o seu projeto de país era o melhor. Mas em uma democracia devemos estar preparados para que outro candidato seja vencedor. Bolsonaro venceu e, apesar do jogo sujo das fake news (a mamadeira peniana e o “kit gay” que nunca existiu, para dar alguns exemplos), o que venceu foi seu projeto de destruição do país, ao qual o povo já vinha se acostumando desde Michel Temer.

As provas dessa destruição estão dadas a cada dia. E o Brasil que vai restar disso tudo não tem prometido prezar pela lucidez. Não é diferente em outros países do mundo onde as “lavagens cerebrais” voltaram a ser usadas dessa vez não mais apenas pelo Estado, mas por empresas contratadas. A oposição entre comunismo e capitalismo se tornou, ela mesma uma mercadoria usada contra pessoas sem noção, inocentes realmente úteis. O cidadão fica como um João Bobo entre a burrice e a má-fé depois de ter seu cérebro extorquido. O trabalho é de anos de televisão e verdades prontas, mas na era da internet e do WhatsApp isso alcança uma velocidade vertiginosa.

Aliás, má fé é um conceito importante na filosofia de Sartre, para quem ela significou o abandono da liberdade. Quando alguém prefere ser objeto a ser sujeito, quando prefere ser escravo a ser livre, temos a má fé. Isso nos ajuda a entender como tanta gente desistiu de pensar no Brasil atual.

Ao poder que se chega pela má fé, quando os “fins justificam os meios”, quando esses meios são fake news e mentiras, não se pode esperar que venha a ser diferente. Quantos personagens importantes da cena brasileira – das igrejas do mercado ao judiciário do mercado – caberiam aqui junto com Bolsonaro?

O discurso do presidente em Davos, que teve apenas seis minutos de um total de 45 possíveis para expor um projeto de reconstrução econômica do país, levando em conta as necessidades do Brasil e do mundo, é uma prova de algo que vai muito além da incompetência para governar.

Precisamos meditar nisso antes que nos tornemos a nação da má fé.

Era isso o que sempre se buscou esconder na candidatura de Bolsonaro, atrás do discurso de ódio, da violência promovida. Bolsonaro não se sustenta no governo. Se sairá por meio de um golpe dado pelos seus ou se terá destino pior não temos como saber. E mesmo que sobreviva, não governará, porque não sabe o que é isso. Já contentou os seus com o prêmio do porte de armas, não há nada mais que possa fazer além de deixar morrer o Brasil.


Revista Cult

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