No ensaio de tom existencial, em diálogo com fotografias de Leonardo Finotti, autor escreve sobre o trabalho do arquiteto Gustavo Penna e apresenta o Memorial Brumadinho como um raro espaço de reflexão coletiva no país

A experiência do luto coletivo coloca em evidência a necessidade de construir formas de memória que resistam ao tempo e ao esquecimento. É nesse horizonte que se insere Brumadinho: Espaços e tempo da memória (Cultura Acadêmica), com texto de Milton Hatoum, projeto arquitetônico de Gustavo Penna e fotografias de Leonardo Finotti. O lançamento do selo da Fundação Editora Unesp (FEU), em parceria com a KPMO Cultura e Arte, apresenta ao público o Memorial Brumadinho como um espaço de lembrança, reflexão e compromisso ético. A edição é bilíngue, em português e inglês.

Um evento na Livraria Eiffel (Praça da República, 183 — São Paulo / SP), com a presença de Milton Hatoum e Gustavo Penna, vai celebrar o lançamento, no dia 9 de maio (sábado), às 11h.

Concebido para honrar a memória das 272 vítimas do rompimento da barragem Córrego do Feijão, ocorrido em 25 de janeiro de 2019, em Minas Gerais, o memorial se estrutura como um percurso simbólico que articula espaço e tempo. A obra revela como a arquitetura pode operar não como monumento estático, mas como experiência sensível, capaz de acolher o luto e transformá-lo em um processo coletivo de contemplação e reflexão. “O que seria da vida sem a memória, sempre presente em nossos pensamentos, sonhos, conversas?”, pergunta-se Hatoum, no livro. “Há a memória do tato, dos sons, do olhar, da voz, do odor, de um gesto, de uma dor. De palavras e imagens, de sentimentos bons e ruins. De sonhos narrados por alguém que já viajou ao outro lado do espelho.”

Ao refletir sobre a presença constante da memória na experiência humana, o escritor amplia o alcance da obra para além do registro da tragédia, inscrevendo-a em uma dimensão mais profunda, que envolve percepção, linguagem e tempo. Seu texto aproxima arquitetura e literatura e amplia a leitura do espaço construído como suporte de permanência e testemunho. Ao dialogar com as imagens de Leonardo Finotti, a narrativa captura a materialidade e a atmosfera do memorial, que organiza o espaço como um percurso de aproximação entre o visitante e as histórias interrompidas. “A inauguração do Memorial traz essa lembrança do âmbito doméstico para uma praça de vigília coletiva. Não é substituição, é passagem: a memória íntima se reconhece na dor da comunidade, e as recordações de cada um sobre o dia fatídico aprendem a dialogar com as lembranças de todos”, escreve o autor.

A dimensão arquitetônica é apresentada por meio do projeto do escritório Gustavo Penna Arquitetos Associados (GPAA), concebido em diálogo direto com o lugar e com as famílias das vítimas — cujas vozes também estão presentes no livro com depoimentos da Avabrum (Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão) e da Fundação Memorial de Brumadinho, instituição responsável pela gestão do espaço. Croquis e desenhos originais revelam o percurso conceitual e evidenciam uma arquitetura que se afirma como espaço de presença, escuta e elaboração coletiva da memória. “Gustavo Penna não optou por um projeto grandioso, colossal. O edifício do Memorial tem uma dimensão exata; a implantação do volume horizontal integra-se com leveza e equilíbrio à paisagem do entorno”, descreve Hatoum.

 Publicado originalmente por: PUBLISHNEWS

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