Lula e o PT têm agora uma bala de prata: resgatar a mística da militância e recolocar o asfalto no centro da política.

O presidente Lula (PT) sofreu na quarta-feira (29) uma derrota histórica no Senado, com a rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF), por 42 votos a 34. A votação mostrou que o governo já não resolve seu problema central apenas com jantar, articulação de gabinete e aceno à Faria Lima.
A indicação precisava de ao menos 41 votos favoráveis entre os 81 senadores. Messias havia passado antes pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), mas caiu no plenário, em uma derrota classificada como a primeira rejeição de um indicado presidencial ao STF em mais de um século.
A conta é simples e brutal.
O governo ganhou a sabatina, perdeu o Senado e acordou com uma pergunta que não cabe mais no cafezinho dos líderes: onde está o povo organizado que levou Lula de volta ao Planalto?
A derrota de Messias pode ser pedagógica se o Planalto entender o recado. O problema não é só a correlação de forças no Congresso. O problema é a falta de pressão social capaz de alterar o custo político das derrotas impostas ao governo.
Lula e o PT têm agora uma bala de prata: resgatar a mística da militância e recolocar o asfalto no centro da política.
Isso não significa trocar governo por comício. Significa governar menos ajoelhado diante dos humores da Faria Lima e mais apoiado na força real que elegeu Lula em 2022: trabalhadores, movimentos populares, sindicatos, estudantes, mulheres, juventude periférica e setores democráticos que sabem o preço de entregar o país aos donos do dinheiro.
A derrota no Senado não nasceu isolada.
A indicação de Messias enfrentou resistência da oposição bolsonarista e de aliados do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que preferia outro nome para a vaga aberta com a saída de Luís Roberto Barroso.
O placar também expôs o limite de uma aposta antiga do presidencialismo brasileiro: tentar comprar estabilidade política com concessões a grupos que nunca aceitaram, de fato, o programa eleito nas urnas.
O Congresso deve analisar na quinta-feira (30) o veto de Lula ao chamado projeto da dosimetria das penas, que pode aliviar punições ligadas aos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. A disputa virou novo teste de força entre governo, Centrão e bolsonarismo.
A sequência é didática.
Nesta quarta-feira (29), o Senado barrou Messias. Na quinta, o Congresso pode afrontar Lula no tema dos condenados pelo 8 de janeiro. Na sexta-feira (1º), o país terá atos do Dia do Trabalhador, com a pauta do fim da escala 6×1 no centro da mobilização sindical.
O calendário entregou ao governo uma chance rara.
O 1º de Maio pode virar a chave se Lula compreender que a defesa da democracia não mobiliza sozinha quando o trabalhador está endividado, cansado, preso à escala 6×1 e esmagado por juros altos.
A democracia precisa aparecer no preço do arroz, na jornada de trabalho, no crédito barato, na aposentadoria protegida, no salário que chega ao fim do mês e no direito de viver fora da lógica do banco.
É fantasia acreditar que os oligarcas do sistema financeiro e da velha mídia corporativa se emocionam com a democracia como valor público. Para eles, democracia costuma valer enquanto não ameaça rentabilidade, juros, controle da narrativa e poder de chantagem sobre qualquer governo popular.
O lema desse bloco dos ricaços é outro: dinheiro primeiro.
Por isso, a derrota de Messias deixa uma lição incômoda para o lulismo. Não há governabilidade progressista duradoura quando o povo assiste às derrotas pela televisão e os derrotadores seguem blindados em gabinetes, editoriais e mesas de mercado.
O Planalto tentou aprovar Messias com conversa institucional. Perdeu.
Agora precisa decidir se continuará acumulando derrotas em ambientes onde a direita, o Centrão e os interesses financeiros jogam em casa, ou se reconstruirá pressão democrática fora deles.
A rua não substitui o Senado. A rua muda o ambiente do Senado.
Quando o povo ocupa o debate público, o parlamentar calcula diferente. Quando sindicatos, movimentos e bases sociais ficam dispersos, a conta do Congresso é feita apenas com emenda, cargo, medo eleitoral e pressão empresarial.
O governo Lula ainda tem entregas para mostrar. O problema é que entrega sem mobilização vira peça de propaganda. Mobilização sem entrega vira nostalgia. A saída política exige as duas coisas juntas.
O 1º de Maio de sexta-feira precisa ser lido nesse contexto. As centrais sindicais já colocaram o fim da escala 6×1 como bandeira principal dos atos descentralizados pelo país, enquanto o governo tenta associar a data à renegociação de dívidas e à jornada de trabalho.
Se Lula transformar a data em pronunciamento burocrático, perderá uma oportunidade.
Se transformar a data em chamado nacional, poderá reorganizar a defensiva e devolver ao campo democrático uma palavra de ordem compreensível: todos às ruas.
A derrota de Jorge Messias no Senado não encerra apenas uma indicação ao STF. Ela abre uma cobrança sobre o método político do governo.
Com a Faria Lima, Lula negocia. Com o povo, Lula governa.
A diferença entre uma coisa e outra pode definir se o Planalto continuará empilhando derrotas nos gabinetes ou se retomará a iniciativa política no país.
Povo na rua é o remédio democrático contra a chantagem permanente dos donos do dinheiro. Sem isso, o governo corre o risco de ver a derrota de Messias virar apenas a primeira de uma fila.
Publicado originalmente por: Blog do Esmael
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