"Se a gente quiser ajustar a política tributária tem que repensar sobre quem vai pagar a conta nesse país. E acho que está na hora dos ricos pagarem um pouco da conta porque eles já ganharam demais", diz Lula em entrevista ao Brasil 247
São Paulo – Em entrevista ao portal Brasil 247, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou duramente a política externa brasileira, “alinhada aos Estados Unidos”. Reprovou ainda o “adesismo” de parte do empresariado brasileiro a essa orientação. “O que a elite brasileira tem que compreender é que é preciso parar de ser vira-lata, ninguém vai ajudar o Brasil se o Brasil não quiser se ajudar”, afirmou.
“Digo sempre: ninguém respeita quem não se respeita. O Brasil não se respeita, cansei de ir em debate com empresários nos Estados Unidos, um bando de vira-latas, de lambe-botas. aliás, poucos empresários daqui, muitos já aposentados que moravam lá”, disse Lula, em entrevista feita pelo jornalista e editor-responsável pelo 247, Leonardo Attuch, junto com os ex-ministros Celso Amorim e Aloizio Mercadante.
Lula demarcou as diferenças da atual política externa do governo Bolsonaro com a de sua gestão. “Nós resolvemos interferir na geopolítica”, lembrou. “A África era tratada como se fosse uma colônia global principalmente da França e Inglaterra. O Brasil nunca olhou para trás, para seus aliados naturais, e não enxergava a África.”
“Tudo era para os Estados unidos e Europa. Sempre a elite brasileira vendendo a ideia de sermos agradáveis, de entrar na OCDE… Sabe o que é a OCDE? Eu te convido para o meu aniversário, você é o primo pobre da família, e não vai tomar refrigerante, não vai comer o bolo e nem cantar o parabéns, vai ficar ali no cantinho e poder dizer que estava lá dentro. É esse o papel ridículo que esse presidente acha que está fazendo.”
Para Lula, um dos principais problemas da situação tensa em que se encontra o Oriente Médio é a ingerência estadunidense na região. “Enquanto os Estado Unidos tentarem ser o tutor da paz entre Israel e o mundo árabe não haverá paz, pois não interessa a paz aos Estados Unidos. Digo isso com conhecimento de causa do que vi, do que conversei e vejo em negociação. Para os americanos, interessa o conflito”, afirmou.
Ele também ironizou a fala do jornalista Alexandre Garcia, divulgada pelo presidente Jair Bolsonaro em seu Twitter, na qual o ex-assessor do ditador João Baptista Figueiredo desdenhou do povo brasileiro em comparação ao japonês. “Traga um japonês pra cá com a renda per capita que tem o brasileiro e leve o brasileiro pra lá com a renda per capita que tem o japonês. Você vai ver o que vai ser a criatividade do Brasil no Japão.”
“Os intelectuais tiveram um papel exuberante na formação do PT, porque o partido teve uma sorte, nasceu do resultado de um processo de emulação da classe trabalhadora que começava a se descobrir na política, com as grandes greve de 78 e 79.
Juntou o que tinha de melhor no movimento sindical, na igreja progressista, sobretudo da Teologia da Libertação, juntou boa parte dos jovens que haviam participado da luta armada na década de 70 e grande parte dos intelectuais”, recordou ainda Lula.
“Nosso papel é ensinar ao povo brasileiro o que é democracia. Para uma parte da sociedade, da elite brasileira, democracia é o pobre poder gritar que está com fome. Não, pra nós do PT, democracia significa o cara comer três vezes ao dia”, disse.
“Qual é o pecado que o povo pode cometer de querer usufruir das coisas que ele mesmo produz?”, questionou.
“A democracia é garantir que todos tenham acesso aos bens produzidos nesse país, é repartir o pão. Não existe democracia se um cidadão pode comer dez vezes por dia e outro cidadão passa dez dias sem comer”, disse Lula.
“O encontro com o papa é uma necessidade de agradecer a ele as manifestações que ele tem feito, não apenas indiretamente em solidariedade a mim, mas em defesa do povo oprimido do mundo”, pontuou.
Segundo Lula, a conversa com o pontífice vai se dar em torno da questão da desigualdade. “Quero que o papa saiba da experiência brasileira, a mais bem sucedida das últimas décadas, que provou que o pobre não é problema. O pobre, quando inserido na economia, vira solução. Você dá dinheiro para um pobre e ele vira consumidor, dá para um rico e ele vira especulador.”
“Fiz duas propostas de reforma tributária. A de 2007 (segunda), achei que seria aprovada por unanimidade. O PT tinha o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, ela foi aprovada pelos 27 governadores, por todos os líderes do Congresso Nacional, por 27 federações de empresários e pelas centrais sindicais. Quando todo mundo foi favorável, mandamos para o Congresso Nacional e pensamos: vai ser aprovado. Dali a pouco descubro que o (José) Serra estava trabalhando contra a reforma tributária que ele mesmo tinha concordado”, recordou.
“Há muitos interesses econômicos e a proposta de reforma tributária que o PT apresentou é muito clara: os ricos têm que pagar mais impostos para aliviar a carga tributária dos mais pobres. Os mais pobres não podem pagar o mesmo imposto no quilo do feijão que paga o Abilio Diniz, o cara do Itaú e do Pactual”, disse Lula. “Se a gente quiser ajustar a política tributária tem que repensar sobre quem vai pagar a conta nesse país. E acho que está na hora dos ricos pagarem um pouco da conta porque eles já ganharam demais.”
“Digo sempre: ninguém respeita quem não se respeita. O Brasil não se respeita, cansei de ir em debate com empresários nos Estados Unidos, um bando de vira-latas, de lambe-botas. aliás, poucos empresários daqui, muitos já aposentados que moravam lá”, disse Lula, em entrevista feita pelo jornalista e editor-responsável pelo 247, Leonardo Attuch, junto com os ex-ministros Celso Amorim e Aloizio Mercadante.
“Os mais ricos têm que pagar mais impostos para aliviar a carga tributária dos mais pobres. Os mais pobres não podem pagar o mesmo imposto no quilo do feijão que pagam o Abilio Diniz, o cara do Itaú, o do Pactual”
“Tudo era para os Estados unidos e Europa. Sempre a elite brasileira vendendo a ideia de sermos agradáveis, de entrar na OCDE… Sabe o que é a OCDE? Eu te convido para o meu aniversário, você é o primo pobre da família, e não vai tomar refrigerante, não vai comer o bolo e nem cantar o parabéns, vai ficar ali no cantinho e poder dizer que estava lá dentro. É esse o papel ridículo que esse presidente acha que está fazendo.”
Para Lula, um dos principais problemas da situação tensa em que se encontra o Oriente Médio é a ingerência estadunidense na região. “Enquanto os Estado Unidos tentarem ser o tutor da paz entre Israel e o mundo árabe não haverá paz, pois não interessa a paz aos Estados Unidos. Digo isso com conhecimento de causa do que vi, do que conversei e vejo em negociação. Para os americanos, interessa o conflito”, afirmou.
Ele também ironizou a fala do jornalista Alexandre Garcia, divulgada pelo presidente Jair Bolsonaro em seu Twitter, na qual o ex-assessor do ditador João Baptista Figueiredo desdenhou do povo brasileiro em comparação ao japonês. “Traga um japonês pra cá com a renda per capita que tem o brasileiro e leve o brasileiro pra lá com a renda per capita que tem o japonês. Você vai ver o que vai ser a criatividade do Brasil no Japão.”
Formação e futuro do PT
Na entrevista, o ex-presidente também falou a respeito das raízes do PT e das perspectivas para a legenda no futuro. “O PT não pode esquecer a razão pela qual ele nasceu. ele nasceu para fazer com que as pessoas desprovidas de proteção do Estado tivessem proteção”, destacou. “Por isso o PT tem que radicalizar a democracia.”“Os intelectuais tiveram um papel exuberante na formação do PT, porque o partido teve uma sorte, nasceu do resultado de um processo de emulação da classe trabalhadora que começava a se descobrir na política, com as grandes greve de 78 e 79.
Juntou o que tinha de melhor no movimento sindical, na igreja progressista, sobretudo da Teologia da Libertação, juntou boa parte dos jovens que haviam participado da luta armada na década de 70 e grande parte dos intelectuais”, recordou ainda Lula.
“Nosso papel é ensinar ao povo brasileiro o que é democracia. Para uma parte da sociedade, da elite brasileira, democracia é o pobre poder gritar que está com fome. Não, pra nós do PT, democracia significa o cara comer três vezes ao dia”, disse.
“Qual é o pecado que o povo pode cometer de querer usufruir das coisas que ele mesmo produz?”, questionou.
Democracia capenga
Perguntado sobre o fato de o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Foffoli, ter dito em mensagem do Judiciário enviada o Legislativo que a democracia no Brasil estava “consolidada”, Lula divergiu. “A democracia no Brasil é capenga. Existe muito mais enquanto democracia institucional, mas quando você sai da Constituição e vai para o dia a dia do povo, a democracia não acontece”, observou.“A democracia é garantir que todos tenham acesso aos bens produzidos nesse país, é repartir o pão. Não existe democracia se um cidadão pode comer dez vezes por dia e outro cidadão passa dez dias sem comer”, disse Lula.
Encontro com o papa Francisco
O ex-presidente também falou a respeito de um encontro com o papa Francisco, no dia 13 de fevereiro. Seus advogados pediram à Justiça o adiamento de um depoimento marcado para o dia 11, no âmbito da Operação Zelotes, já que o ex-presidente estará fora do país entre 12 e 15 de fevereiro.“O encontro com o papa é uma necessidade de agradecer a ele as manifestações que ele tem feito, não apenas indiretamente em solidariedade a mim, mas em defesa do povo oprimido do mundo”, pontuou.
Segundo Lula, a conversa com o pontífice vai se dar em torno da questão da desigualdade. “Quero que o papa saiba da experiência brasileira, a mais bem sucedida das últimas décadas, que provou que o pobre não é problema. O pobre, quando inserido na economia, vira solução. Você dá dinheiro para um pobre e ele vira consumidor, dá para um rico e ele vira especulador.”
Reforma tributária
O ex-presidente também falou a respeito de um tema que deve ser prioridade na agenda do Congresso Nacional em 2020, a reforma tributária.“Fiz duas propostas de reforma tributária. A de 2007 (segunda), achei que seria aprovada por unanimidade. O PT tinha o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, ela foi aprovada pelos 27 governadores, por todos os líderes do Congresso Nacional, por 27 federações de empresários e pelas centrais sindicais. Quando todo mundo foi favorável, mandamos para o Congresso Nacional e pensamos: vai ser aprovado. Dali a pouco descubro que o (José) Serra estava trabalhando contra a reforma tributária que ele mesmo tinha concordado”, recordou.
“Há muitos interesses econômicos e a proposta de reforma tributária que o PT apresentou é muito clara: os ricos têm que pagar mais impostos para aliviar a carga tributária dos mais pobres. Os mais pobres não podem pagar o mesmo imposto no quilo do feijão que paga o Abilio Diniz, o cara do Itaú e do Pactual”, disse Lula. “Se a gente quiser ajustar a política tributária tem que repensar sobre quem vai pagar a conta nesse país. E acho que está na hora dos ricos pagarem um pouco da conta porque eles já ganharam demais.”
Livro sobre Marisa Letícia
O ex-presidente confirmou presença no lançamento do livro Marisa Letícia Lula da Silva, da Alameda Editorial. A obra, com 408 páginas, 40 fotografias e quase uma centena de entrevistas está em pré-venda (R$ 64) e será lançada nesta quarta-feira (5), em São Bernardo do Campo. Nesta quinta, está previsto outro lançamento na capital paulista, no bar Canto Madalena.RBA

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