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Dos silenciamentos à desconstrução. Globo e Bolsonaro, o que vem por aí
por Eliara Santana*
Mostraram as cenas dos panelaços, os sons dos panelaços, o “fora, Bolsonaro” cidade a cidade, bairro a bairro (com muitos“bairros nobres”), estado a estado, em todo o país.
Sem legenda. Sem narração. Sem interferência de uma voz externa. Apenas a voz do povo…
Não é uma estratégia aleatória nem tampouco recurso do momento. A relação Globo/Jair pode ser bem mapeada e explicada por essa maravilhosa categoria – silenciamento – e por essa brilhante estratégia – desconstrução.
O silenciamento como política editorial constrói-se na perspectiva de que é preciso dizer X para deixar de dizer Y.
Na primeira fase, como já dito aqui em alguns artigos, operou-se o silenciamento com viés positivo: Jair aparecia apenas em imagens, suas declarações eram filtradas (sua “voz” era a voz de Delis Ortis), ele raramente falava.
A ação era necessária para filtrar toda a imbecilidade propalada pela voz presidencial.
Era necessário calar Jair num sentido bom – ele aparecia, estava ali, mas não dizia – alguém autorizado dizia por ele.
E funcionou, claro, quando ainda havia a ilusão de que Jair era o mal necessário para garantir a equipe econômica e o afastamento da esquerda. Mas isso foi mudando…
Na segunda fase, operou-se o silenciamento num viés negativo – Jair nem aparecia, ou aparecia raramente.
As investidas nas redes sociais mostravam que a criatura não era controlável e que não bastava um banho de verniz, era preciso, então, tirá-lo simbolicamente de cena, trazendo mais o ministro da economia ou o vice Mourão.
Jair não comentava mais nada relevante para o país. Ele não era mais uma voz de autoridade. Mesmo assim, ainda não era hora de desconstruí-lo totalmente porque, vamos combinar, o Nine estava saindo da prisão, dando a volta por cima… Aturemos o Jair, vamos passar mais um paninho.
Mas aí surge um vírus democrático para escancarar as intempéries de Jair e filhotes e mostrar que, sem comando central, o navio afunda.
As edições com os panelaços inauguram fortemente a fase da desconstrução.
Simbolicamente, Jair não está mais autorizado a ocupar o cargo que ocupa. Sua fala é absolutamente periférica e dispensável.
Para compor as últimas edições, os repertórios “ciência” e “solidariedade” ganham pleno destaque.
São categorias que, definitivamente, não compõem o menu do Jair.
Seu discurso agora não autorizado nega a ciência e desperta nos brasileiros o oposto à solidariedade.
No JN, há um Brasil que se ajuda. E um Brasil que venera a ciência – corte para os “panelaços do bem”, em homenagem aos profissionais de saúde.
Também fica claro que não há presidente ou um comando nacional. Jair não existe.
A língua é um instrumento de poder. Portanto, só tem direito à palavra quem tem competência.
A linguagem legítima, nos diz Bourdieu, é uma linguagem autorizada, uma linguagem de autoridade.
Por isso Jair não diz mais, os panelaços e os gritos dizem em seu lugar.
Na construção/desconstrução do JN, o povo fala, o povo tem a linguagem autorizada, o povo tem poder.
E o povo (também de varandas gourmet) diz “Fora, Bolsonaro”.
Não há um narrador a dizer. Há apenas a voz do povo. E o barulho das panelas.
Tchau, Jair…
*Eliara Santana é jornalista e doutoranda em Estudos Linguísticos pela PUC Minas/Capes.
Viomundo

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