Jean Wyllys, Ana Cristina Santos e Boaventura de Sousa Santos na mesa da Conferência "Discursos de ódio e fake news da extrema direita e seus impactos nos modos de vida de minorias sexuais, étnicas e religiosas – o caso do Brasil" na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, 26 de fevereiro de 2019 – Foto de Paulo Novais/Lusa

Na Universidade de Coimbra, o deputado do PSOL do Brasil salientou também a necessidade de “desconstruir o medo”. Jean Wyllys estará na sessão “Por que se exilar do Brasil hoje?” esta quarta-feira em Lisboa, às 17h30 na Casa do Alentejo.


"Será a memória dela e será a revelação de que há relações profundas entre quem hoje ocupa a presidência [do Brasil] e o assassinato dessa mulher que tinha muito para dar à humanidade [que vão derrubar Bolsonaro]", afirmou Jean Wyllys, ativista LGBT, professor universitário e antigo deputado eleito pelo PSOL, nesta terça-feira em Coimbra, segundo a Lusa.

O deputado do PSOL, que resignou ao cargo, deu a Conferência "Discursos de ódio e fake news da extrema direita e seus impactos nos modos de vida de minorias sexuais, étnicas e religiosas – o caso do Brasil", em que participaram também Ana Cristina Santos, Boaventura de Sousa Santos e Bruno Sena Martins, na faculdade de economia da Universidade de Coimbra.

Na sua intervenção, Jean Wyllys abordou a sua saída do Brasil, afirmando que o sistema “decidiu que precisava” de o eliminar.

"Se não me eliminava pela destruição da minha reputação, da minha imagem pública, convertendo-me num pária, como fez Goebbels aos judeus na Alemanha nazi, então [o sistema iria eliminar-me] através da morte real, com um assassinato encomendado a sicários ou forjado. Quando me dei conta disso, que estava relativamente sozinho, tomei a atitude radical da defesa da vida, porque recuar é também uma estratégia de luta", salientou o deputado brasileiro.

Jean Wyllys exilou-se devido à difícil situação em que vivia, com escolta policial permanente, devido às ameaças de morte e à brutal campanha lançada contra ele, após o assassinato de Marielle Franco, que era vereadora do PSOL no Rio de Janeiro.

Sobre o combate ao ‘monstro’ que representa a extrema-direita, Jean Wyllys defendeu a necessidade de “desconstruir o medo”.

"As pessoas que votaram na extrema-direita não são más por natureza. São pessoas equivocadas, manipuladas, que têm o medo manipulado. Tem de haver manifestações de aproximação, ações que desconstruam esse medo. Não vamos deixar que a direita manipule o medo", sublinhou.

Wyllys apontou também críticas à esquerda no Brasil, "com dificuldades de união e de ação estratégica conjunta", tanto nos partidos como nos movimentos sociais.


"Muitas vezes, erramos no método e no tom. Não podemos afastar de nós aliados importantes. Precisamos de gastar energia com quem de facto é racista e homofóbico", vincou.

Jean Wyllys enviou também “um recado com muito respeito e carinho” ao Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa.


"O Presidente de Portugal está longe, muito longe, de ser irmão de Bolsonaro, como ele disse. Está longe de ser o desqualificado que o Bolsonaro é, de ser o racista que Bolsonaro é, o machista, misógino e ignorante que Bolsonaro é. Então, dizer que o encontro entre eles foi um encontro entre irmãos é algo que depõe contra ele", constatou, apelando ainda: "Pelo amor de Deus, Presidente, não faça isso. Não diga que foi um encontro entre irmãos, a cortesia tem limites. Seja cortês, mas não precisa de se expor dessa maneira, que o senhor não tem nada a ver com Bolsonaro".

Durante a conferência, dois homens tentaram atirar ovos contra Jean Wyllys, no primeiro ovo não acertaram e depois foram impedidos por seguranças.

"Qualquer fascista covarde, que se queira manifestar, em vez de atirar ovos ou tiros, por favor, vamos aos argumentos. Levantem-se, manifestem-se, falemos", respondeu o ativista brasileiro, salientando que as pessoas que lhe tentaram atirar ovos "são compostas por esse ódio que não permite a diversidade".
Esquerda

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