Márcio Santilli
Predominam maus governantes na história do Brasil. Não cabe aqui destrinchar essa frase, mas ela deve refletir a opinião de muita gente. Além das pessoas governantes, em si mesmas, há circunstâncias estruturais, como a herança colonial lusitana, o peso dos donos das terras, o estado cartorial e a ausência de rupturas que dessem clivagem mais afirmativa à nossa identidade política, o que limita o espaço de qualquer governante que queira fazer diferença, tirar o país desse atoleiro histórico.
Mas esta não é uma prerrogativa brasileira e, com a liberdade literária para mais uma generalização, pode-se considerar que as estruturas de poder, por definição e em qualquer lugar, refletem relações de dominação que expressam politicamente, em alguma medida, doenças coletivas de cada sociedade. O que não quer dizer que o(s) poder(es) seja uma mesma coisa já que há evidentes diferenças de avanço civilizatório em cada lugar e entre os lugares.
Todos sabemos que Jair Bolsonaro tem uma imagem péssima na opinião pública mundial. O que ele mesmo sabe, tanto que evita certas agendas internacionais e inventa outras, medíocres, que reduzam a sua exposição a questionamentos. Ele mesmo ofendeu gratuitamente chefes de estado e fez questão de se colocar como amante da tortura e predador ambiental. A ignorância e a truculência, que fizeram dele um mito para um segmento desorientado de brasileiros, conformaram um monstro para a humanidade.
Essa situação, que já estava para lá de vergonhosa, ficou muito pior nas últimas semanas, diante da irresponsabilidade ativa e criminosa do presidente ao boicotar a política de isolamento, a única opção para se enfrentar um vírus para o qual ainda não se dispõe de vacina, conforme orientação da Organização Mundial de Saúde (OMS). De predador e candidato a ditador, ele passou a ser reconhecido como um facínora, capaz de sacrificar milhares de vidas por loucura e interesse político próprio.
Não foi à toa que Bolsonaro foi escolhido pelo conselho editorial do jornal Washington Post como o chefe de estado, em todo o planeta, que vem tendo o pior desempenho no enfrentamento da pandemia do coronavírus, superando negativamente os presidentes do Turcomenistão, Belarus e Nicarágua. “Líderes arriscam vidas minimizando o coronavírus. Bolsonaro é o pior”, afirmou o jornal, em editorial.
Ainda que toleremos o padrão de indigência governamental do Brasil e do mundo, não é fácil ostentar esse título. São 193 os países membros da ONU. Poucos constituem referência a seguir, mas ser o pior entre todos, numa questão sanitária e humanitária, é uma distinção negativa humilhante e inédita. Como Bolsonaro se coloca como aliado incondicional de Donald Trump, o editorial pede que o presidente americano diga ao brasileiro o que ele deve fazer.
Trump está longe de ser um exemplo a ser seguido. No mesmo dia em que soubemos da escolha do Bolsonaro como o pior do mundo, também soubemos que os países que vêm obtendo melhores resultados no combate à epidemia são governados por mulheres.
A resposta mais rápida à pandemia foi a da presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen. Assim que soube da existência de um vírus desconhecido em Wuhan, determinou que todos os que chegassem de lá seriam investigados, antes que a OMS declarasse que o vírus era transmissível entre humanos.
A Islândia, governada pela primeira-ministra Katrín Jakobsdóttir, está oferecendo testes gratuitos para todos e já testou 10% da população. O país registrou 1,7 mil casos e apenas 8 mortos. A Nova Zelândia, liderada por Jacinda Ardern, também se destacou com apenas 9 mortes. Ela determinou testes em massa e tomou a rápida decisão de fechar fronteiras e ordenar o isolamento no início da pandemia.
Na Alemanha, Angela Merkel realizou um grande número de testes, ofereceu milhares de leitos de UTI e equipou seu pessoal de saúde com as proteções necessárias para lidar com a pandemia. O país foi atingido duramente, mas com uma taxa de mortalidade de apenas 1,6%, que na Itália foi de 12%, e na Espanha e no Reino Unido, de 10%.
É claro que a boa governança sanitária não deriva da condição de gênero do governante. Mesmo que Bolsonaro – misógino e homofóbico assumido – não se disponha a reconhecer os méritos dessas governantes, haveria outros exemplos mais bem sucedidos a considerar, já que os Estados Unidos se tornaram o novo epicentro da epidemia devido à reação tardia, errática e vacilante de Trump.
MÁRCIO SANTILLI
Márcio Santilli é filósofo, sócio-fundador do Instituto Socioambiental (ISA). Autor do livro Subvertendo a gramática e outras crônicas socioambientais. Deputado federal pelo PMDB (1983-1987) e presidente da Funai de 1995 a 1996.
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