Wilson Gomes
Bolsonaro é tosco, ignorante e mau, o Brasil que ele quer é um cenário de horror para quem cultiva valores humanistas, liberais e democratas, mas ele e o seu círculo íntimo sabem de uma coisa que uma parte da esquerda continua não vendo: em política, mandam a visão de mundo e os valores que ganham as eleições, formam as bancadas e conquistam maioria parlamentar e, eventualmente, apoio popular. Parece que vai levar um tempo, contudo, para as esquerdas entenderem isso. Enquanto as esquerdas identitárias continuam desejando como prêmio o reconhecimento da sua superioridade moral e a esquerda tradicional passa os dias culpando a mídia, a elite, a conspiração curitibana, a pobreza e os astros, Bolsonaro gasta energia para fazer um partido que dê forma institucional ao movimento que ele encabeça, que recolha os votos dos seus fiéis e agregados e que convertam tais votos em cadeiras nas casas legislativas e em posições de mando no Executivo Brasil afora.
Enquanto a esquerda, a convencional e a outra, se contenta em zombar do exército de anti-iluministas, antiliberais e antidemocratas do bolsonarismo e em rir-se dos maus modos à mesa institucional dos seus comensais vulgares e embrutecidos (como Alvim e, de novo esta semana, Weintraub), enquanto o identitarismo de esquerda gasta energia para descobrir qual é o autêntico feminismo ou quantos negros há na bibliografia da disciplina oferecida este semestre na Universidade, o bolsonarismo parece claramente concentrado em um princípio elementar da experiência democrática: quem ganha a eleição, quase sempre tem razão e, via de regra, tem pelo menos mais razão do que os derrotados.
Depois, a esquerda lacradora dos ambientes digitais de comunicação ainda acha que o bolsonarismo é que é o burro nessa história toda.
Sim, o bolsonarismo vive em grande parte de retórica e de dramaturgia. Ofensas e afrontas se transformaram em grande parte do que fazem o presidente, seus filhos e seus ministros diante de jornalistas ou em seus perfis em mídias digitais. Além disso, tanto o governo quando o movimento social que o sustenta se especializaram em fornecer as interpretações dos fatos que lhes convém e a produzir e disseminar enredos que lhes servem aos propósitos de satanizar os adversários, transformar críticos em inimigos sinistros e perigosos e converter a luta pelo poder do clã Bolsonaro em uma épica de heróis e virtudes. Mas, por outro lado, eles não desconhecem a importância de uma estrutura partidária, com pessoas e recursos, nem subestimam o valor da institucionalização do poder político. Mais ainda, sabem que o movimento social que os sustenta precisa ser convertido em votos e não apenas em pressão política, precisa ganhar uma forma institucional. Por isso, os bolsonaros parasitaram o PSL até quando o hospedeiro resolveu não lhes entregar mais o controle partidário nem o dinheiro dos fundos públicos que sustentam os partidos. Foi quando, então, entenderam que precisavam criar uma estrutura partidária própria e se puseram à luta.
E a esquerda? Qual o seu movimento novo na disputa política para 2020, considerando a necessidade de consolidar bancadas e voltar ao poder? Bem, uma parte acha que o PT, por exemplo, já teve o seu momento pragmático, nos 13 anos em que efetivamente governou. E que isso não deu certo.
Ora, me parece que justamente esses 13 anos constituíram o único período da História em que a esquerda esteve na presidência da República neste país. Ou o conceito de “não deu certo” precisa ser atualizado ou a esquerda não está entendendo que sem uma visão realista da política institucional vai voltar para o parquinho político, fazendo manifestações, reivindicando superioridade moral e encontrando algum gozo no próprio sofrimento, como é do seu feitio. Além disso, adotar uma visão institucional da política, o tal pragmatismo, não implica necessariamente que o partido tenha que cair na vida. A farra da corrupção do PT e de sua base aliada não decorre da compreensão, correta, de que não se implantam projetos sem votos nem mandatos nem aliados, mas da compreensão, errada, de que o Estado é um patrimônio que pode ser desfrutado privadamente por quem controla o poder. Uma coisa, nada tem a ver com a outra.
Mas fora as pautas tradicionais da esquerda, o que se pode fazer? Ora, a resposta não pode ser outra a não ser “fazei bancadas”. A política institucional sempre vai ganhar da política de movimentos e não se implantam projetos sem ganhar eleições. Os radicais dirão que isso é ir de cima para baixo, que de baixo para cima seria preciso primeiro “descer às bases, ir à favela, à periferia, às fábricas”. Bem, tanto faz. Votos têm que ser retirados de algum lugar, desde que estejam lá. Os pastores e missionários extraíram das favelas e grotões os votos que entregaram a Bolsonaro, enquanto os ultraliberais de sapatênis os foram recolher na Av. Faria Lima, outras semelhantes, para o mesmo fim. O fato é que, no fim do dia, fúria, medos e esperanças precisam ser transformados em votos, votos precisam ser convertidos em mandatos institucionalizados e mandatos governam o país.
WILSON GOMES é doutor em Filosofia, professor titular da Faculdade de Comunicação da UFBA e autor de A democracia no mundo digital: história, problemas e temas (Edições Sesc SP)
Revista Cult
Jair Bolsonaro discursa durante a abertura do Debate Geral da 74ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro de 2019. (Foto: Alan Santos/PR)
Enquanto a esquerda, a convencional e a outra, se contenta em zombar do exército de anti-iluministas, antiliberais e antidemocratas do bolsonarismo e em rir-se dos maus modos à mesa institucional dos seus comensais vulgares e embrutecidos (como Alvim e, de novo esta semana, Weintraub), enquanto o identitarismo de esquerda gasta energia para descobrir qual é o autêntico feminismo ou quantos negros há na bibliografia da disciplina oferecida este semestre na Universidade, o bolsonarismo parece claramente concentrado em um princípio elementar da experiência democrática: quem ganha a eleição, quase sempre tem razão e, via de regra, tem pelo menos mais razão do que os derrotados.
Depois, a esquerda lacradora dos ambientes digitais de comunicação ainda acha que o bolsonarismo é que é o burro nessa história toda.
Sim, o bolsonarismo vive em grande parte de retórica e de dramaturgia. Ofensas e afrontas se transformaram em grande parte do que fazem o presidente, seus filhos e seus ministros diante de jornalistas ou em seus perfis em mídias digitais. Além disso, tanto o governo quando o movimento social que o sustenta se especializaram em fornecer as interpretações dos fatos que lhes convém e a produzir e disseminar enredos que lhes servem aos propósitos de satanizar os adversários, transformar críticos em inimigos sinistros e perigosos e converter a luta pelo poder do clã Bolsonaro em uma épica de heróis e virtudes. Mas, por outro lado, eles não desconhecem a importância de uma estrutura partidária, com pessoas e recursos, nem subestimam o valor da institucionalização do poder político. Mais ainda, sabem que o movimento social que os sustenta precisa ser convertido em votos e não apenas em pressão política, precisa ganhar uma forma institucional. Por isso, os bolsonaros parasitaram o PSL até quando o hospedeiro resolveu não lhes entregar mais o controle partidário nem o dinheiro dos fundos públicos que sustentam os partidos. Foi quando, então, entenderam que precisavam criar uma estrutura partidária própria e se puseram à luta.
E a esquerda? Qual o seu movimento novo na disputa política para 2020, considerando a necessidade de consolidar bancadas e voltar ao poder? Bem, uma parte acha que o PT, por exemplo, já teve o seu momento pragmático, nos 13 anos em que efetivamente governou. E que isso não deu certo.
Ora, me parece que justamente esses 13 anos constituíram o único período da História em que a esquerda esteve na presidência da República neste país. Ou o conceito de “não deu certo” precisa ser atualizado ou a esquerda não está entendendo que sem uma visão realista da política institucional vai voltar para o parquinho político, fazendo manifestações, reivindicando superioridade moral e encontrando algum gozo no próprio sofrimento, como é do seu feitio. Além disso, adotar uma visão institucional da política, o tal pragmatismo, não implica necessariamente que o partido tenha que cair na vida. A farra da corrupção do PT e de sua base aliada não decorre da compreensão, correta, de que não se implantam projetos sem votos nem mandatos nem aliados, mas da compreensão, errada, de que o Estado é um patrimônio que pode ser desfrutado privadamente por quem controla o poder. Uma coisa, nada tem a ver com a outra.
Mas fora as pautas tradicionais da esquerda, o que se pode fazer? Ora, a resposta não pode ser outra a não ser “fazei bancadas”. A política institucional sempre vai ganhar da política de movimentos e não se implantam projetos sem ganhar eleições. Os radicais dirão que isso é ir de cima para baixo, que de baixo para cima seria preciso primeiro “descer às bases, ir à favela, à periferia, às fábricas”. Bem, tanto faz. Votos têm que ser retirados de algum lugar, desde que estejam lá. Os pastores e missionários extraíram das favelas e grotões os votos que entregaram a Bolsonaro, enquanto os ultraliberais de sapatênis os foram recolher na Av. Faria Lima, outras semelhantes, para o mesmo fim. O fato é que, no fim do dia, fúria, medos e esperanças precisam ser transformados em votos, votos precisam ser convertidos em mandatos institucionalizados e mandatos governam o país.
WILSON GOMES é doutor em Filosofia, professor titular da Faculdade de Comunicação da UFBA e autor de A democracia no mundo digital: história, problemas e temas (Edições Sesc SP)
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