
Bolsonaro certamente não tem noção do que é um estado laico. Pior, não tem noção do que são as resoluções e súmulas do Supremo Tribunal Federal (STF). Com base em sua suprema ignorância, criticou a corte por decisões que, segundo ele, devem ser do poder Legislativo, porém, as súmulas do Supremo têm poder de interpretação legal, na ausência de uma legislação específica. Portanto, é papel constitucional do STF gerar jurisprudências que dão base às decisões de juízes de instâncias inferiores, quando o congresso ainda não criou leis específicas para os casos, como a homofobia, por exemplo.
Quanto à escolha de um ministro com base na sua religião, Bolsonaro enterra o Brasil em um obscurantismo pré-renascentista. O ator Sérgio Mamberti tem razão ao dizer que Bolsonaro é um desastre que jamais foi visto. Aliás, um desastre que o ocidente jamais viu e provavelmente, jamais verá.
Se o presidente escolherá um evangélico para indicar à vaga do decano Celso de Mello, no STF, que sairá no ano que vem, as outras religiões também não teriam o direito de reivindicar uma vaga na suprema corte, com base no princípio de combate à discriminação religiosa? O que poucos raciocinam é que países como Afeganistão, enterrado na teocracia talibã, um dia foi um paraíso de grande avanço civilizatório e ponto de turismo de países do ocidente até os anos 1970. O que prova que nem a civilização, assim como a democracia, é para sempre.
O perigoso caminho da predestinação divina a purificar o país, com base em conceitos evangélicos, pode levar o país a um sério estacionamento civilizatório que, no médio e longo prazo, pode fazer o Brasil perder definitivamente o bonde da história. Com sérios ataques ao pensamento, à pesquisa científica, à educação e às universidades públicas, elegendo o professor como o inimigo número do estado, a teocracia está logo ali.
Bolsonaro ainda criticou o STF por ter estendido a lei de combate à discriminação racial e religiosa, aos casos de homofobia. Chega a soar ridículo que alguém defenda a ideia de ter o direito de discriminar, ou seja, agredir alguém, afinal, é o que as igrejas e o próprio presidente bradam por aí. A natureza desumana do que chegou ao poder pelo viés religioso não só fere a lógica mas, a natureza primária do liberalismo que tanto defende Bolsonaro. Afinal, sem liberdades individuais, como amar e ser como quiser, não existe liberalismo, não existe capitalismo.
Bolsonaro disse que o Estado é laico, mas ele, cristão. “Se me permitem plagiar a ministra Damares, eu também sou terrivelmente cristão” e criticou a imprensa “Não me venha a imprensa dizer que quero misturar a Justiça com religião”.
O presidente tem a capacidade intelectual tão comprometida que não deve enxergar que ele não é o estado e que sua escolha, tendo base religiosa, mistura sim, a justiça com religião. Nesse sentido, as críticas de Bolsonaro a teocracias como o Irã, são tão nonsenses como seu apoio incondicional a Israel que é outra teocracia judaica, cuja constituição é a “Torá”.
Triste fim de um país que chegou a ser a 5ª economia, a frente da Inglaterra, há menos de 10. Como se pode regredir tanto, em tão pouco tempo? Lastimável.
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