Operação em curso no Palácio do Buriti tenta deslocar governadora da chapa na qual foi eleita com Ibaneis

Há pouco mais de um mês no Palácio do Buriti, Celina Leão (PP) tem dedicado boa parte de sua energia política a uma tarefa muito específica: convencer o eleitor de Brasília de que o seu governo não é o governo de Ibaneis Rocha. A operação é abrangente, coordenada e cuidadosamente coreografada.
Em apenas algumas semanas, a governadora trocou figuras-chave do primeiro escalão, anunciou uma série de medidas de impacto simbólico, intensificou agendas territoriais com o “GDF na Sua Porta” e, mais recentemente, promoveu até um rebranding da identidade visual do GDF abandonando o azul e amarelo que acompanharam Ibaneis durante sete anos e meio em favor de uma combinação de azul e lilás. Mudou o cabeçalho do governo, no sentido literal e figurado.
A imagem mais precisa para descrever essa estratégia tem quase setenta anos e veio da Sicília. Em Il Gattopardo (1958), romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa publicado postumamente e traduzido no Brasil como O Leopardo, o jovem Tancredi diz a seu tio, o príncipe Fabrizio de Salina, uma das frases mais citadas da literatura política do século 20: “se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi” — “se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”.
Ambientado na Sicília de 1860, em meio à unificação italiana liderada por Garibaldi, o livro narra a habilidade das elites aristocráticas em sobreviver à revolução fingindo abraçá-la: trocando lealdades, vestindo as cores do novo regime, casando filhos com a burguesia ascendente, tudo para manter, no essencial, o mesmo arranjo de privilégios.
A frase ganhou ainda mais força com a adaptação cinematográfica de Luchino Visconti, em 1963, e se sedimentou no vocabulário da ciência política sob o nome de “transformismo”: o gesto pelo qual um ator político se reposiciona na superfície justamente para preservar continuidade material. É exatamente a operação que está em curso, hoje, no Palácio do Buriti.
A lista de gestos de descolamento é longa e diz muito sobre o que a governadora reconhece como passivo político. Dos R$ 25 milhões originalmente reservados para a festa dos 66 anos de Brasília, parte foi remanejada para a contratação de médicos da atenção básica. Na Secretaria de Economia, entrou Valdivino Oliveira, ex-secretário da era Roriz e oriundo da prefeitura de Goiânia, que estreou no cargo com críticas explícitas à situação fiscal herdada. No BRB, foram afastados doze diretores ligados a ele que participaram das negociações com o Banco Master, operação que pode custar até R$ 5 bilhões aos cofres do banco público. Reportagens da CNN Brasil apontam que Celina tem, inclusive, evitado ligações de seu padrinho político, num gesto que beira o constrangimento institucional.
Tudo isso compõe uma narrativa pública bem definida: a de que existem dois governos, o de antes e o de agora, e que o primeiro pertence a outra pessoa. Há um problema, porém, que nenhum rebranding consegue dissolver: vice-governador não é cargo decorativo.
Celina Leão não foi nomeada por Ibaneis para um posto de confiança em uma pasta setorial; foi eleita junto com ele, em chapa única, no primeiro turno de 2022. Aquele voto não foi um voto em Ibaneis pessoa física com uma figurante ao lado, foi um voto num projeto político, numa coalizão e num programa de governo que os dois apresentaram juntos ao eleitor do DF. A vice-governadora é, na arquitetura constitucional brasileira, uma figura que partilha o mandato e o sustenta politicamente.
Não há, portanto, como ela hoje se descolar do balanço integral daquela gestão sem rasgar o próprio título que a colocou no Buriti. E essa não é uma cláusula formal apenas: Celina ocupou pastas estratégicas, Esporte e, depois, Mulher, costurou as alianças que sustentam sua base hoje e foi vice de fato, atuante, do começo ao fim do governo Ibaneis. A própria base aliada na Câmara Legislativa permanece, em larga medida, intacta sob seu comando.
Daí decorre o ponto que precisa ser dito sem rodeios: Celina é politicamente responsável por tudo o que se passou no governo Ibaneis Rocha entre janeiro de 2023 e março de 2026. Pelo bom e pelo ruim, pelas obras e pelos escândalos, pelo cotidiano da gestão e pelas decisões estratégicas, inclusive aquelas tomadas em torno do BRB. Essa responsabilidade não é figura de retórica; é um princípio elementar do regime representativo, em que mandatos eleitos em chapa implicam prestação de contas conjunta. Não existe vice-governadora “parcial”, que adere às entregas eleitoralmente úteis e se demite das decisões eleitoralmente custosas. O eleitor do DF não votou nessa modalidade.
Se a governadora discordava dos rumos da gestão da qual fez parte por mais de sete anos, tinha caminhos republicanos claros à disposição. O primeiro deles era a dissidência pública: manifestar publicamente seu desacordo, registrar sua posição, fazer pronunciamentos, entregar o cargo de secretária quando ocupava pastas no governo ou, no limite, renunciar à vice-governadoria. Nada disso aconteceu.
Ao longo de toda a gestão Ibaneis, incluindo o período em que se desenrolaram as tratativas entre o BRB e o Banco Master, hoje sob investigação da Polícia Federal e em iminente delação por parte do ex-presidente do BRB, Celina Leão foi figura ostensivamente alinhada, presente nas solenidades, nas fotos oficiais e nos atos do governo. Apoiou o socorro ao BRB. Não sinalizou, em momento algum, divergência ao público.
O segundo caminho era a denúncia formal. Se a então vice-governadora soubesse, à época, de qualquer irregularidade na condução do governo do qual fazia parte, e há, hoje, indícios públicos robustos de que essas irregularidades existiram, tinha o dever institucional de levar a informação ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, ao Tribunal de Contas do DF, à Polícia Federal ou a qualquer outra autoridade competente. Tampouco isso ocorreu. Não há registro de denúncia, representação ou comunicação formal feita por Celina a qualquer órgão de controle a respeito de qualquer ato da gestão Ibaneis. O silêncio, nessa matéria, não é neutro: é uma posição política.
Resta a alegação que ela própria fez no discurso de posse, segundo a qual não teria sido consultada nem participado das decisões em torno do BRB. Mesmo que se aceite a afirmação como verdadeira, e essa aceitação exige uma generosidade considerável, ela é, em si, uma admissão devastadora. Ou Celina foi uma vice-governadora que aceitou conviver, sem perguntar nada, com decisões bilionárias envolvendo o banco público controlado pelo seu próprio governo, hipótese em que a omissão é ela mesma um problema político de primeira grandeza; ou estava, sim, informada, e está agora reescrevendo o passado para acomodar os custos eleitorais do presente. Não há terceira via que preserve, simultaneamente, a tese da nova governadora “firme e em controle” e a tese da vice “alheia ao que ocorria ao seu lado”. Uma derruba a outra.
A estratégia de Celina, portanto, não é de ruptura, mas de gestão simbólica de uma continuidade que se tornou desconfortável.
É o transformismo gattopardiano em sua forma mais didática. Trocam-se cores, trocam-se nomes, trocam-se discursos, mas o arranjo de poder que sustentou Ibaneis durante quase oito anos, a aliança entre PP, MDB, PL, União Brasil e Republicanos, somada ao alinhamento com o bolsonarismo distrital de Damares Alves e Bia Kicis, segue inteiro. A governadora quer dois eleitorados ao mesmo tempo: o que aprovou a gestão Ibaneis e o que se cansou dela. Para o primeiro, a mensagem é “mais do mesmo, com obras e estabilidade”; para o segundo, “uma nova cara, sensível e moderna”. O lilás, nesse cálculo, faz mais trabalho político do que parece.
Esta estratégia tem, contudo, um limite estrutural, e ele tende a ficar mais visível à medida que se aproximam outubro de 2026 e o eventual avanço das delações no caso BRB–Master. O ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, já sinalizou interesse em delatar a partir do STF, e a Polícia Federal apura transações entre o escritório de advocacia de Ibaneis e fundos do ecossistema do Master. Se essa apuração avançar, ficará difícil para Celina manter a ficção dos “dois governos”. A linha do tempo não permite: ela foi vice-governadora durante todo o período investigado, integrante do primeiro escalão da gestão que aprovou no Distrito Federal a operação de socorro ao banco. Não dá para ser, ao mesmo tempo, parte da história e estranha a ela.
O que está em jogo, portanto, é menos uma reinvenção administrativa do que uma operação de marketing eleitoral. O eleitorado do DF, e em particular o eleitorado popular, que sustenta a maior parte do território da capital, precisa fazer a pergunta certa: o que mudou de fato no projeto político em curso? A resposta, até aqui, é: a embalagem. A coalizão é a mesma. As alianças são as mesmas. A engenharia financeira em torno do BRB é a mesma. As obras paradas são as mesmas. E a aposta de Celina é exatamente essa: mudar tudo, para que, no essencial, nada mude.
Cabe à oposição, à imprensa e à sociedade civil organizada não comprar o pacote da Leoa que se descobriu Leopardo.
*Gabriel Elias é doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB).
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato DF.
Apoie a comunicação popular no DF:
Faça uma contribuição via Pix e ajude a manter o jornalismo regional independente. Doe para dfbrasildefato@gmail.com
Siga nosso perfil no Instagram e fique por dentro das notícias da região.
Entre em nosso canal no Whatsapp e acompanhe as atualizações.
Faça uma sugestão de reportagem sobre o Distrito Federal, por meio do número de Whatsapp do BdF DF: 61 98304-0102
Publicado originalmente por: Brasil de Fato
Postar um comentário
-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;