por Eliara Santana*

A desinformação é um projeto político da maior relevância.

Ela implica não somente a falta de acesso a meios plurais de informação, mas também a construção de notícias de modo intencionalmente deturpado para criar impressões falsas da realidade.

E o “jornalismo mágico”, modalidade que tem se consolidado no Brasil, é um apoio vital a esse projeto.

Tal qual na literatura que desponta na América Latina (cuja expressão mais emblemática seja talvez a Macondo de Gabriel Garcia Marques, em Cem Anos de Solidão), esse jornalismo mistura realidade e ficção, real e magia, sem pedir licença, criando sociedades distópicas em que elementos fantásticos se misturam à realidade cotidiana de modo natural, como se tudo fosse “normal”.

Nesse novo modo de fazer jornalismo, a cobertura econômica é um caso explícito de naturalização da magia. E é um exemplo notável para observarmos o funcionamento da desinformação e a que propósito ela serve.

Na Macondo do JN, o mantra é a ideia de recuperação, e entregador de pizza de aplicativo – com bike! – é felizão porque faz seu horário de trabalho.

Nessa Macondo atualizada pelo jornalismo de vanguarda, a despeito de milhares de pessoas nas ruas, o mês de dezembro, último do ano, já começou com o anúncio das “boas-novas” na economia. Edição após edição, a tônica era mostrar, com excesso de otimismo, a tal “retomada”.

CENA 1: OS NOVOS “EMPREENDEDORES” DO APLICATIVO

Na edição do dia 3 de dezembro, um jornalismo eufórico comemorava o PIB de 0,6% no trimestre. Após o anúncio de Bonner, a matéria começava assim:

“A liberdade de escolher o próprio horário de trabalho. A vida sem patrão tem muito valor para o José Francisco. Mas por falar em valor, hoje ele trocaria essa liberdade por um emprego formal.”

Eis o José Francisco desfrutando de sua liberdade de trabalhar apenas quando quer:


A matéria prossegue, e o enquadramento que se impõe é o da “retomada”, mesmo que a situação ainda não seja a ideal:

“Onze trimestres de recessão, de 2014 a 2016, jogaram a economia brasileira ladeira abaixo. Mesmo depois de reencontrar o caminho do crescimento, a escalada tem sido lenta e sofrida”.

A imagem é a do entregador subindo penosamente uma ladeira, e o narrador insiste em colocar o ano de 2014, reeleição de Dilma Rousseff, como um período de recessão. Em 2014, o Brasil não estava em recessão, a despeito do crescimento ruim do PIB.

A matéria continua comparando a economia à bicicleta do José Francisco:

“Assim como a bicicleta do entregador, a economia brasileira andou pra frente no terceiro trimestre. O PIB cresceu 0,6%”.

Os especialistas ouvidos deixam transparecer que o Brasil está se tornando um país de trabalho precarizado:

“A gente vê uma recuperação ainda muito gradual do trabalho formal, ou seja, os postos de trabalho ainda são muito focados, dependentes, da informalidade. Isso faz que (sic) a renda das famílias ainda cresça muito pouco. Isso limita também o potencial de crescimento do consumo das famílias”.

Os festejados “postos de trabalho” que ajudam a propalada retomada da economia deveriam ser tratados corretamente: trabalho precarizado, falta de opção, desemprego.

Na retomada da matéria, a informação de que o “setor de serviços que impulsiona as entregas subiu 0,4% no trimestre”. E a imagem é a do José Francisco felizão fazendo suas entregas.

Nada é dito sobre as condições de trabalho, o número de horas trabalhadas, a falta de garantias, a ausência de qualquer direito trabalhista, os problemas enfrentados, enfim, nada é dito sobre a precarização que toma o lugar do trabalho formal.

CENA 2: “RECUPERAÇÃO” DA ECONOMIA

Depois de festejarem bastante o quebra-galho como a nova onda em trabalho, é hora de mostrar que vários setores estão reagindo e apresentando bons resultados.

A começar pela agricultura (agro é pop), passando pela indústria até o setor imobiliário, com investimento privado:

“O crescimento do setor imobiliário também se reflete na chamada formação bruta de capital fixo, número que representa os investimentos privados. O crescimento foi de 2%. Já o consumo do governo caiu 0,4%”.

Nada é dito sobre o que significa realmente a redução do investimento público no setor imobiliário, por exemplo. Programas como Minha casa, minha vida são fruto de investimento público. O setor privado investe em artigos de luxo para quem pode pagar.

No contexto atual, o cenário externo merece atenção, e é ele quem explica a queda nas exportações.

Prossegue a matéria, com a avaliação dos economistas de que o consumo interno é o caminho para manter o crescimento:

“Mesmo com a fraqueza do mercado de trabalho, ele vem mostrando alguma melhora do emprego formal, algum crescimento da renda, ainda muito baixo, mas ainda vindo melhor”.

Para fechar, o otimismo alegre de José Francisco com sua bike, que quer instalar um “motor turbo” na economia.

Na matéria seguinte, o enquadramento insiste que há melhoria no mercado de trabalho, que ajuda a impulsionar o consumo das famílias.

A fala anterior da economista da FGV já contradiz essa asserção. Mas isso é só um detalhe quando se trata de criar a ilusão de recuperação.

“John, Ivonete e José. São brasileiros como eles que começam a fazer a economia se recuperar.O aumento do consumo das famílias tem agitado os corredores deste supermercado. Mais gente comprando, mais gente trabalhado”.

Seguem os depoimentos de John e Ivonete, que conseguiram emprego com carteira assinada.

E o otimismo é tanto que a repórter não esconde a euforia ao narrar a performance da economia brasileira.

“O resultado do consumo maior das famílias É VISÍVEL aqui nas ruas de São Paulo. Com a queda no custo do financiamento imobiliário, os canteiros de obras se multiplicam. Só aqui nesta região onde estamos dá pra ver dois empreendimentos sendo erguidos. Um prédio comercial logo ali, e outro, residencial, que já está quase pronto. Foi o setor imobiliário que impulsionou a construção civil.

Com as obras públicas paradas, é o investimento privado que tem dado fôlego para a construção, um dos destaque do último trimestre. Foi esse setor que recebeu quase a metade dos investimentos nesse período. Um crescimento de 1,3% na comparação com o trimestre anterior. Uma melhora que tem efeitos diretos e indiretos em vários outros setores, diz o economista”.

Observem que tudo são flores na matéria. O “consumo maior” é visível nas ruas de São Paulo, o que é representado por prédios de alto padrão numa região que ela não menciona qual é. Mas a fome e as pessoas sem teto não são visíveis nas ruas. O economista ouvido corrobora a fala de que há melhora em cadeia, o que possibilita ver “um futuro um pouco melhor”. É a deixa para o fechamento da matéria:

“Um futuro já cheio de planos para o José, que voltou a trabalhar na construção civil”. A cena enunciativa da notícia projeta o jogo de imagens a seguir:


E se cria a ilusão de que, com a fantástica recuperação da economia que se opera neste momento, José pode sonhar com aquele prédio de alto padrão…

Depois, a repórter entra perguntando:

“O que você vai fazer?”. Prontamente, José responde: “Pretendo entrar no segmento da construção mesmo. Engenharia civil”. “Faculdade?, questiona a repórter. “Faculdade, se Deus quiser”, diz José, o almoxarife da obra.

Na Macondo do JN, tudo é possível.

CENA 3: A FAKE DAS VENDAS DE NATAL

A primeira matéria da primeira edição após o Natal é de pura comemoração, e uma sorridente Renata anuncia: “Os lojistas de shopping acabam de contabilizar O MELHOR NATAL desde 2014. As vendas do setor cresceram mais de 9%”.

E entra a matéria:

“Shopping cheio e todo mundo com sacola na mão. Essa imagem deixa qualquer vendedor rindo à toa. Mas hoje não é dia de comprar. Hoje foi dia de troca para os consumidores e de comemoração pra os donos de lojas. Segundo a Associação dos Lojistas de Shoppings (Alshop), as vendas foram 9,5% maiores do que as do Natal passado”.

A matéria destaca os números e faz a comparação com outros períodos, informando que a pesquisa foi feita com informações de mais de 30 mil pontos de vendas no Brasil.

“Presentes mais caros dependem de dinheiro no bolso ou no banco. E o balanço do Natal sugere que esse foi o caso”.

Isso quer dizer, então, que os brasileiros estão com mais dinheiro no bolso e no banco?

O que comprova isso?

Compras em shopping?

Como explicar o recorde no endividamento das famílias?

Como justificar a operação do governo para liberar uma miséria no FGTS pra saque?

Como explicar o desemprego?

Como explicar a tragédia de 104 milhões de outros brasileiros vivendo com apenas 413 reais por mês?

A matéria prossegue explicando que

“o que puxou o faturamento para cima foram as vendas à vista. A Associação Comercial de São Paulo avaliou as vendas do dia primeiro de dezembro até a véspera do Natal. As vendas a prazo ficaram estáveis. As que foram pagas à vista aumentaram 13,1%”.

E aí entra uma fonte para corroborar a notícia – alguém identificado como presidente do IBVAR (cuja definição não aparece na tela). Pesquisando, descobri que se trata, na verdade, do IBEVAR – Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo – com sede na Avenida Paulista.

Ou seja, para confirmar que a economia do Brasil está melhorando, o JN busca como fonte um executivo do setor de varejo da cidade de São Paulo. Nenhum pesquisador é ouvido. Nenhum professor de economia.

Pela notícia construída no JN, a realidade do Brasil parece se resumir à realidade dos shopping centers de alto padrão de São Paulo. E a economia é retratada a partir desse viés. Um casamento perfeito entre Avenida Paulista e Macondo.

Como salientou o jornalista Luis Nassif em artigo no GGN, o uso seletivo de indicadores da economia é um dos instrumentos políticos de maior eficácia.

É o que estamos vendo, dia após dia, na cobertura econômica. Com o uso de dados ao bel prazer, cria-se a ilusão de recuperação, quando na verdade, o que existe é precarização do trabalho, desemprego, falta de perspectivas.

E assim, num país em que 3 em cada 10 brasileiros não consegue interpretar o que leu e não tem habilidade para entender ironia, ou seja, num país em que 3 em cada 10 cidadãos é ILETRADO, como esperar que as pessoas que recebem a notícia consigam entender os dados econômicos ou problematizá-los?

Como esperar que as pessoas tenham habilidades para interpretar o que é Macondo e o que é Avenida Paulista?

A informação não existe em estado puro – o acontecimento é transformado em notícia para ser veiculado pelos meios. E esse processo tem um sujeito – ou vários sujeitos – responsável pela transformação.

Um sujeito que fala de determinado lugar social e histórico, com valores e crenças específicos, e que faz a seleção do elemento que será notícia estando em consonância com o viés, com a orientação de uma determinada organização midiática.

Portanto, NADA, é aleatório. TUDO é intencional.

Trata-se de escolhas para um determinado projeto de dizer, para um determinado projeto político.

Assim é que o quebra-galho se torna “liberdade para escolher a hora de trabalhar”, ou trabalho precário se torna “emprego sem carteira assinada”.

A abordagem de economia, cuja base é a desinformação, não vai mostrar pessoas disputando as marquises das grandes cidades, não vai mostrar a fome, não vai mostrar as famílias que perderam o bolsa família, não vai mostrar o que significa de verdade ser um “empreendedor” de Uber, não vai mostrar que redução de investimento do governo significa na verdade precarização de serviços públicos e piora na qualidade de vida.

Vai mostrar que, no País das Maravilhas, a economia está bombando.

P.S 1: Não durou nem um dia a falácia das vendas de Natal. A Associação Brasileira de Lojistas Satélites (Ablos) contestou os dados divulgados pela Alshop, afirmando que os resultados foram ruins.

O presidente da Ablos, Tito Bessa Jr., afirmou numa reportagem da Folha de São Paulo:

“Para mim, é um dado plantado. É uma mentira. Estamos desconfiados de que foi manipulação com alguma segunda intenção”.

Tirem suas conclusões.

P.S 2: Na edição seguinte à contestação feita pela Ablos, ou seja, dia 30-12, o JN não trouxe nadinha.

Não falou absolutamente nada sobre a contestação, sobre a divulgação dos dados, sobre o questionamento, nada. É como se isso nunca tivesse existido. Prevaleceu o jornalismo mágico.

P.S 3: Agradeço à professora Cláudia Wanderley, da Unicamp, o feliz insight da expressão “jornalismo mágico” ou “jornalismo fantástico”, após uma de nossas conversas sobre a cobertura do JN.

*Eliara Santana é jornalista e doutoranda em Estudos Linguísticos pela PUC Minas/Capes.


Viomundo

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