"Além de servidora de carreira, a senhora em questão tem um único mérito específico: é católica-mais-que-ultra-conservadora. E em se tratando de Jair Messias e Roberto Rego Monteiro, esse ponto é absolutamente definitivo", diz o colunista Eric Nepomuceno sobre a nomeação de Luana Rufino para o cargo de secretária-executiva da Ancine

(Foto: Reprodução/Google Maps)

Por Eric Nepomuceno, para o Jornalistas pela Democracia - A notícia poderia ser alvissareira, se no governo de Jair Messias existisse a possibilidade de uma única iniciativa bem-intencionada: finalmente foi nomeada uma nova diretora – interina, é verdade, mas enfim diretora – da Agência Nacional de Cinema, a combalida Ancine, que respira por aparelhos.

Trata-se de Luana Rufino, uma servidora de carreira que até agora ocupava o posto de secretária-executiva. Com isso, a Ancine passa a contar com dois dos quatro diretores previstos na legislação que criou a agência reguladora da indústria cinematográfica brasileira.

Além de servidora de carreira, a senhora em questão tem um único mérito específico: é católica-mais-que-ultra-conservadora. E em se tratando de Jair Messias e Roberto Rego Monteiro, esse ponto é absolutamente definitivo.

Até a nomeação de Luana Rufino, a Ancine vivia uma situação absurda: Alex Vargas ocupava o posto de diretor-presidente e era, ao mesmo tempo, o único diretor nomeado.

Ou seja: se reunia com ele mesmo para discutir com ele mesmo medidas a serem tomadas por ele mesmo. Não foi à toa que tudo ficou estacionado no mesmo lugar, enquanto a indústria do cinema se congelou.

Acontece que a guerra de Jair Messias e seu secretário de Cultura, o Roberto Rego Pinheiro que decidiu se chamar ‘Roberto Alvim’, contra as artes e a cultura preparou um avanço importante para debilitar ainda mais seu já muito debilitado inimigo: repousam na Casa Civil as indicações de outros dois diretores, que deverão ser enviadas ao Senado, onde suas excelências darão a palavra final sobre as nomeações.

E quem são os indicados? Pois ora, duas figuras perfeitamente capacitadas para integrar o rol de aberrações que se espalham por cada segmento da estrutura destinada a aniquilar de vez tudo que seja minimamente parecido às artes.

O primeiro deles age de maneira idêntica à de Rego Pinheiro: seu nome é Edilásio Barra Junior, mas até hoje, aos 57 anos de idade, prefere atender pelo apelido de ‘Tutuca’.

Rigorosamente de acordo com o que é exigido pela linha imposta por Jair Messias em sua guerra contra o pensamento, ‘Tutuca’ tem uma fortíssima credencial para o posto de diretor da agência que é fundamental para a indústria audiovisual brasileira: é bispo de uma dessas seitas evangélicas espalhadas por aí.

Depois de perambular por vários postos de relevo no setor de cultura do governo de Jair Messias – passagens absolutamente irrelevantes – ultimamente o bispo ‘Tutuca’ ocupava nada menos que a Superintendência de Desenvolvimento Econômico da Ancine.

Ah, sim: também trabalhou em emissoras de televisão do porte cultural da Rede TV, e se apresenta como ‘colunista social’. Tem um canal na internet, com o elevado objetivo de ser ‘de direita, preservando os bons costumes, respeito à família, honrando pai e mãe’. Outra definição de sua missão: ‘divulgar tudo o que for de direita para endireitar o nosso País’.

Além de ‘Tutuca’, Jair Messias indicou para outra vaga na diretoria da Ancine a senhora Verônica Brendler.

Ela se apresenta como cineasta, produtora cultural e jornalista. Sua credencial mais definitiva para ocupar o posto para o qual foi escolhida, porém, é outra: a senhora Brendler é a diretora do FICC – Festival Internacional de Cinema Cristão. Ou seja, ‘terrivelmente evangélica’, na definição do Jair Messias que se diz católico mas venera tudo que é pastor de seita eletrônica que aparece em seu caminho.

É verdade que no passado, em especial durante o regime cleptocrático de Michel Temer (que queria aparecer democrático), a Ancine teve figuras esdrúxulas entre seus diretores.

Nada, porém, comparável, nem de longe, às indicações de ‘Tutuca’ e da senhora cristã a não mais poder.

Como fica mais claro a cada dia, o empenho de Jair Messias e de Roberto Rego Pinheiro em sua sanha hidrófoba contra as artes e a cultura se reforça de maneira incessante.

Caberá ao Senado tentar amenizar um pouco essa fúria destruidora. Basta avaliar com um mínimo de critério e equilíbrio as fichas corridas de ‘Tutuca’ e da senhora Brendler, e devolver os dois para a insignificância de onde vieram e merecem viver até o fim de seus dias.



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