Fernando Brito
Embora tenham o direito de estarem indignados com o fato de Jair Bolsonaro fazer gato e sapato da disciplina militar, nossos generais não podem reclamar: foram eles que deram asas à cobra que agora os constringe com o poder que tem.
Faz anos – desde o governo Dilma – que Bolsonaro passou a ser “arroz de festa” em todas as solenidades militares que reunissem tropa, especialmente as solenidades de formaturas. De tudo: cadetes, sargentos, aspirantes…
Todas elas foram transformadas em eventos sindicais compulsórios: ali estava o “herói” que defendia melhores soldos, mais franquias e benefícios e, sobretudo, o “mito” que sustentava a ideia de que uma força armada tenha o direito originário de definir os rumos do Brasil.
Ao mesmo tempo, isso se reproduzia nas polícias militares, com a anuência evidente dos comandos, reforçando as sua aproximação com as milícias, que são um ente paralelo, aceito e consentido, em muitas formações policiais.
Muitos oficiais superiores, comandantes – majores, coronéis e generais – assistiram e patrocinaram comícios dentro de seus quartéis, tendo Bolsonaro como candidato, o que ele é, sem intervalos, desde 1988, quando se elegeu pelos votos amealhados com a ameaça de explodir bombas por melhores soldos para os militares.
Não o teriam feito sem a anuência, ainda que por omissão, do comando do Exército.
O Exército Brasileiro está colhendo, nesta crise, os frutos da transgressão que praticou por anos a fio, com objetivos políticos.
Tem a chance de tomar uma posição que possa começar a corrigi-lo, mas não a terá se fizer uma punição à flagrante transgressão de Eduardo Pazuello, mesmo que tenha de aguentar, com cara feia, uma intromissão presidencial para anulá-la.
Comando não pode ser exercido sem cara feia.

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