POR FERNANDO BRITO · 31/10/2019
Das duas uma, ou ambas.
Ou a Globo fez bom jornalismo e foi obrigada a atropelar seus próprios profissionais, abandonando uma história sólida depois de ser publicamente ameaçada de perder sua concessão ou fez mau jornalismo e publicou uma história gravíssima sem checar se o que recebeu de sua fonte – seja a polícia, o MP ou o próprio governador Wilson Witzel – era confirmado por fatos.
Na segunda hipótese, a história fica muito mal para os dirigentes do jornalismo da emissora, a quem caberia garantir que todas as informações fossem buscadas para confirmar ou desmentir aquelas que recebera por vazamento do inquérito. E não seria nada difícil, pois se até um sujeito como Carlos Bolsonaro, em poucas horas, as foi buscar, sem maiores problemas, mais ainda o seria para quem tivesse o sobrenome “Globo” no crachá.
Na primeira, fica pior ainda, porque a emissora não defendeu o trabalho de seus profissionais e recuou do que ele afirmava covarde e silenciosamente.
Vale lembrar que não se tem qualquer obrigação de sigilo de fonte quando esta fonte mente e induz o jornalista a propagar sua mentira. E, mesmo havendo parca checagem dos dados, é preciso, junto com o reconhecimento do erro de boa-fé, expor quem age de má-fé com coisas tão graves e sérias.
Deixa escancarada a porta para acharmos que não o fez por medo de perder sua boca riquíssima.
Pela qualidade dos profissionais da emissora, tendo a acreditar nesta hipótese.
O episódio, porém, traz algo que deveria servir para refletir sobre a importância do trabalho do The Intercept e das equipes de jornalistas de outros veículos em que atuou em parceria.
Nada, embora buscassem em tudo, desmontou nenhuma de suas histórias. As checagens foram tantas e tão prudentes que os “pavões misteriosos” ficaram a ciscar no vazio.
Porque se fez jornalismo, que exige responsabilidade tanto quanto exige e coragem.
É triste quando se procura um Glenn Greenwald e só se encontra Ali Kamel.

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