Se Lula não vetasse, melhor seria nem concorrer à reeleição porque significaria que não dá valor à cadeira que ocupa.

Lula, presidente do Brasil. Foto: Cristiano Mariz /O Globo

Por Leonardo Sakamoto, no Uol

Lula não tem outra alternativa a não ser vetar hoje a redução de penas que beneficiaria líderes civis e militares da tentativa de golpe de Estado no Brasil, a não ser que queira passar para a História como um líder fraco e omisso. Vale lembrar que a intentona ocorreu para impedir que ele governasse. Não só isso: parte do plano incluía matá-lo por envenenamento, como ficou claro no julgamento no STF.

Sancionar uma ajuda a quem planejou executá-lo e roubar seu cargo seria equivalente a um personagem de Nelson Rodrigues gritando a plenos pulmões, nu na Esplanada dos Ministérios: “Perdoa-me! Perdoa-me por me traíres!”.

Lula escolheu o aniversário de três anos dos atos golpistas do 8 de janeiro para o veto. Lembrando que a invasão das sedes dos Três Poderes, em Brasília, foi apenas a cereja do bolo de um processo que começou em 2021, com o ataque ao sistema eleitoral e às instituições, passou por impedir que eleitores de Lula fossem votar, envolveu reuniões entre Jair Bolsonaro e o comando militar para que as Forças Armadas melassem as eleições (o coração do golpe), além de planos de execuções e prisões.

Ao contrário do que vende a extrema direita, o veto de Lula contribui com o processo de pacificação do Brasil. Caso o presidente deixasse passar o PL da Dosimetria, aprovado pelo Congresso Nacional, apenas ajudaria a engravidar o país de novos golpes no futuro diante da certeza de que não se pune crimes contra a democracia. Vide o golpe de 1964 e sua relação com a tentativa de agora.

O veto pode ser derrubado pelo parlamento, fazendo com que a proposta seja analisada pelo Supremo Tribunal Federal. Mas o presidente da República fez a parte que lhe cabe.

A punição aos líderes da tentativa de golpe mostra a consolidação de uma nação que decide, enfim, virar a página de um ciclo de violência política e ameaças constantes à sua soberania popular. No banco dos réus, sentou-se um ex-presidente da República. Ao seu lado, generais e almirante que um dia juraram defender a Constituição e agora respondem por tentar rasgá-la, sem contar um rosários de oficiais e ex-ministros de Estado. O Brasil não assistiu a um mero julgamento, protagonizou um ato cerimonial de sua maioridade democrática.

Atos golpistas do 8 de janeiro de 2023. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A cortina de fumaça que tentam erguer, de que se trata de uma “perseguição política”, não resiste ao mais básico exame de realidade. O que foi condenado não foram ideias, mas ações. Não era a opinião, mas o crime. A liberdade de expressão, direito sagrado de qualquer cidadão, termina onde começa a conspiração para a destruição do próprio Estado Democrático de Direito que a garante. Ninguém pode tramar a deposição de um governo legitimamente eleito, estimular a invasão de sedes dos Três Poderes e incitar cidadãos a se levantarem contra as instituições.

Este foi o ápice de um longo processo de amadurecimento institucional. Por décadas, a história brasileira foi marcada pela leniência com os poderosos de palácio e quartel. A ideia de que “alguns são intocáveis” ecoou desde a Colônia, passou pela Império e se enraizou na República, criando uma cultura de impunidade que alimentou golpes, conchavos e a eterna sensação de que a lei é flexível para quem usa farda ou gravata.

A impunidade diante da última ditadura, semeou entre parte dos militares o delírio de que representam uma espécie de poder moderador, que pode decidir quem governa ou não o país. Tanto que alguns dos réus serviram aos dois projetos golpistas.

A resistência democrática brasileira, construída a duras penas por uma parcela da sociedade que não se curvou ao autoritarismo, exige que as regras do jogo sejam iguais para todos. A normalidade de uma democracia não se mede apenas pela realização de eleições, mas pela certeza de que os perdedores aceitarão o resultado e que os vencedores respeitarão os limites de seu mandato. E, principalmente, que quem quebrar essas regras será responsabilizado.

Não se trata de vingança e não é sobre o passado, mas sobre o futuro que queremos construir. Um país que prende e pune seus golpistas está, finalmente, se tornando adulto. E está dizendo, em alto e bom som, que a democracia não é uma opção, mas a única possibilidade. A maioridade dói. Exige responsabilidade. Mas é o único caminho para seguir em frente.

Se Lula não vetasse, melhor seria nem concorrer à reeleição porque significaria que não dá valor à cadeira que ocupa.

 Publicado originalmente por: DCM

Comentário(s)

-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;

Postagem Anterior Próxima Postagem

ads

ads