Carnaval vem aí, gente! E as prévias carnavalescas já pipocam antecipadamente por toda parte, como a revelar uma tensão da população (especialmente se pensarmos no quadro político e econômico do Brasil neste ano da graça de 2019). Nem todos sabem apreciar o carnaval (e viva as liberdades individuais!), mas o carnaval é uma condição humana a manifestar uma necessidade latente de soltar um grito mal contido diante de realidades que sufocam e oprimem.
O carnaval é uma festa ancestral, como se sabe. Na tradição ocidental, ele se atrela remotamente aos gregos arcaicos e seus festejos em homenagem ao deus Dionísio, conhecido também como Baco (“broto de vinha”), o deus do vinho, da embriaguez e do teatro. Deus ambíguo cujas celebrações são marcadas pelo riso e pela inversão da ordem. A ligação de Dionísio com o vinho, conforme narrado por Nonnos, o poeta autor do épico Dionisíacas, do século V a. C., teria se dado quando seu amigo inseparável, Ampelos, morreu pelo ataque de um touro furioso. Inconsolável, Dionísio derramou ambrosia, o alimento dos deuses, sobre os ferimentos do amigo, que se metamorfoseou-se em uma vinha. O deus então colheu um cacho e, espremendo seu suco, pronunciou: serás o remédio mais poderoso contra as dores humanas!
Com efeito, o carnaval é esse período de trégua das rotinas e convenções, de suspensão dos valores e hierarquias da normalidade. Como tão bem sistematizou Bakhtin acerca da visão carnavalesca de mundo no contexto medieval a partir da obra de Rabelais, no carnaval quebram-se as fronteiras e distâncias, todos estão em livre contato, sendo todos atores e público do espetáculo; daí que há um novo tipo de relação entre os viventes, libertos de qualquer título ou posição hierárquica; do que decorre, por sua vez, as alianças e aproximações entre o que antes eram opostos (o louco é um sábio, o profano é divino etc.).
Essa urgência carnavalesca – o anseio por uma pausa da “normalidade” – já foi representada literariamente por inúmeros autores e obras. Não podemos deixar de pensar, por exemplo, na peça As bacantes, de Eurípedes, datada de 405 a. C., em que se narra a perseguição do rei de Tebas, Penteu, aos ritos aos deus Dioniso e às suas seguidoras, que afinal festejam, triunfantes:
Quem passa pela rua?
Quem?
Quem está no palácio?
Cede espaço!
Silencie cada qual
A boca plenipura,
Livre da má palavra.
Eu cantarei eternos hinos dionisíacos!
Vamos, Bacantes!
Outra obra que não pode deixar de ser mencionada é o livro de poemas de Manuel Bandeira, “Carnaval”, que aliás completa em 2019 cem anos de sua publicação. O livro vem à tona como um suspiro de renascimento após alguns baques pessoais (a perda de familiares, a tuberculose, a crise financeira) e foi ele o responsável pela aproximação do poeta com o Modernismo e com os nomes da Semana de 22.
Composto por 14 poemas que abordam elementos diversos do carnaval (dos adereços e fantasias às contradições entre a alegria desmesurada da terça-feira gorda e a triste ressaca da quarta-feira de cinzas), um poema para fechar este artigo evidentemente não pode deixar de ser Bacanal, a desejar bons festejos para tod@s nós que soubermos ser bons foliões:
Quero beber! Cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco…
Evoé Baco!
Lá se me parte alma levada
No torvelinho da mascarada,
A gargalhar em doudo assomo…
Evoé Momo!
Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas de amores,
Cobras de lívidos venenos…
Evoé Vênus!
Se perguntarem, que mais queres,
Além de versos e mulheres?…
– Vinhos!… o vinho que é meu fraco!…
Evoé Baco!
O alfanje rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que eu não domo!…
Evoé Momo!
A lira etérea, a grande Lira!…
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
Evoé Vênus!
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