A arrogância imperial carrega em si as sementes da própria ruína. O poder que se sustenta apenas pela força revela, com o tempo, sua própria fragilidade

Sayid Marcos Tenório
Especial para Opera Mundi

A narrativa contida na Surata Al-Fil (105: 1-5), conhecida como Surata “O Elefante”, permanece uma das passagens mais simbólicas do Alcorão quando se trata de refletir sobre poder, arrogância e os limites históricos da dominação.

Longe de ser apenas um episódio religioso, a Surata oferece uma chave interpretativa poderosa para compreendermos ciclos de ascensão e declínio de impérios. A mensagem central é simples e contundente: nenhum império é invencível quando se afasta da justiça.

Segundo a tradição islâmica, o governador iemenita Abraha marchou contra a Caaba, em Meca, liderando um exército que incluía elefantes, o imponente instrumento de guerra e símbolo máximo de poder na época.

O presidente dos EUA, Donald Trump, e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, durante recepção diplomática na Casa Branca. (Foto: Daniel Torok / White House)

O presidente dos EUA, Donald Trump, e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, durante recepção diplomática na Casa Branca.
(Foto: Daniel Torok / White House)

A campanha tinha como objetivo impor uma hegemonia religiosa e política sobre a região. O desfecho narrado na Surata é conhecido: milhares de pássaros, os ababil, lançaram pequenas pedras que derrotaram o exército invasor, transformando a aparente superioridade militar em humilhação histórica.

A lição é a de que a arrogância imperial carrega em si as sementes da própria ruína. Essa leitura encontra ressonância direta no presente. O mundo assiste ao desgaste de uma ordem internacional fundada na supremacia de poucos e na subordinação de muitos.

O imperialismo moderno, especialmente aquele articulado em torno dos Estados Unidos, sustenta uma arquitetura de poder que se apoia na coerção, na ameaça e na ideia de poder absoluto.

Porta-aviões nucleares, bases militares espalhadas pelo mundo e tecnologias bélicas de última geração cumprem, em nosso tempo, o papel simbólico daqueles elefantes, que é o de projetar a imagem de uma força que não pode ser questionada.



Lideranças que operam sob a lógica da coerção, da ameaça e da submissão, como o presidente dos EUA, Donald Trump, tornam-se símbolos de um paradigma em crise de uma supremacia que se acredita incontestável.

O império que perde legitimidade perante os povos do mundo inicia um processo de erosão que nenhuma tecnologia bélica é capaz de reverter. O poder que se sustenta apenas pela força revela, com o tempo, sua própria fragilidade.

Nesse contexto de erosão da legitimidade imperial, também se desfaz um dos pilares simbólicos que sustentaram, por décadas, a ordem geopolítica no Oriente Médio com a ideia da invencibilidade militar de Israel.

No entanto, os acontecimentos recentes põem por terra essa percepção. A persistência da resistência palestina, mesmo sob condições extremas, revela que a alardeada supremacia militar de Israel não se converte automaticamente em vitória política ou legitimidade moral duradoura.

Movimentos de resistência, entre eles o Hamas, demonstram que a história não se encerra na assimetria das armas, mas se prolonga na resiliência dos povos que se recusam a desaparecer.

Esse processo também se conecta à emergência de novos polos de poder que desafiam a lógica unipolar estabelecida após o fim da Guerra Fria, na qual a República Islâmica do Irã ocupa lugar central nessa transformação.

Herdeira de uma longa tradição civilizacional persa, marcada por milênios de resistência a invasões e dominação externa, a República Islâmica tornou-se um ator regional cuja relevância transcende o campo militar.

Sua trajetória recente reflete a capacidade histórica de adaptação estratégica diante de sanções, isolamento e pressões diplomáticas, evidenciando que soberania não se sustenta apenas por força bélica, mas por coesão interna, memória histórica e projeto político nacional.

Assim como na narrativa evocada pela Surata “O Elefante”, o que está em jogo não é apenas a capacidade de vencer batalhas, mas a legitimidade de sustentar projetos de poder ao longo do tempo, porque impérios frequentemente confundem superioridade tecnológica com permanência histórica.

Os “pássaros” da narrativa corânica podem ser compreendidos como metáforas das forças históricas que desafiam hegemonias injustas, a consciência internacional, os movimentos populares, o direito dos povos à autodeterminação, a emergência de novas configurações multipolares e a persistência das memórias coletivas que se recusam a ser apagadas. 

A Surata “O Elefante” permanece, assim, como espelho e advertência. Lembra que a história não pertence aos impérios nem a figuras repugnantes, como Donald Trump e Benjamin Natanyahu, que se julgam eternos, mas aos povos que persistem. 

Quando a legitimidade se desfaz, o poder descobre seus limites. E é nesse ponto que a memória coletiva retoma a palavra, transformando resistência em horizonte e justiça em destino possível.

(*) Sayid Marcos Tenório é Historiador e Especialista em Relações Internacionais. É fundador e vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal). Autor do livro Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência.

 Publicado originalmente por: Opera Mundi

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