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Desde 31 de março os Estados Unidos registram consistentemente mais de mil mortes por dia.
A diferença é que a tragédia de agora aconteceu em meses e, no Vietnã, a guerra durou mais de uma década e meia.
A dimensão das perdas começa a ser digerida pela opinião pública americana, de tal forma que assessores do presidente Donald Trump decidiram reduzir a participação dele nas entrevistas coletivas que tratam da pandemia.
Os dedos começam, lentamente, a apontar para Trump, cujo slogan é Make America Great Again.
É um slogan incompatível com milhares de mortos e a economia em frangalhos.
Trump passou por várias fases ao longo da pandemia. Inicialmente, quando o número de casos era reduzido, afirmou que talvez por algum milagre o vírus poderia desaparecer do país.
Convencido então por assessores de Saúde a levar o problema a sério, decidiu vestir a “farda” de comandante militar, como se fosse uma guerra. Mas uma guerra com mais de 58 mil mortos é muito custosa — para todos os efeitos, Trump foi derrotado.
O grande trunfo do presidente, esgrimido em todas as ocasiões, foi o fato de que ele baniu cedo os vôos vindos da China — mas um estudo publicado no New York Times mostra que milhares de passageiros originários da China desembarcaram nos Estados Unidos depois da decisão.
Os EUA foram verdadeiramente pegos de surpresa. São um país com intenso tráfego aéreo e conexões aéreas internacionais.
A maior potência do mundo não tinha plano para encarar a pandemia — faltaram máscaras e equipamento de proteção para médicos e enfermeiros, leitos de UTI e respiradores tiveram de ser providenciados de última hora, apesar do problema na China ter começado entre novembro e dezembro.
Há consenso de que os EUA perderam cerca de dois meses em que poderiam ter se preparado.
Por força do poderio econômico e da capacidade de imprimir dólares, o país conseguiu contornar a maior parte dos problemas, mas só depois de uma tragédia.
Milhares de mortes — cerca de 5 mil — foram registradas em casas de repouso para idosos.
Nova York teve outras milhares de mortes suspeitas em casa, de pessoas que nem chegaram a ser testadas.
O governo federal bateu cabeça com os governadores, com Trump usando o púlpito da presidência para tentar vender uma imagem rósea da situação.
Ele empurrou drogas não testadas, como a hidroxicloroquina e a cloroquina e, de maneira absurda, chegou a dizer que raios de luz ou detergentes poderiam ser injetados no pulmão para debelar o vírus.
Sentindo a oportunidade, o Partido Democrata rapidamente acelerou o processo de escolha de seu candidato à Casa Branca, numa ação coordenada nos bastidores pelo ex-presidente Barack Obama.
Na média nacional das pesquisas, Biden aparece hoje com mais de 6% de vantagem sobre Trump e lidera em estados sem os quais o presidente não tem chance de vitória — Flórida e Pensilvânia, por exemplo.
Ao longo do processo, Trump foi bem menos negacionista que seu colega brasileiro Jair Bolsonaro.
É que o público dos Estados Unidos parece muito mais convencido da necessidade do isolamento social e dispõe de uma rede de proteção social muito mais robusta que a brasileira.
Bolsonaro ativamente trabalhou pela chamada “imunidade de rebanho”, ou seja, para que os brasileiros se contaminem rapidamente, em busca de suposta imunidade (há dúvidas se, uma vez infectada, uma pessoa fica de fato imune, mas isto é outro assunto).
O presidente brasileiro fez isso em nome de uma reabertura rápida da economia.
Um dos conselheiros de Bolsonaro, o médico e deputado federal Osmar Terra, previu que a gripe vai matar mais este ano no Rio Grande do Sul do que o coronavírus — para isso acontecer, as mortes por gripe em território gaúcho teriam de se multiplicar por 70 este ano, em relação a 2019.
O resultado é que o Brasil tem produzido cenas muito mais dramáticas que as dos Estados Unidos, com um número muito menor de casos.
Os leitos de UTI estão sob pressão em São Paulo, há fila por eles no Rio e os sistemas de saúde colapsaram ou chegaram perto disso em Manaus, Fortaleza e Recife.
Um hot spot pode estar surgindo em cidades do Sul da Bahia.
Há 5.017 mortes confirmadas no Brasil, mais que as 4.643 da China.
Há fortíssimos indícios de subnotificação em todo o Brasil.
Faltam equipamentos de proteção de qualidade para auxiliares de enfermagem, enfermeiros e médicos.
Os testes continuam reservados para os pacientes em estado grave, impedindo que o Brasil adote a tática da Coreia do Sul — de identificar e isolar os contaminados.
Carreatas de bolsonaristas desafiando o isolamento social foram realizadas praticamente em todos os fins de semana, não só pela reabertura do comércio, mas misturando a pauta da Saúde Pública com ataques ao Congresso e ao Supremo Tribunal Federal.
Contando com forte de injeção de verbas públicas, Bolsonaro controlou o discurso da maioria das redes de TV — com a notável exceção da Globo — e o esquema de disseminação de notícias falsas a serviço do bolsonarismo funcionou a todo vapor, colocando em dúvida o número de mortos e patrocinando falsas curas.
Talvez por isso, a pesquisa mais recente do Datafolha registra que 40% dos homens brasileiros consideram o governo Bolsonaro ótimo ou bom. A taxa despenca entre as mulheres.
Desde que assumiram o poder, Trump e Bolsonaro criaram um clima político que solapa a Ciência e incentiva ataques a vozes discordantes.
Inicialmente, o ponto de coincidência entre ambos era fazer pouco caso do aquecimento global.
Os Estados Unidos, no entanto, demonstraram que tem melhor capacidade institucional de confrontar Trump — o presidente encontra forte resistência em setores da inteligência e das Forças Armadas.
No Brasil, Bolsonaro conquistou para si o bloco militar — ainda mergulhado no anticomunismo da Guerra Fria — para lhe dar sustentação política e teve maior acesso às redes de TV para espalhar a ideia da “gripezinha”.
Para Trump, de repente, a reeleição que era dada como absolutamente certa em novembro, começa a parecer não tão segura.
Ele terá pouco tempo para reabrir a economia com segurança e apresentar resultados concretos que afastem o fantasma do Vietnã sanitário.
No Brasil, com a pandemia algumas semanas atrasada em relação aos Estados Unidos, Bolsonaro corre o risco de ser ser alcançado pelo impacto da mortandade justamente quando a temporada do coronavírus combinar com a das gripes comuns — no inverno, que vem aí, as taxas de disseminação de vírus aumentam por causa da proximidade das pessoas em ambientes fechados.
Viomundo

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