O desfille do Carnaval de Paris acontece desde 1998. Claude Colom
Por: Adriana Brandão
E se a verdadeira fonte de inspiração do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro fosse francesa? Longe de ser ficção, a tese é confirmada por especialistas e divulgada pelos organizadores do Carnaval de Paris. O desfile parisiense começa a ser uma tradição. Ele acontece neste domingo (23) pelo 23° ano consecutivo, mas ainda é modesto comparado à festa carnavalesca parisiense do século 19. Na época, o carnaval de Paris era o mais importante do mundo.
O Carnaval de Paris ressuscitou em 1998. A antiga tradição da festa chamada de “Boi Gordo”, era organizada pelos açougueiros da capital às vésperas da terça-feira gorda, antes do início da quaresma. Os primeiros registros da brincadeira são de 1739, mas o desfile se popularizou de verdade em meados do século 19, com as pessoas passeando pelas ruas em carruagens enfeitadas e as batalhas de confete.Na época, a festa era tão importante que a rainha do Carnaval de Paris era recebida pelo presidente no Palácio do Eliseu. Mas a Segunda Guerra Mundial, seguida de uma disputa entre a prefeitura e o governo francês interrompeu a festa do “Boi Gordo” durante 46 anos, até a folia voltar às ruas da capital pela iniciativa de Basile Pachkoff.
“No início não tínhamos autorização da prefeitura para desfilar. Começamos o desfile do 'Boi Gordo', no domingo de carnaval, em 1998 e em 2009 ressuscitamos um segundo desfile da capital, a festa das ‘Rainhas das lavadeiras’, que acontece durante a quaresma”, conta Pachkoff.
Cartazes do Carnaval de Paris e do Carnaval das Mulheres carnaval-paris.org
O “carnavalesco” parisiense diz que foi “difícil, mas conseguimos ressuscitar a folia parisiense. Mas ainda tem muita gente que não conhece, que não sabe que o evento foi muito importante e que influenciou inclusive o carnaval do Rio”.
Quando o entrudo se encontra com a elegância francesa
O pesquisador e professor de artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Felipe Ferreira, autor do livro “Inventando carnavais: o surgimento do carnaval carioca no século 19 e outras questões carnavalescas" (editora UFRJ, 2005) e coordenador do centro de referência do carnaval da UERJ, confirma a influência francesa no desfile das escolas de samba cariocas:“O século 19 é um século em que Paris e a França serviam como uma espécie de farol, de modelo para as sociedades que estavam se organizando. E no caso do Brasil, especialmente, foi bastante inspirador para a civilização brasileira. Entre tantas outras coisas, o carnaval que se fazia em Paris acaba influenciando o carnaval do Rio de Janeiro, e não só o carnaval de rua, mas também o carnaval nos salões;”
A prática da folia na véspera da quaresma já existia no Brasil Colônia, com a tradição do entrudo português, mas o que vai acontecer no século 19 é o encontro de dois carnavais nas ruas do Rio de Janeiro, na época capital do país.
“No Rio de Janeiro a brincadeira do entrudo vai se encontrar com a brincadeira importada da França. É como se fosse dois lados de uma mesma moeda. De um lado, a brincadeira do entrudo, mais agressiva, mas, entretanto, mais animada, com mais música, com uma forte influência afro-brasileira. E de outro lado, a brincadeira francesa, sofisticada, elegante, com suas belas fantasias, com suas músicas sofisticadas, como toda a elegância que é característica da França. Esse encontro dessas duas formas de brincar é que vai, especificamente no Rio de Janeiro, dar origem ao que a gente entende como carnaval carioca e seu maior evento que são as escolas de samba. Você percebe estes dois lados reunidos, do esplendor, da maravilha, do luxo e da alegria do ritmo, da brincadeira espontânea.”
Felipe Ferreira frisa que o Carnaval de Paris “era importantíssimo, era o carnaval mais importante do mundo no século 19. Os parisienses se orgulhavam muito disso.”
Batucada em Paris
Há muito tempo o carnaval do Rio desbancou sua fonte de inspiração, mas a cada ano, o entusiasmo e a adesão dos parisienses à folia nas ruas da capital aumentam. O desfile conta com a participação espontânea de associações de vários países, cada grupo fantasiado com as roupas e cores tradicionais de suas culturas. Algumas batucadas de inspiração brasileiras animam a folia de rua parisiense, como a Tamaracá.O tema escolhido este ano é “Un fabuleux monde aérien” (ou “um fabuloso mundo aéreo) mas assim como a participação, a escolha da fantasia é livre. “Eu vou, como todos os anos, com meu chapéu de chifre de boi”, adianta Pachkoff.
A época do carnaval em Paris também é marcada tradicionalmente, há 17 anos, por um baile brasileiro na casa de show Cabaret Sauvage, que este ano será animado pela primeira vez pela batucada Zalindê, um grupo 100% feminino, fundado por Roberta Paim. A percussionista francesa Lise Taktouk, de 27 anos, que integra o Zalindê, está animadíssima:
“É o máximo a Roberta Paim, ter tido carta branca para organizar o evento. É interessante que o grupo seja 100% feminino. Vamos mostrar o Brasil sob todas as suas formas musicais e não somente o Brasil de plumas e apitos como se tem tendência a reduzir o carnaval do país”, explica a percussionista.
Agenda do carnaval parisiense
A concentração do tradicional desfile do “Boi Gordo” começa às 13h do domingo (23) de carnaval na Praça Gambetta, no 20° distrito de Paris. O cortejo parte às 14h em direção à Praça da República, no centro da capital. A previsão do tempo é boa, sem chuvas e temperaturas amenas para a época, o que deve ajudar a atrair mais foliões, espera Basile Pachkoff. O desfile da “Rainha das lavadeiras” está previsto para 22 de março.O baile do carnaval brasileiro do Cabaret Sauvage, animado pela batucada Zalindê, acontece no sábado (29), depois da quarta-feira de cinzas.
O Carnaval de Paris começa a crescer, mas ainda está longe de ser a festa mundialmente conhecida do século 19. Mas Felipe Ferreira acredita que a folia parisiense pode voltar a ficar famosa: “O espírito do carnaval não se perdeu em Paris, ficou na memória coletiva dos parisienses”.


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