Com a palavra Augusto Aras, o novo ‘engavetador’ geral da República. Foto: Agência Brasil/EBC

Há uma pressa evidente em arquivar a versão do porteiro, antes que perguntas elementares tenham sido respondidas sobre os mistérios da casa 58 naquele dia 14 de março de 2018.

1. A grande dúvida: por que o porteiro registrou que o motorista Elcio Queiroz pediu para ter acesso à casa 58? As perguntas subsequentes derivam dessa. Qual o interesse em registrar algo que não aconteceu? Por que o porteiro disse ainda, em dois depoimentos, que falou com Bolsonaro? E que viu pelas câmeras que o motorista foi direto para a casa 65, de Ronnie Lessa? E que Bolsonaro foi alertado sobre isso e respondeu que sabia do destino do motorista? O porteiro sabia do planejamento do crime e tentou comprometer Bolsonaro, que na época era deputado?

2. Por que a polícia não foi atrás dos registros de entrada no condomínio, se Lessa, o matador de Marielle, já era investigado e morava ali? Um dado é alarmante. A polícia só descobre que há o registro da portaria (que cita a casa 58) porque, ao acessar os dados do celular do assassino agora, em outubro (sete meses depois da prisão de Lessa e um ano e sete meses depois do crime), descobriu uma mensagem da mulher de Lessa para o marido. Ela o alertava sobre o registro da portaria sobre a chegada de Elcio. E enviou uma foto com o registro, que citava a casa 58. Lessa deveria ficar sabendo e alertar o parceiro de que o registro existia.

3. De onde a mulher de Lessa tirou o registro sobre a entrada no condomínio? Por que alguém teria a preocupação de passar à mulher uma imagem com o registro?


4. Por que, logo depois de saber do registro e apreender o livro, a polícia não procurou os arquivos de áudio das conversas registradas pela portaria? A polícia só teve acesso aos áudios porque o administrador do Vivendas da Barra entregou voluntariamente os arquivos aos investigadores. A Folha informa hoje que os arquivos foram entregues “alguns dias depois”. Quantos dias depois? Por que foram entregues “voluntariamente”, um ano e sete meses depois do crime?

5. Por que, ao pedirem a perícia no áudio do registro da entrada de Elcio, a polícia e o Ministério Público investigaram apenas se a gravação estava íntegra, sem alterações? Essa perícia confirma que o porteiro fala com Ronnie Lessa, da casa 65. E aí vem a pergunta de detetive amador: por que os peritos já não investigaram também se havia lacunas na lista de registros de voz? É possível que uma ou mais conversas tenham sido eliminadas? A promotora Simone Sibílio admite que não investigaram esse pequeno detalhe. O que ela informou aos jornais é grave: “O que foi auditado foi isso, e a gente não pode elucubrar”. É estranho que a promotora não tenha elucubrado o que o Brasil todo está elucubrando. A promotora precisa retomar as elucubrações.

6. Se algum registro de voz foi apagado, é possível, tanto tempo depois, que a perícia chegue a indícios de ocultação de provas?

7. Por que a polícia não investigou outras passagens de Elcio pelo condomínio, para ver se há registros anteriores de entrada do motorista que levou Lessa ao local do crime?

8. E uma pergunta de aprendiz de detetive de quinta série: o porteiro não pode ter se enganado porque Elcio costumava ir ao condomínio e falar com os moradores da casa 58?

9. Por que a promotora, Carmen Carvalho, que trata do caso Marielle e, segundo o Intercept, declara-se bolsonarista publicamente, teve tanta pressa em descartar o depoimento do porteiro?

10. Estamos de novo diante de uma série de coincidências que envolvem os Bolsonaros e milicianos criminosos e que se repetem como coincidências e são apenas coincidências?


DCM

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