No escândalo dos laranjas do PSL e no inquérito dos hackers do Intercept, Moro sinalizou que teve acesso a dados das investigações em andamento

Por Jornal GGN

Foto: Agência Brasil

Foi só Sergio Moro demolir o casamento de 16 meses com Jair Bolsonaro, na manhã desta sexta (24), que setores da grande mídia trataram de passar um verniz de moralidade na imagem do ex-juiz da Lava Jato, ofuscando um certo grau de contradição nas acusações que agora ele lança contra o ex-patrão. Moro acusou Bolsonaro de interferir na Polícia Federal para ter acesso a “relatórios de inteligência” e outras informações sigilosas de investigações em andamento.

Parece até que a imprensa se esqueceu do que ela mesma denunciou no ano passado: que Moro, enquanto ministro da Justiça, deu sinais de que teve acesso privilegiado a investigações da Polícia Federal e repassou informações ao maior interessado nelas, Bolsonaro.

Em julho de 2019, no meio do escândalo dos laranjas do PSL, Bolsonaro disse pessoalmente à imprensa que Moro “mandou a cópia do que foi investigado pela Polícia Federal pra mim. Mandei um assessor meu ler porque eu não tive tempo de ler.”

A investigação tramitava sob segredo de Justiça em Minas Gerais. “Surgem aqui dúvidas éticas e legais”, escreveu a Folha de S. Paulo, adicionando que Bolsonaro “foi além”: determinou que Moro mandasse a PF investigar os supostos esquemas ilícitos nas campanhas de outros partidos também. “Tem que valer para todo mundo, não ficar fazendo pressão em cima do PSL para tentar me atingir”, justificou.

No mesmo escândalo, Moro chocou os defensores da Lava Jato quando escreveu nas redes sociais que “nem a PF e nem o Ministério Público, que atuam com independência, viram algo contra o presidente nesse inquérito” contra o PSL. “Ocorre que o caso está sob sigilo e o ministro não deveria ter informações privilegiadas”, afirmou o Painel da Folha.

O PT chegou a mobilizar o jurídico para investigar Moro. “Ele não pode ter acesso ao processo que está sob sigilo de Justiça. Nós vamos representá-lo por eventual crime de responsabilidade”, disse o então deputado federal Paulo Teixeira.

Moro também mostrou que tinha acesso privilegiado ao inquérito dos hackers que vazaram mensagens de Telegram ao site Intercept Brasil. “Moro telefonou a Noronha [presidente do STJ] para comunicar que ele estava na lista dos alvos do grupo [de hackers] preso na última terça-feira (23) pela Polícia Federal.”

Até o presidente da Associação de Delegados da Polícia Federal (ADPF), Edvandir Paiva, pediu que Moro tivesse maior distanciamento dos trabalhos da corporação.

“Porque várias pessoas passam a questionar se o ministro está obtendo informações de investigação sigilosa e a questionar a autonomia da Polícia Federal, o que é algo muito caro para nós.”

Paiva adicionou que, “em tese, o ministro da Justiça não deveria ter nenhuma informação sobre investigação sigilosa”.

GGN

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