Donald Trump é um presidente descontrolado, que ameaça aliados históricos e coloca em risco a própria condição imperial dos EUA
A história cobrará um preço alto pelo que estamos vivendo nestes tempos nebulosos. Os Estados Unidos, pela segunda vez, colocaram Donald Trump no poder e, com isso, abriram literalmente a porteira para as aberrações de sua autoridade política.
Vingativo e agora munido de ainda mais força institucional – graças à maioria no Congresso norte-americano – Trump passou a agir de forma explícita para punir inimigos e todos aqueles que, de algum modo, dificultaram suas ações em seu primeiro mandato. O que se vê é um presidente descontrolado, que ameaça aliados históricos e coloca em risco a própria condição imperial dos EUA.
Trumpinho, o “superpoderoso”, tem demonstrado na prática que instituições multilaterais como a ONU, a OMC, a UNESCO, entre outras, são frágeis e incapazes de reagir de maneira efetiva às ações unilaterais de grandes potências. Sua postura evidencia que a ONU sempre funcionou como um espaço onde cinco países – Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido – detêm o poder real por meio do veto. Trump, no entanto, deixou claro que já não quer mais “brincar” desse jogo. Antes dele, Vladimir Putin já havia exposto essa fragilidade, sinalizando que também não aceitava mais as regras desse arranjo.

O que se anuncia, portanto, é o esgotamento do multilateralismo tal como o conhecemos e a ascensão de ações unilaterais ou de blocos regionais de poder. As estruturas econômicas do mundo globalizado apontam nessa direção, e o exemplo mais relevante hoje são os BRICS – uma aliança intergovernamental formada por países de mercados emergentes, liderada por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, hoje ampliada para mais países.
O modelo dos blocos econômicos passa a ser aplicado também à política, à defesa e à disputa por territórios e influência, possivelmente substituindo instituições multilaterais clássicas. Organismos como a ONU e suas agências (UNICEF, UNESCO, OMS), além de instituições como FMI, Banco Mundial, OMC e OEA – criadas para lidar coletivamente com problemas globais – parecem caminhar para a irrelevância ou para uma profunda transformação.
As investidas de Trump contra a soberania da Venezuela, suas ameaças envolvendo a Groenlândia e a Faixa de Gaza, os tarifaços impostos ao mundo capitalista e a criação de um “Conselho da Paz” restrito a aliados da extrema direita enviam um recado claro: ele quer ser dono da “zorra toda”, ou ao menos da parte do mundo que o poder bélico e econômico dos EUA ainda consegue alcançar.
Mas o tabuleiro não está vazio. Do outro lado, China e Rússia seguem como atores centrais, atentos a cada movimento – longe de estarem “sentados no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar”, como cantou Raul Seixas. Ambos observam, calculam e se movem.
Essa iniciativa de Trumpinho “superpoderoso”, ao brincar perigosamente de “dono do mundo”, remete diretamente à crítica magistral de Charles Chaplin a Hitler na cena icônica de O Grande Ditador (1940), em que o globo terrestre simboliza a megalomania e a obsessão pelo poder absoluto. Trump não é o primeiro – nem será o último – a desejar tudo para si. Mas sua postura reforça a percepção de que um novo mundo está em gestação, mesmo que os Estados Unidos já não sejam mais o protagonista central dessa realidade em curso. Paradoxalmente, o próprio Trump simboliza a decadência da potência que governa, talvez prestes a passar o bastão para outra superpotência e inaugurar uma nova era histórica.
Quem ocupará esse lugar – e de que forma – ainda é uma incógnita. O Brasil, no entanto, deve seguir fortalecendo os BRICS, aprofundando relações com a América Latina e com o continente africano. Caminhar nesse quadrante pode nos aproximar daqueles que darão as cartas nos próximos cem ou duzentos anos – seja na continuidade do capitalismo, seja na construção de um modelo político-econômico menos excludente e mais humano.
A história, como sempre, ditará os rumos. A nós, resta tentar viver, resistir e compreender as mudanças em curso. Sigamos!
Ivandilson Miranda Silva é doutor em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Professor. E-mail: ivanvisk@gmail.com
Publicado originalmente por: Le Monde Diplomatique
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