Apesar do desempenho medíocre, muitos emocionaram-se com sua convocação. Ele encarna a rendição do futebol ao negócio — e submete a nostalgia do futebol-arte à lógica das redes. Agora, os cortes de dribles, muito bem patrocinados, valem mais do que a realidade

Imagem: Reprodução/X – @Santosfc

A convocação do atacante Neymar para a seleção brasileira que irá disputar a Copa do Mundo de 2026 colocou em lados opostos dois grandes grupos. De um lado, experts em futebol, jornalistas especializados e pessoas progressistas criticando o que seria uma rendição do técnico Carlo Ancelotti a uma pressão comercial pela convocação do atacante; e de outro, uma significativa massa de pessoas nas ruas, torcedoras ou não do Santos FC, que celebraram a convocação e também muitos jogadores da própria seleção que admiram o atacante.

As críticas a Neymar são procedentes. De fato, já de há muito tempo o atacante caiu muito de produção, não tem demonstrado grande rendimento em campo; não só no limitadíssimo time do Santos FC, mas também quando estava no PSG e depois no Al-Hilal, da Arábia, a ponto de ser barrado pelo técnico Jorge Jesus. O seu descompromisso com a preparação física tem levado o jogador a ter constantes contusões, algo temeroso quando se fala em uma competição intensa e de alto nível como o campeonato mundial de futebol.

Do ponto de vista do seu comportamento pessoal, as críticas também são pertinentes. O jogador já manifestou por diversas vezes suas preferências políticas em favor da extrema-direita; comportamentos extracampo antiéticos (como foi o caso da agressão ao jogador Robinho Jr. em um treino do Santos FC), propagandeia de forma intensa o esquema de apostas on-line que vem causando danos graves principalmente aos jovens, além do exibicionismo em consumo de alto padrão. Agregue-se a isso as negociatas pouco transparentes do seu staff com a diretoria do Santos FC, que transformou o clube praiano em um verdadeiro “protetorado” seu. Comportamentos típicos de playboy exibicionista com fortes traços egóicos e descomprometidos com a sociedade.

Assim, não é de se estranhar que entendidos de futebol se juntem a personalidades do campo progressista para criticar a convocação de Neymar. Em determinados momentos, observa-se em alguns comentários uma certa síndrome de vira-lata quando falam que se “decepcionaram” com o técnico Carlo Ancelotti por, supostamente, ter se “dobrado a exigências da CBF” para ter convocado o jogador do Santos FC. Como se, pelo fato de o técnico da seleção brasileira ser um italiano e oriundo da “meca do futebol de primeiro mundo”, a Europa, ter necessariamente um comportamento rigorosamente racional. Para o campo progressista, o comportamento ético e político de Neymar incomoda e muito, pois é muito distante do que se espera de uma celebridade.

E as significativas manifestações de apoio?

No dia 28 de abril deste ano, o Santos jogou com o San Lorenzo, em Buenos Aires, pela Copa Sul-Americana. Impressionou a acolhida de torcedores argentinos por Neymar. Muitos vieram de fora da cidade de Buenos Aires só para ver Neymar jogar (mesmo ele jogando muito abaixo do que se espera). Ao final da partida, o jogador do time brasileiro foi ovacionado por torcedores argentinos.

No dia da convocação da seleção brasileira, uma torcida presente comemorou ruidosamente a convocação de Neymar. Reportagens da televisão e pesquisas feitas por institutos mostraram o apoio da maioria à convocação do jogador. E tudo isso com o atacante tendo uma atuação fraca no time do Santos — inclusive com muitas ausências — e pouco ajudando a sua equipe a sair das últimas posições do Campeonato Brasileiro.

Seria, então, esta parte significativa da população brasileira indiferente tanto à qualidade do futebol jogado atualmente pelo atacante santista como às suas posturas pessoais? Estaríamos vivendo uma crise de valores éticos na qual o que vale é mais as imagens construídas do que as práticas?

É fato que Neymar é um caso bem-sucedido de articulação da imagem de celebridade com isto que se chama de geração Z (pessoas nascidas entre 1997 e 2010), cuja sociabilidade se dá na decadência das instituições mediadoras clássicas (escola, jornalismo, instituições partidárias) e a emergência das mediações digitais, tendo como panorama o neoliberalismo — não apenas como modelo econômico, mas como nova racionalidade governamental.

O sucesso nesta articulação tem quatro elementos. O primeiro é a mobilização do sentimento passadista do “futebol-arte” (os defensores da sua convocação falam que é o nosso único “craque”) que Neymar mobiliza por conta do talento demonstrado no início da sua carreira. Tanto é que ele ainda tenta mimetizar aquele momento com alguns dribles, jogadas de efeito, que não têm o mesmo sucesso por conta dele não ter mais a mesma juventude de antes, mas que é justificada por muitos por conta dos seus companheiros de equipe atual serem claramente limitados tecnicamente (viralizou um comentário dele quando, diante do fracasso de uma jogada armada por ele, chamou os atacantes do Santos de “bando de burros”).

Assim, diante de um jejum de mais de 24 anos sem título mundial, torcedores brasileiros sentem saudades do futebol de dribles e jogadas de efeito que marcaram a seleção brasileira nos anos 1970 — e Neymar se apresenta como um “redentor” deste modelo. Este é o significado de muitos o considerarem o “único craque”.

O segundo elemento é a postura egóica de Neymar — criticar os companheiros, exibicionismo, fazer negociatas antiéticas, divulgar o criticadíssimo sistema de apostas on-line — que dá a ideia não de irreverência, mas de desobediência a qualquer regra ou norma. Na nova razão do mundo neoliberal, o que importa é vencer (o exibicionismo da sua fortuna é o símbolo desta vitória) sem qualquer norma (o liberalismo absoluto do capital hoje que defende o fim de qualquer regramento social). Na lógica neoliberal, a desobediência a uma norma para atingir o objetivo pessoal é vista como “risco de investimento”. Assim, Neymar se mostra como um caso de sucesso.

Terceiro: em uma sociedade marcada pela fugacidade e imediatismo, fazer um drible ou uma jogada de efeito por alguns segundos é mais importante que o resultado da partida. Nas redes sociais, os seus eventuais dribles cabem perfeitamente, não uma partida completa de quase duas horas de futebol.

Finalmente, o quarto elemento é que, na lógica das celebridades da sociedade digital, a aproximação dos comportamentos com os fãs é fundamental. Não se trata mais dos “olimpianos” de Edgar Morin em que os ídolos exerciam a sua autoridade pelo distanciamento do mundo real (daí a referência ao Olimpo). Estar presente constantemente na terra dos mortais é a regra. Neymar aparece jogando em games online, suas dancinhas comemorativas são típicas do TikTok. Até estar em uma equipe cuja sede é uma cidade menor (Santos) favorece esta proximidade.

Assim, entender o fenômeno Neymar exige uma reflexão que vai além de uma crítica pessoal a comportamentos seus ou de seus apoiadores. Transcende o futebol, implica em entender a crise atual da sociabilidade humana do capitalismo neoliberal.

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 Publicado originalmente por: OUTRAS PALAVRAS

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