Documentos apontam que instituto contratado por R$ 108 milhões previa fornecer contatos de cidadãos para disparos em massa

Os dados pessoais de cidadãos que utilizam o programa de internet gratuita Wi-Fi Livre SP, da Prefeitura de São Paulo, são alvo de suspeita de vazamento e uso ilegal para campanhas de mensagens em massa. Documentos obtidos pelo veículo The Intercept Brasil revelam que o Instituto Conhecer Brasil (ICB) — organização que assinou contrato de R$ 108 milhões com a gestão Ricardo Nunes (MDB) — firmou um acordo paralelo para fornecer os contatos telefônicos dos usuários a uma empresa de marketing digital.
O caso ganha contornos políticos devido ao perfil da entidade. O ICB é presidido por Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go Up Entertainment e produtora executiva de “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL). A ONG venceu a licitação municipal em junho de 2024 sem registrar nenhuma experiência anterior no setor de telecomunicações.
Desvio de finalidade e contrato paralelo
Para acessar a rede de Wi-Fi público na capital paulista, o cidadão é obrigado a cadastrar o número do seu telefone celular. Logo após garantir o contrato milionário com a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (Smit), o instituto da produtora de “Dark Horse” subcontratou a empresa Talk Communications por R$ 2,7 milhões.
O objetivo da contratação era realizar 12 campanhas de marketing via WhatsApp e SMS para promover o próprio programa de internet. No documento da parceria terceirizada, o ICB comprometeu-se formalmente a “fornecer os contatos” dos usuários para viabilizar os disparos.
A estratégia previa um volume estimado em 675,5 mil mensagens por campanha, totalizando 8,1 milhões de disparos — patamar próximo ao total de 11,4 milhões de moradores da cidade. A legislação eleitoral e resoluções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vedam o uso de disparos em massa sem autorização expressa do destinatário. Como o serviço ocorreu durante o ano eleitoral de 2024, a ação serviu para inflar a publicidade da gestão de Nunes, que disputava a reeleição.
Alertas de ilegalidade e violação da LGPD
Especialistas em direito digital afirmam ao Intercept que o compartilhamento de dados cadastrais sem o consentimento dos usuários viola frontalmente a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o Marco Civil da Internet. Quem se conecta ao sinal público em praças e postos de saúde não recebe avisos nem termos de consentimento sobre o uso de suas informações para fins promocionais.
A advogada Flávia Lefèvre, especialista em direitos digitais e telecomunicações e membro do Conselho do Instituto Nupef, analisou os documentos e apontou a gravidade das cláusulas.
“É muito grave. É a prefeitura contratando uma empresa para fazer conexão à internet de forma gratuita, mas, na realidade, ao que tudo indica, para coletar dados de forma ilegal. Ainda há grande possibilidade de estar também violando a lei eleitoral no que diz respeito aos processos de propaganda eleitoral“, explicou Lefèvre.
A advogada ressalta ainda o desvio de finalidade em relação ao dinheiro público investido.
“É evidente que o objeto do contrato com a Talk não tem nada a ver com o objeto do edital, que é para instalar pontos para fazer conexão de Wi-Fi. Essa questão de marketing digital via WhatsApp é totalmente fora do escopo do contrato e é proibido pelo próprio contrato“, acrescentou.
O repasse de dados telefônicos não se limitou à Talk Communications. A ONG da produtora do filme de Bolsonaro também contratou, por R$ 5 milhões, o instituto Orbis para pesquisas de satisfação, repetindo a exigência contratual de partilhar a lista de contatos dos cidadãos conectados.
Investigação policial e repasses antecipados
O contrato do Wi-Fi Livre SP já é alvo de apuração criminal. No dia 1º de junho, a Polícia Civil deflagrou uma operação contra o ICB por suspeita de fraude na execução do programa. Os investigadores buscam descobrir se parte das verbas do contrato de R$ 108 milhões da prefeitura foi desviada para financiar a produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro.
A suspeita sobre o financiamento do longa-metragem cresceu após o Intercept revelar que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) negociou R$ 134 milhões com o Banco Master para custear a obra.
Auditorias nos repasses financeiros também indicam que a prefeitura alterou o cronograma original para inflar o número de pontos de internet durante o período eleitoral. O plano inicial previa o início das instalações apenas para janeiro de 2025, mas o ritmo foi acelerado e chegou a 1.605 pontos ativos às vésperas do segundo turno das eleições.
Após a vitória de Ricardo Nunes nas urnas, o ritmo desacelerou. Até junho de 2025, a ONG havia instalado 3.200 dos 5.000 pontos prometidos, embora já tivesse recebido repasses antecipados calculados sobre a meta total.
Cobrança do Tribunal de Contas e manifestações
As falhas de segurança de dados haviam sido previstas pelo Tribunal de Contas do Município (TCMSP), que identificou 20 irregularidades no edital técnico em abril de 2024. A prefeitura só obteve aval para seguir com a licitação após incluir cláusulas restritas proibindo o repasse de informações a terceiros — exigência que acabou descumprida pelas subcontratações da ONG. O órgão de controle abriu um processo fiscalizatório urgente e exige explicações detalhadas da prefeitura.
Em nota, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia afirmou que “desconhece qualquer compartilhamento de dados pessoais” e declarou que a fiscalização do cumprimento das metas do contrato é feita regularmente. O deputado federal Bruno Lima (Podemos-SP), secretário da pasta na época da assinatura, disse que não teve conhecimento de irregularidades e orientou a execução nos termos da lei.
A Talk Communications negou o recebimento de dados e garantiu que prestou serviços estritos ao contrato firmado com o instituto. O Instituto Conhecer Brasil e o instituto Orbis foram procurados para prestar esclarecimentos, mas não se manifestaram.
Publicado originalmente por: GGN
Postar um comentário
-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;