A vagina é sagrada. Local em que as mulheres armazenam seus traumas e por onde podem ser curadas, ela nunca pode ser adentrada sem permissão. Esse é um dos ensinamentos do tantra, filosofia adotada pela Sadhana Comunna Metamorfose, centro terapêutico do brasileiro Deva Nishok. Enquanto cobra R$ 8,9 mil por um curso de quatro finais de semana, lucrando com os princípios do “sagrado feminino”, o guru do tantra brasileiro é investigado pelo Ministério Público por abuso sexual e, seu centro, por exploração trabalhista.

À primeira vista, o templo erguido na Serra da Mantiqueira parece um oásis perdido no pacato município de Itapeva, em Minas Gerais. Maior centro do tantra no Brasil, a Comunna impressiona por sua arquitetura estonteante e pela área livre usada pelos frequentadores. São 165 mil m² de terreno, segundo o site. Ali são oferecidos cursos, treinamentos para casais, formação em terapia tântrica e, mais raramente, massagens individuais. Nos encontros e cursos de finais de semana, é comum que alunos passem a noite no local, que tem acomodações para até 100 pessoas.

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Foi nesse cenário, sob a luz da Serra da Mantiqueira, que o guru teria abusado de Lara.Fotos: Divulgação/Comunna Metamorfose

O cenário estonteante, porém, destoa da rotina de abusos – sexuais e morais – a que voluntários, terapeutas e funcionários relatam terem sido submetidos. A acusação mais grave contra Nishok é a de abuso sexual. A ex-voluntária Lara S.* afirma que, durante uma sessão de massagem, o guru fez sexo oral nela – técnica que só deve ser usada entre casais, chamada por ele de ‘extrusão’ –, ficou nu e pediu que ela tocasse seu pênis, um “condutor de energia”. Lara resistiu, mas me disse que Nishok só parou quando ela começou a chorar muito.

O caso foi revelado pela Folha de S.Paulo em março. E não é isolado. Desde fevereiro, quando soube do caso de Lara por meio do Movimento de Combate ao Abuso no Meio Espiritual, li e-mails, mensagens, contratos, apostilas, processos e conversei com 16 pessoas que passaram pelo centro. Descobri pelo menos 18 possíveis casos de violência sexual, abusos morais e trabalhistas.

Como está sob sigilo, o Ministério Público não comentou o andamento das investigações do caso revelado pela Folha, mas ao menos quatro testemunhas já foram ouvidas, além do acusado. Ao jornal, Tadeu Horta, verdadeiro nome de Nishok, disse “não ter conhecimento dos fatos”.

Ao Intercept, o advogado da Comunna e de Nishok, Valmir Moraes, afirmou por e-mail que o guru está com “a consciência tranquila” a respeito da acusação. “A mulher é o maior motivo pelo qual existem as práticas do tantra, defendidas e ensinadas no ambiente harmônico da Comunna, onde o sagrado feminino tem sua representação máxima”, declarou. Embora a Comunna e Nishok tenham sido procurados separadamente, os comentários enviados pelo advogado, em dias diferentes, foram os mesmos. Nenhuma das perguntas direcionadas diretamente a Nishok foi respondida.

A versão de Nishok contrasta com a de Paulo Kroeff, ex-gerente da Comunna. Ele me contou que o guru teve um “surto” na época do abuso e foi socorrido após uma overdose de Rivotril. Sundhar Omkar, ex-voluntário que ouviu o relato de Lara e disse ter testemunhado outro caso de violência sexual no centro, me disse com firmeza: “Aquilo ali de sagrado não tem nada.”

Idolatria e medo são dois sentimentos provocados por Nishok, de acordo com os ex-funcionários e voluntários com os quais conversei. Por causa do primeiro, Lara contou ter ouvido das sócias do guru que o fato de ela ter negado os avanços de Nishok era um sinal de que “a cura já estava sendo feita”. Por conta do segundo, só duas pessoas aceitaram ser identificadas nesta reportagem.