por Eliara Santana*

16 de março de 2016 – O então Juiz Sérgio Moro libera gravações de diálogos do ex-presidente Lula, investigado pela Lava Jato, e o JN tem acesso exclusivo a elas.

Nas gravações, há conversas com a então presidente Dilma Roussef. O tema é recortado e tem várias matérias, ao longo da edição, que contempla ainda os chamados panelaços (3 minutos) e manifestações na porta do planalto (2 minutos).

5 de abril de 2018 – O então juiz Sérgio Moro decreta a prisão do ex-presidente Lula.

Todos ficam sabendo em primeira mão pelo Plantão JN, no final da tarde de 5 de abril. Na matéria, Renata Vasconcelos, de camisa branca, destaca que Moro “concede” direitos a Lula.

Ao fundo, a clássica imagem de fundo vermelho com canos de esgoto por onde escorre muito dinheiro.

1 de outubro de 2018 (a dois dias do 1° turno da eleição) – Às vésperas do 1ª turno da eleição, Moro novamente libera trechos da delação já feita por Palocci (aparentemente trechos inéditos).

“O ex-ministro Antonio Palocci diz em delação que o ex-presidente Lula sabia da corrupção na Petrobras e que o então presidente encomendou a construção de sondas para garantir, com recursos ilícitos, o futuro do Partido dos Trabalhadores e a eleição de Dilma Rousseff. Palocci também disse que as campanhas de Dilma de 2010 e 2014 custaram quase três vezes o valor declarado”, anuncia Bonner com a clássica imagem ao fundo. O PT afirma que o ministro Palocci mente”.

A imagem de fundo para ilustrar é a clássica cena vermelha com canos de esgoto por onde escorre muito dinheiro.

10 de junho de 2019 – The Intercept divulga série de reportagens com conversas comprometedoras entre Moro e Dallagnol. No JN, a abertura da matéria insinua outra coisa e não penaliza Moro:

Renata: “A divulgação de mensagens atribuídas a procuradores da força tarefa da Lava Jato e ao então juiz Sérgio Moro provocou diversas reações no mundo jurídico. As manifestações de condenação se dividiram entre o conteúdo das supostas conversas e a condenação à forma ilegal como foram obtidas. Segundo o site Intercept, que publicou as mensagens, elas foram extraídas do aplicativo de mensagens Telegram”.

Bonner: “Na semana passada, o ministro Sérgio Moro já havia denunciado ter sido vítima de um crime. O celular dele foi invadido por meio do aplicativo de mensagens Telegram. O Intercept disse que obteve as informações de fonte anônima antes da invasão do telefone do ministro. Mas o procurador Deltan Dallagnol já havia denunciado ter sido vítima do mesmo crime em abril, quando comunicou o fato à Procuradoria Geral da República”.

9 de julho de 2019 – O site The Intercept Brasil divulga o primeiro áudio das conversas entre os membros da força-tarefa da Lava Jato e o ex-juiz e atual ministro Sergio Moro.

No áudio inédito, o procurador Deltan Dallagnol comemora proibição da entrevista de Lula. O JN não faz menção a isso nem cita Moro.

26 de setembro de 2019 – No dia em que o STF impõe uma derrota à Operação Lava Jato, com o placar de 6 x 3 mostrando uma tendência à revisão das decisões, o Jornal Nacional abre a edição da noite com o ex-juiz Sérgio Moro, ex-coordenador da Lava Jato, cujas condutas e práticas nada republicanas foram reveladas pelo The Intercept e estão agora sendo questionadas pelos ministros do STF.

A matéria mostra em destaque o encontro de Moro com Rodrigo Maia para discutir o pacote anticrime.

24 de abril de 2020 – JN faz edição histórica a partir da demissão de Sérgio Moro do Ministério da Justiça.

Segundo Bonner: “Contra a vontade de Sérgio Moro, o presidente Jair Bolsonaro demite o diretor da Polícia Federal Maurício Valeixo, e o ex-ministro Moro pede demissão do Ministério com denúncias graves contra o presidente (entra Moro falando ainda na chamada para a edição)”.

Esses recortes da recente cena política brasileira trazidos por trechos de edições do Jornal Nacional que culminam na edição do JN de 24 de abril, dia em o ex-juiz e agora ex-ministro Sérgio Moro pede demissão do governo Bolsonaro, encerrando uma fase de gloriosos desdobramentos da Operação Lava Jato – impeachment de Dilma, Lula preso, Bolsonaro eleito -, mostram uma ligação muito próxima entre o ex-juiz e agora ex-ministro e o Jornal Nacional (representando aqui, no final, a Rede Globo).

Uma parceria frutífera, que começa desde o início da Lava Jato, em 2014, e foi pautada por liberações exclusivas para garantir o furo do jornal das 20h30, espaços para justificativas respondendo a ataques, silenciamento dos oponentes, etc. etc.

Além de premiação “Faz a Diferença”, promovida pelo jornal O Globo, no auge das manifestações contra Dilma e das investigações da Lava Jato tomando corpo, em março de 2015 – as grandes manifestações pelo impeachment foram no dia 15, e no dia 19 Moro foi laureado com o prêmio global.

Exatamente por esse histórico, a edição memorável do dia 24/04 não se esgota naquele dia. E exatamente por tudo isso, é essencial pensar nos detalhes dessa relação histórica para, afinal, pensar sobre 2022 e o que vem por aí.

Lava Jato intocável

No JN, a Operação Lava Jato sempre foi destaque e uma fonte de autoridade inquestionável.

As ações da força-tarefa eram sempre encenadas midiaticamente e mostravam o espetáculo da luta contra a grande corrupção que assolou o Brasil.

Para muito além da divulgação de informações que deveriam ser sigilosas, posto que faziam parte de processos em andamento, essa parceria Globo – Lava Jato foi decisiva para direcionar os rumos políticos do país.

Porque, além do timing perfeito na divulgação de investigações, nas ações espetaculares da força-tarefa e nas delações direcionadas, houve também a construção de uma linguagem simbólica que estruturou todas essas ações conjuntas e garantiu o enaltecimento de determinadas figuras e a criminalização sem defesa de outras.

Em linhas gerais, o que se materializou a partir daquela época, com a parceria, foi um padrão de totalitarismo expresso na linguagem [1] marcado por:

*uma sintonia impressionante entre os pares envolvidos (Lava Jato, JN);

*grande homogeneidade no discurso;

*uma linha uniforme de pensamento único;

*o consenso e a parcialidade para abordar e classificar grupos sociais determinados, situando-os no campo simbólico da ilegalidade.

Nessa construção está, como peça essencial, o trabalhado repertório “corrupção” (cuja construção já discuti em alguns artigos e discuto na minha tese), a moldura ideal para toda a encenação.

As delações eram mostradas à exaustão pelo JN (e pela mídia corporativa como um todo), sem qualquer questionamento, como se fossem procedimentos normais para salvar o país da grande corrupção e punir severamente os “inimigos” da nação.

A Lava Jato, em seu modo punitivista, não podia ser questionada. E de fato não o era.

Além da encenação, outro elemento marcante nessa parceria era o timing perfeito no trabalho da dupla parceira – as informações eram sempre divulgadas em momentos políticos decisivos do cenário nacional.

Denúncias do Intercept e a operação silenciamento

Em 10 de junho de 2019, o jornalista Glenn Greenwald, ganhador em 2014 do prêmio Pulitzer de Jornalismo (o mais importante no mundo), e o site The Intercept trazem à tona mensagens e conversas comprometedoras entre o procurador Deltan Dallagnol e o então juiz Sergio Moro, revelando articulações nada republicanas.

Jornal Nacional aposta então na criação de um fato “novo” para consolidar uma narrativa de sustentação à Lava Jato.

A partir de 11 de junho, a ideia que interessa ao JN é:

“A Polícia Federal suspeita que a invasão a celulares de Moro e procuradores foi uma ação orquestrada”.

Portanto, o acontecimento inicial (divulgação das conversas comprometedoras) deixa de ser um fato relevante para o jornal, que recria os acontecimentos como convém, dando como asserção, afirmação, algo que é apenas suposição oriunda de certo grupo (a ação orquestrada).

Na criação desse roteiro, há elementos marcantes como a desconstrução do oponente e a criação de um inimigo comum (Glenn e a ação para atacar a Lava Jato) e a ressignificação de acontecimentos (saem conversas comprometedoras e entra ação orquestrada de hackers).

A partir das edições de13 de junho, para consolidar o roteiro e o fato ressignificado, é preciso adicionar elementos interessantes à trama, portanto, amplia-se a ideia de um ataque dimensionando esse fator e reafirmando se tratar de uma “invasão” muito grande, que atinge outros atores.

Diz a abertura:

“As investigações iniciais mostraram que o ataque de hackers a autoridades ligadas à Operação foi muito mais amplo do que se supunha e atingiu também políticos e um grupo de integrantes do Conselho Nacional do Ministério Público”.
Além disso, um novo e importante personagem é inserido na trama: o hacker.

Era preciso consolidar para o público a nova narrativa, com os novos personagens: o jornal dá como certo o ataque de hackers de grandes proporções que envolveu não apenas os procuradores da Lava Jato, mas membros do Ministério Público e políticos, e o que o site Intercept trazia naquele momento era baseado nesse grande esquema, portanto, não devia interessar ao Brasil.

Tira-se portanto o foco de Sergio Moro.

O “herói” que nunca saiu de cena

Desde as denúncias do Intercept, a partir do segundo semestre do ano passado, Moro não aparecia muito mais no JN, em nenhum viés.

Nas várias questões de desmatamento, assassinato de indígenas, grilagem, queimadas, o ministro não aparecia como fonte.

De alguma forma, era blindado pelo jornal. Sobretudo após a votação do STF que derruba prisão após condenação em segunda instância, em novembro de 2019, uma derrota pessoal para Moro.

Mas, no dia 9 de dezembro, no esteio das pesquisas de sondagem eleitoral divulgadas (primeiro pela Veja e, depois, pela Folha de São Paulo), a edição do JN trouxe de volta à cena o herói do combate à grande corrupção, personificado pelo outrora juiz, agora ministro, Sergio Moro.

O JN não se referiu às pesquisas na edição, tampouco estabeleceu qualquer ligação com a disputa eleitoral já instaurada.

Só trouxe as “notícias”, que cuidaram de mostrar que o herói ilibado do combate à corrupção estava bem vivo, pronto para o combate.

Já na chamada, a ação de autoridade é demarcada: o ministro da Justiça é quem autoriza o envio de tropas para conter a matança de índios no Norte do país.

Na sequência da grade do jornal, o tema que precisa ser inserido para que o herói apareça: a corrupção.

Matéria de seis minutos mostra eventos em Brasília para celebrar o Dia Internacional de Combate à Corrupção (não há menção específica à data, quando foi criada, se há celebrações em outras partes do mundo).

O narrador informa que o ministro do Supremo, Luís Fux, representando a Justiça, diz que o país “precisa de instituições fortes e de uma imprensa investigativa”.

E que o ministro da Justiça “voltou a defender a prisão após condenação em segunda instância”.

Corte para as imagens da sessão solene na Câmara, em que o primeiro plano mostra a imagem séria e compenetrada do ex-juiz e atual ministro, que recebeu uma medalha e “falou dos avanços e também dos retrocessos no combate à corrupção.

Entra a fala do ministro, com uma imagem em primeiro plano, mostrando-o com o semblante sério e sisudo, simulando preocupação:

“Alguns reveses contra (sic) a corrupção, que não vieram do governo, não vieram do governo, alguns reveses da (sic), contra a corrupção que nós temos que trabalhar. Nós temos que olhar o futuro, e pra esse futuro é realmente imprescindível a volta da execução da condenação em segunda instância, por emenda constitucional, por projeto de Lei, essa decisão aí realmente cabe ao Congresso Nacional e aos parlamentares”.
Ele é a voz que tem autoridade para antecipar o futuro e dizer as únicas bases possíveis para esse futuro delineado.

Ele é também a voz que se autoriza a direcionar a ação do outro poder – o Legislativo – para que esse futuro aconteça.

Ele é a voz que se autoriza a sugerir uma emenda constitucional em relação a uma causa pétrea da Constituição.

Nova pausa nas aparições midiáticas, e em todas as confusões do clã Bolsonaro, ele não aparece muito.

Apenas é citado em relação aos rumores de troca no comando da PF. Até que chega o pedido de demissão, e a edição histórica do JN joga a carga no herói ilibado contra corrupção.

Na sequência da edição, e por quase 30 minutos, sem blocos e sem interrupção para anunciantes, o que se viu foi a reprodução conduzida e analisada do pronunciamento de Sérgio Moro (ele tem toda a prerrogativa da fala, e o faz sem qualquer interrupção), com a intervenção da bancada para marcar pontos estratégicos e delinear o juiz-herói.

Alguns elementos:

– Ele quis evitar que a crise política acontecesse nesse momento em que o país enfrenta a pandemia do coronavírus: e Moro começa comentando o número recorde de óbitos.

– Ele lembra os termos em que foi convidado para compor o ministério, ressaltando o caráter de uma “missão” a ser cumprida contra a corrupção

– Moro diz que vai procurar emprego – que não se enriqueceu no serviço público.

– Lula retorna ao JN como personagem condenado por Moro – é exemplo do sucesso na luta contra a corrupção

– Edição mostra e recapitula todos os embates entre Moro e Bolsonaro por conta do suposto combate à corrupção.

– As investigações sobre Flavio Bolsonaro aparecem com destaque e a questão do Coaf é trazida à tona

– A edição das imagens (congeladas ou não) mostra um Moro figura de autoridade, inquestionável na aura de combatente da corrupção. Ele não fala a não ser no pronunciamento.

Todo esse percurso da parceria ao longo dessa recente e turbulenta história do Brasil dá sinais importantes de que Sergio Moro é uma peça importante, de que sua saída deu-se num momento oportuno e de que, novamente, ele e essa parceria sólida podem estar deflagrando uma nova fase nos rumos da vida política brasileira.

Talvez 2022 seja mesmo logo ali… vamos ver.

*Eliara Santana é jornalista e doutoranda em Estudos Linguísticos pela PUC Minas/Capes.

[1] Discuti mais detidamente sobre isso num artigo em conjunto com meu orientador publicado na Revista Scritpa http://periodicos.pucminas.br/index.php/scripta/article/view/17916


Viomundo

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