No livro Uma História de Duas Cidades, Charles Dickens escreve sobre a Revolução Francesa e seus efeitos e reflexos em Paris e em Londres. É o livro que começa com a frase 'Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos'.
Um Dickens redivivo poderia escrever sobre o contraste entre a reação na França e na Inglaterra às recentes medidas de austeridade tomadas pelos dois governos — Sarkozy tentando reformar o sistema de aposentadoria na França e o novo governo conservador na Inglaterra anunciando cortes e sacrifícios de fazer corar até a Mrs. Thatcher.
Apesar de a proposta do Sarkozy ser mais amena — aumentar para 62 anos, em vez de 60, a idade para aposentadoria, que em outros países da União Europeia já é de 65 e 67 —, os franceses foram para a rua protestar, os ingleses inicialmente não. Sindicatos franceses fizeram, e continuam fazendo, greves. Os ingleses, até anteontem, nada. Agora, tudo mudou.
A diferença na aparente apatia inicial, diria Dickens, tem a ver com História e personalidade. Os ingleses não têm uma tradição de ir para as ruas. Os franceses gostam tanto de uma manifestação que têm um apelido carinhoso para elas: manif.
Paris se organiza para contornar as manifs e as greves com a prática de anos. Fica-se sabendo no dia anterior que linhas de ônibus serão interrompidas, quantos trens de metrô deixarão de funcionar — e para quem não viu na TV há cartazes explicativos nas paradas.
A questão da mudança de dois anos no tempo de trabalho requerido para a aposentadoria não parecia justificar tanto protesto, e muito menos a adesão dos estudantes, que se manifestaram como nunca antes desde 1968. Mas a reforma da aposentadoria pareceu mais um pretexto para a rebeldia contra Sarkozy e seu estilo personalista e arrogante. Qualquer pretexto serviria.
Enquanto isso, na Inglaterra, o que o novo primeiro-ministro Cameron propunha era uma revolução social, o desmantelamento de um sistema de vida para salvar a economia. A parca reação inicial dos ingleses às medidas duras se devia à pouca mobilidade dos sindicatos, que ainda se ressentem da sua derrota na revolução da Thatcher, e à tradição de estoicismo que a nação gosta de cultivar como uma virtude exclusiva. E ao fato de que, afinal, lá ninguém é francês.
Enquanto isto, nunca se viu tanto turista na Europa, e o outono — pelo menos em Paris — os recebeu com festa. Enfim: o pior dos tempos, o melhor dos tempos.
Luiz Fernando Verissimo, para O Estado de S.Paulo

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