O dia seguinte, 12 de dezembro, foi o primeiro dia de trabalho para Elliott Abrams como secretário de Estado adjunto para os direitos humanos e assuntos humanitários no governo Reagan. Abrams entrou em ação, ajudando a encobrir o massacre. Em depoimento ao Senado, Abrams disse que notícias a respeito do que havia acontecido “não tinham credibilidade” e que tudo estava sendo “significativamente mal utilizado” como propaganda por guerrilheiros antigovernamentais.

Na sexta-feira passada, o secretário de Estado Mike Pompeo nomeou Abrams como enviado especial dos Estados Unidos para a Venezuela. Segundo Pompeo, Abrams “será responsável por todas as coisas relacionadas aos nossos esforços para restaurar a democracia” na nação rica em petróleo.

A escolha de Abrams envia uma mensagem clara à Venezuela e ao mundo: o governo Trump pretende brutalizar a Venezuela, ao mesmo tempo em que produz um fluxo de discursos obsequiosos sobre o amor dos Estados Unidos pela democracia e os direitos humanos. Combinar esses dois fatores – a brutalidade e a magnanimidade – é a principal competência de Abrams.

Anteriormente, Abrams serviu em uma infinidade de funções nos governos de Ronald Reagan e George W. Bush, muitas vezes com títulos declarando foco na moralidade. Primeiro, foi secretário de Estado adjunto para assuntos de organização internacional (em 1981); depois, o cargo de “direitos humanos” do departamento de Estado mencionado acima (de 1981 a 1985); secretário de Estado adjunto para assuntos interamericanos (de 1985 a 1989); diretor-sênior de democracia, direitos humanos e operações internacionais do Conselho de Segurança Nacional (de 2001 a 2005); e, finalmente, consultor adjunto de segurança nacional de Bush para a estratégia da democracia global (de 2005 a 2009).

Nessas posições, Abrams participou de muitos dos atos mais sinistros da política externa norte-americana dos últimos 40 anos, sempre proclamando o quanto se importava com os estrangeiros que ele e seus amigos estavam assassinando. Em retrospecto, é inquietante ver como Abrams quase sempre esteve presente quando as ações dos EUA eram mais sórdidas.

Abrams, graduado do Harvard College e da Harvard Law School, juntou-se à administração Reagan em 1981, aos 33 anos. Logo recebeu uma promoção devido a um golpe de sorte: Reagan queria nomear Ernest Lefever como secretário de Estado adjunto para os direitos humanos e assuntos humanitários, mas a nomeação de Lefever encalhou quando dois de seus irmãos revelaram que ele acreditava que os afro-americanos eram “inferiores, intelectualmente falando”. Um Reagan decepcionado foi forçado a recorrer a Abrams como segunda opção.

Uma preocupação central da administração Reagan na época era a América Central – em particular, as quatro nações adjacentes de Guatemala, El Salvador, Honduras e Nicarágua. Todas haviam sido dominadas desde a sua fundação por minúsculas elites brancas e cruéis, com um século de ajuda das intervenções dos EUA. Em cada um desses países, as famílias dominantes viam os outros habitantes de sua sociedade como animais de forma humana, que podiam ser usados ou mortos, conforme necessário.

Porém, pouco antes da posse de Reagan, Anastasio Somoza, o ditador da Nicarágua e aliado dos EUA, foi derrubado por uma revolução socialista. Os reaganistas viram isso racionalmente como uma ameaça aos governos dos vizinhos da Nicarágua. Todos os países tinham grandes populações que, da mesma forma, não gostavam de trabalhar nas plantações de café ou de ver os filhos morrerem de doenças facilmente tratáveis. Alguns pegariam em armas e alguns simplesmente tentariam manter a cabeça baixa, mas todos, do ponto de vista dos guerreiros frios da Casa Branca, eram provavelmente “comunistas” recebendo ordens de Moscou. Eles precisavam aprender uma lição.

Parentes e moradores do vilarejo realizam um funeral para enterrar os restos mortais de 21 pessoas mortas no massacre de El Mozote de 1981, em 10 de dezembro de 2016.
Parentes e moradores do vilarejo realizam um funeral para enterrar os restos mortais de 21 pessoas mortas no massacre de El Mozote de 1981, em 10 de dezembro de 2016. Foto: Marvin Recinos/AFP/Getty Images