As falas de políticos, conversas captadas e tudo o mais são de interesse público e, se nos interessamos por política, é necessário tomar conhecimento.
Por Bruno Reikdal Lima
Democracia em vertigem: um comentário dentro da classe média
por Bruno Reikdal Lima
Indicado ao Oscar, Democracia em vertigem é um documentário excelente. Construído e narrado por uma eleitora próxima ao Partido dos Trabalhadores, Petra Costa, abre janelas para pensarmos criticamente nossa história, apresentando entrevistas e conteúdos graves. Óbvias (e infantis) foram as avaliações negativas ao filme baseadas no tema de sua “parcialidade”. Trata-se de um documentário desenvolvido por um sujeito político engajado, e não da atuação de um juiz, por exemplo (este sim deveria ser criticado por ser ou não imparcial em um processo). As falas de políticos, conversas captadas e tudo o mais são de interesse público e, se nos interessamos por política, é necessário tomar conhecimento.
Sabendo disso, além de pessoalmente querer que do documentário mais informações a respeito das conciliações criadas por Lula, indicadas no contexto da narrativa como deflagradoras da vertigem da nossa democracia (o que não é seu escopo, então, apenas um desejo de expectador), o que mais me chamou a atenção foi perceber que as disputas pelo poder e pela própria construção da narrativa política estão nas mãos da classe média, do grupo que separa a ralé dos donos do poder – da qual eu faço parte, inclusive. Claro, é o grupo possuidor de capital cultural e que cumpre um papel central na hierarquia social brasileira e na manutenção das relações de dominação e da ordem vigente. À luz dos textos mais recentes de Jessé Souza, A elite do atraso e Classe média no espelho, por exemplo, as sombras do papel dessa casta brasileira se destacam nas cenas de Democracia em vertigem.
As relações familiares e pessoais que a diretora apresenta são desse grupo. Os contatos abertos entre os políticos e suas trajetórias individuais, também. O teor das discussões e das querelas, as futilidades das tomadas de decisão, os próprios apelos do filme sobre as hipocrisias e a destruição imbecil das nossas instituições representativas, estão bem longe dos problemas cotidianos dos 80% do nosso povo. Isso não significa que tenha menor importância ou não faça diferença para todo mundo quem está no poder; mas indica que a vertigem democrática e suas disputas ativas estão reduzidas a uma parcela menor da população. Não é “o povo” que está lá ou cá. O sofrimento popular ainda se encontra, como tem se dito por aí, na atualidade do Raio X do Brasil dos Racionais Mc’s, do final dos anos de 1980.
O que quero dizer é que o desalento ou o incômodo que o documentário causa só fazem sentido para quem teve tempo e recursos disponíveis para pensar em discutir ou imaginar algum projeto político mínimo nos limites da democracia representativa burguesa. A voz do povo efetivamente excluído da atividade política, da disputa, não narra o processo, não orienta a noção de o que é que está acontecendo. Claro que não apenas nesse documentário. O povo não narra em geral. Nunca narra. Como é ver todo esse processo do morro? Da quebrada? Da palafita? Do rincão? Como a vertigem do trem no eterno retorno para casa se conecta ou avalia os processos institucionais, o que rola nos palácios e casas legislativas?
Por isso a importância da fala ácida do Mano Brown na reta final das eleições de 2018 ou das reflexões em A guerra não declarada na visão de um favelado, de Eduardo Taddeo: dá um chacoalho em nossa terra firme de classe média, em nossos campos institucionais de vitórias e derrotas na execução do poder. Os comentários de uma das senhoras que trabalhavam na limpeza do Palácio do Planalto revela um dedinho disso. Uma das poucas vezes que a voz de quem está bem longe da batalha eleitoral aparece. E destaco isso não para colocar em questão uma tomada de posição política ou partidária, mas para não deixar o sofrimento ou o incômodo da vertigem perder de vista os sujeitos realmente excluídos e que são ao mesmo tempo os que imediatamente mais sofrem com tudo isso. Aliás, aqueles que se entrassem no jogo, derrubariam tudo. Tudo mesmo.
A única personagem que aparece no documentário e é politicamente ativa na disputa, ao mesmo tempo de ter vindo da massa dos “de fora”, é Lula. Peça-chave e alvo de todo “o mecanismo”, das batalhas institucionais, não apenas representa como efetivamente é da massa popular. E por isso, no meio dos entraves e tensões políticas, com ele fica claro que a Justiça é social, econômica e politicamente determinada. Sempre assim. Com Lula redescobrimos que os sujeitos que tomam decisões nos aparatos estatais têm cor de pele, território, religião, relações sociais constitutivas, preconceitos, valores materialmente construídos a partir dos grupos aos quais pertencem. Isso significa que, mais uma vez, para além da confirmação de que uma pessoa tenha ou não cometido algum crime, o lugar que ela ocupa no mundo é fundamental para descobrirmos como é que a máquina responde a seus atos. Os pesos e as medidas são socialmente determinadas. O povo que o diga…
Isto posto, por meio do documentário a hipocrisia de quem em nome da democracia liberal ataca as próprias instituições democráticas liberais, fica clara e evidente. Mas a hipocrisia que pode passar despercebida e da qual temo participar é aquela que imagina que do lugar privilegiado de onde vim e onde estou, possa-se falar que a disputa nos âmbitos políticos institucionalizados seja do povo, com o povo e para o povo. Como disse a senhora que trabalhava na limpeza do Palácio: “na verdade, ela não existe, a democracia”. Realmente, não existe no sentido de força popular como fundamento e motor da organização institucional e sistêmica, como a grande massa como ator principal. E essa é a maior vertigem.
Referências citadas no texto
SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava-Jato. Leya: Rio de Janeiro, 2017.
SOUZA, Jessé. A classe média no espelho: sua história, seus sonhos e ilusões, sua realidade. Estação Brasil: Rio de Janeiro, 2018.
TADDEO, Eduardo. A guerra não declarada na visão de um favelado. Revolta: São Paulo, 2014.

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