Bolsonaro foi deputado federal por 28 anos e depois elegeu-se presidente criminalizando políticos e a política. Ele mama na rachadinha do filho; o ministro da Cidadania, Ônix Lorenzoni, jura que só fez caixa dois uma vez na vida; e Osmar Terra não confessa nada, mas, assim como Bolsonaro, quer relaxar o isolamento antes do pico da epidemia, ameaçando as vidas de milhões de pessoas. Fora esses anjinhos, para os bolsonaristas os outros são “bandidos”, inclusive o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que já foi mocinho, e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, o pior de todos.
Bolsonaro veio nessa toada, rindo de suas derrotas e achando que as vitórias vinham de graça até que, na semana passada, tomou a maior de todas as lambadas, ao lhe restarem apenas 70 votos na Câmara para tentar barrar a destinação de uns R$ 100 bilhões do orçamento federal para repor a perda de arrecadação dos estados e municípios e permitir que sigam fazendo o enfrentamento direto à epidemia. O susto não se deu nem pela grana, mas pelos 70 votos, insuficientes para barrar um eventual processo de impeachment.
Bolsonaro foi às ruas, com epidemia e tudo, e recebeu manifestantes golpistas diante do comando militar de Brasília. Mas estava blefado, provocou manifestações contrárias de todos os lados, inclusive uma nota do ministério da Defesa, dizendo o seguinte: “as Forças Armadas trabalham com o propósito de manter a paz e a estabilidade do país, sempre obedientes à Constituição Federal. O momento que se apresenta exige entendimento e esforço de todos os brasileiros”.
Suponho que os generais alocados no Palácio do Planalto, com o chefe da Casa Civil, Walter Braga Netto, à frente devem ter deixado claro ao presidente que, no caso de deposição por via constitucional, não haverá tropa nas ruas para segurar a onda. Tanto que Bolsonaro recuou, dizendo que só apoiou o boicote ao isolamento, mas não golpe. E teria liberado Braga para ir adiante no projeto político da ocasião: a aquisição do “Centrão”.
Entende-se por “Centrão” um mix partidário parlamentar de recorte conservador mas, principalmente, fisiológico, composto pelo PP, PSD, PTB e adjacências. Em princípio, a aquisição é viável, pois esses partidos sempre se dispuseram a sustentar qualquer governo, desde que sejam (cada vez mais) bem aquinhoados com cargos e o controle de verbas.
Ao que parece, as conversas iniciais de Braga e Bolsonaro com Gilberto Kassab (PSD) e Roberto Jefferson (PTB) devem ter fluído bem, tanto que Jefferson sinalizou publicamente, denunciando Fernando Henrique Cardoso de conspirar contra Bolsonaro. O sinal deve ter sido pago, por ambos os lados (“Centrão” e governo). Vejamos as próximas etapas da via crucis presidencial.
Na frente do quartel, Bolsonaro gritou: “não negociaremos nada com ninguém!”. Mas 48 horas depois o “Centrão” passou a valer ouro. Não lhe garantiria a maioria na Câmara, nem com o reforço dos sete governadores que não assinaram a nota dos outros 20 contra a afronta totalitária feita pelo presidente. Mas poderá atenuar o seu atual isolamento e, em tese, somar votos contra eventual processo de cassação.
O preço do “Centrão” é inversamente proporcional à força do presidente. Bolsonaro foi empurrado à mesa num momento de fragilidade, com 70 votos atravessados na garganta, perdendo popularidade e com um “ chega prá lá” dos militares. Pode ser que ele consiga um acordo tipo progressivo, sem dar muito na vista agora, com pagamento a prazo. Mas a carência das partes é muita.
Mas também pode ser que os apoiadores mais radicais fiquem perplexos com a cara dura do Bolsonaro, que jurou uma coisa na praça e, de repente, praticou o oposto. Além disso, o procurador-geral da República, Augusto Aras, pediu e o Supremo Tribunal Federal (STF) instaurou uma investigação sobre os organizadores da manifestação golpista que, inicialmente, não inclui Bolsonaro, mas pinta um círculo de giz em torno dele, podendo vir a ser incluído em caso de reincidência.
O cerco está se fechando. O clima deve estar horrível tanto no Planalto quanto no Alvorada. Dá para sentir, de longe, o cheiro do acirramento da tensão. Quanto tempo? Quanto custa, mesmo, o “Centrão”?
MÁRCIO SANTILLI
Márcio Santilli é filósofo, sócio-fundador do Instituto Socioambiental (ISA). Autor do livro Subvertendo a gramática e outras crônicas socioambientais. Deputado federal pelo PMDB (1983-1987) e presidente da Funai de 1995 a 1996.
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