Atolada num projeto ruinoso e em mega crise de credibilidade, gigante dos EUA despenca e arrisca-se a sucumbir. Empresa brasileira poderia ocupar espaço, mas foi vendida à própria Boeing por ninharia – com apoio explícito de Bolsonaro…
BlogDaRedação
Crise Brasileira
O gráfico abaixo registra, para a Boeing, uma queda livre que pode levá-la à falência; para a Embraer e o Brasil, mais um revés produzido pela volta do orgulho de colonizado – ou… “espírito de vira-lata”. Repare nos números, divulgados hoje pelo Le Monde: depois de vender 806 aviões de todos os modelos, em 2018, a fabricante norte-americana despencou para menos da metade – 380 – em 2019. Pior: destes, apenas 54 foram encomendas firmes, já fechadas. Enquanto isso, sua concorrente direta, a Airbus, avançava. Surpresas acontecem; mas, ao se manter o cenário, é quase inevitável uma drástica redução da Boeing e seu fechamento definitivo é uma hipótese real – inclusive porque os chineses preparam-se para também disputar o setor.
Vendas de aviões comerciais a companhias aéreas,
pelos dois maiores fornecedores
pelos dois maiores fornecedores
Por uma coincidência dramática, o declínio da Embraer deu-se no exato momento em que ela deglutia a Embraer. Os fatos não estão diretamente relacionados. Em julho de 2018, estimulada pelo governo Michel Temer, a empresa brasileira – então líder mundial destacada na construção de aeronaves de médio porte – iniciava uma estranha “fusão” com a Boeing. Em 23 de maio de 2019, com autorização explícita de Jair Bolsonaro (que tinha poderes para vetar a operação) desenhavam-se os contornos do negócio. Pela ninharia de US$ 4,75 milhões (equivalentes ao preço de quinze Boeings-777…) a Embraer sumia, sob o nome de Boeing Brasil – Commercial, empresa na qual a corporação norte-americana terá 80% do capital.
No mesmo período, a Boeing iniciava sua queda livre.
O motivo foi uma série de negligências que levou à produção de um avião desastroso. Erros grosseiros de projeto e de eletrônica no Boeing 737-800 Max, que começara a voar dois anos antes, provocaram a queda de dois aparelhos e a morte de 346 pessoas entre outubro de 2018 e março de 2019. Depois de hesitarem, as autoridades norte-americanas proibiram todos os voos da aeronave. Foram seguidas por suas contrapartes em todo o mundo. Uma série de vazamentos revelou que a Boeing sabia das falhas do Max e vendeu-o mesmo assim. A crise de credibilidade que sobreveio e as dificuldades crescentes da empresa, até mesmo para corrigir os erros do projeto infeliz, suscitam dúvidas cada vez mais fortes sobre sua sobrevivência. E a tormenta continua: ontem mesmo, o New York Times revelou que a Boeing ajudou a abafar a falha técnica, ligada a desenho de aeronave e eletrônica no avião, que derrubou um Boeing 737-800 – modelo anterior ao Max – da Turkish Airlines na Holanda, em 2009.
Se a gigante norte-americana sucumbir, levará consigo a ex-Embraer. Terá sido um desastre fabricado. À época em que foi vendida, a empresa brasileira vivia seu auge. Depois de um grande salto tecnológico, já fabricava jatos como o modelo EMB-195, vendido a empresas aéreas de todo o mundo e capaz de transportar 124 passageiros (o Max levava de 138 a 230, conforme a configuração). Seria candidata evidente a ocupar o espaço aberto pelo declínio da empresa que agora a controla.
Uma última – e tênue – oportunidade de salvar a maior companhia tecnológica brasileira estará aberta este mês. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) deverá julgar a venda à Boeing. A confirmação do negócio, no entanto, é dada como certa. Inclusive porque não surgiu, no mundo da esquerda institucional, estímulo a nenhuma mobilização a respeito.


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