Nelson Teich mete os pés pelas mãos para se declarar totalmente alinhado com Bolsonaro, apesar de já ter defendido o isolamento social, que o presidente combate. Por Luis Leiria.

Luís Leiria

Teich (à esquerda) entra, Mandetta sai. Foto de Marcelo Casal Jr. - Agência Brasil

Bolsonaro tinha de demitir Luiz Henrique Mandetta, o seu ministro da Saúde, mais tarde ou mais cedo. Como na fábula do sapo e do escorpião(link is external), é da sua natureza. O presidente não podia aceitar o convívio no mesmo governo com um ministro que não seguia as suas orientações e, ainda por cima, era muito mais popular que ele – segundo uma sondagem do instituto DataFolha do início do mês, Mandetta tinha 76% de aprovação enquanto Bolsonaro se ficava pelos 33%. Depois do episódio em que Bolsonaro preparou todo o cenário para demitir o ministro e recuou à última da hora, era uma questão de tempo. Mandetta durou apenas pouco mais de uma semana.

Nesta sexta-feira, Bolsonaro deu posse ao novo ministro, o médico Nelson Teich, sócio de uma empresa de consultoria na área da Saúde, a Teich Health Care. O nome dele já tinha aparecido quando da formação do governo, pois Teich chegou a participar na campanha eleitoral de Bolsonaro, mas acabou por perder a vaga para Mandetta. Ao anunciar que aceitava o cargo, Teich afirmou estar completamente alinhado com o presidente.

“Forçada de barra”?

Mas que factos novos levaram o presidente a decidir-se pela demissão do ministro da Saúde, se desistira dela tão pouco tempo antes? A imprensa aponta para uma mudança de opinião dos ministros militares, que teriam achado a postura de Mandetta provocatória em relação ao presidente, nomeadamente numa entrevista concedida à rede Globo, que Jair Bolsonaro considera a sua inimiga nº1.

Há quem interprete que Mandetta teria “forçado a barra” para ser demitido. Compreende-se: no dia 6 de abril, dia do “fico” de Mandetta, havia 12.183 casos confirmados de infeção pelo novo coronavírus e 564 mortes; na quinta-feira, 16 de abril, data da demissão do ministro, o número de casos já atingira os 30.683 e as mortes quase quadruplicaram: 1.947. Diante desta subida galopante da pandemia de Covid-19, quando começa a ser uma questão de dias o colapso do Serviço Único de Saúde (SUS) por se esgotarem as vagas nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI), Mandetta ainda sai “por cima”, em condições de se aventurar a voos políticos mais audaciosos, deixando sobre os ombros do seu sucessor o peso da tragédia anunciada e a tarefa impossível de satisfazer todos os caprichos de Bolsonaro.

Sabe-se que o presidente continua a bater na mesma tecla: quer acabar o mais depressa possível com o isolamento social, reabrir todos os comércios e serviços encerrados devido ao isolamento, e voltar a pôr a economia a funcionar de forma a que os brasileiros, nas suas palavras, não morram da cura em vez de morrerem da doença. Até porque a epidemia, na visão do presidente, não passa de uma “gripezinha”.

Cego perante o crescimento diário das mortes, Bolsonaro parece até ignorar que dos quase dois mil mortos, e ao contrário do que ele já disse, 25% são mais jovens do que 60 anos. Uma característica particularmente cruel do surto de Covid-19 que está a atingir o Brasil.

Isolado no país e no mundo

Pois nem o crescimento dos dados macabros faz Jair Bolsonaro desistir de bombardear o distanciamento social, nem a falta de comprovação da suposta eficácia do medicamento cloroquina, usado para combater a malária, o fez desistir de apresentá-lo como a solução para a cura dos infetados pelo surto. Esta insistência de Bolsonaro provocou-lhe um isolamento político nacional e internacional: para além do presidente do Brasil, apenas os dirigentes da Bielorrússia, do Turcomenistão e da Nicarágua são negacionistas da Covid-19.

Nem a mudança de Donald Trump o alertou para o facto de que as suas posições são indefensáveis e terão um custo avassalador de vidas de brasileiros. O presidente dos EUA passou alegremente de desvalorizar a importância da pandemia para se mostrar como um paladino do seu combate. Bolsonaro mantém a tese da “gripezinha”. Internamente, apenas os seus defensores mais fanáticos alinham com esta política.

Quadratura do círculo

A tarefa de Nelson Teich parece assim tão difícil quanto fazer a quadratura do círculo. Ele já defendeu publicamente o isolamento social e elogiou Mandetta. Assume agora o Ministério da Saúde tentando conciliar posições: disse à imprensa que “a saúde não vive sem a economia e a economia não vive sem a saúde” e que é um “equívoco as duas áreas não trabalharem juntas”, seguindo quase à letra as palavras de Bolsonaro.

O pior foi quando quis explicar a sua visão. Disse: “Como a gente tem pouca informação, como é tudo muito confuso, a gente começa a tratar a ideia como se fosse facto e começa a trabalhar cada decisão como se fosse um tudo ou nada e não é nada disso.”

Perceberam o que ele quis dizer? Eu não.

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