do CARTA CAPITAL
Tentar definir a mobilização popular no Egito como um "milagre da internet" é tão improdutivo quanto ignorar a força da rede na mobilização dos jovens e na transmissão de informações. Por Felipe Corazza. Foto: AFP


A revolução popular em curso no Egito já tem um efeito colateral curioso: a trincheira aberta na discussão sobre o uso da internet – mais especificamente das redes sociais – e dos telefones celulares nos protestos. De um lado, defensores da ideia de que esta é uma “revolução de Facebook e Twitter”. Do outro, as opiniões de que a internet não leva as pessoas às ruas e de que celulares não derrubam governos.



O primeiro ponto de vista ignora que o acesso à web no Egito ainda é relativamente baixo – cerca de 20% da população conectados -, com um número ainda menor para redes sociais. O número de usuários do Facebook fica perto de 5,2 milhões de pessoas, menor, por exemplo, que o número de seguidores de Barack Obama no Twitter. Da população geral, os conectados à rede de Mark Zuckerberg são 6,46%.


Na questão dos celulares, o número de cidadãos conectados não é tão importante quanto a limitação do serviço. Uma das primeiras medidas do governo do ditador Hosni Mubarak quando notícias dos protestos começaram a se espalhar foi cortar parte dos serviços de telefonia móvel. Com uso restrito, os telefones de pouco serviram para organizar mais protestos, convocar mais manifestantes ou mesmo para a imprensa.


Além das restrições físicas, as técnicas de contra-informação também limitam a possibilidade de protesto eletrônico. Um exemplo: o serviço da Vodafone, operadora de telefonia móvel com 26 milhões de clientes no país, enviou mensagens de texto (SMSs) favoráveis ao governo durante a crise atual.


A operadora emitiu um comunicado esclarecendo não ter culpa no envio das mensagens, já que a Lei de Telecomunicações egípcia confere à agência regulatória do país o direito de enviar os SMSs em caso de emergência. Mas, enquanto se exime de responsabilidade na nota oficial, a Vodafone mantém sua marca como patrocinadora do portal governamental egípcio.


Agora, ao outro lado da moeda. Apesar das limitações claras, o ceticismo total em relação à força da internet nos protestos também é descabido. Há quem apele para comparação com revoluções e protestos anteriores, algo como “não havia internet em 1917 e os russos fizeram a revolução”. Do ponto de vista objetivo, a frase é perfeita. Mas o sentido dado a ela é distorcido.


Ainda utilizando os números de acesso ao Facebook no Egito, 50% dos perfis no país pertencem a jovens entre 18 e 24 anos. Abrindo a faixa de idade para até 34 anos, tem-se 78% dos usuários da rede em território egípcio. Ainda que com alcance restrito, o Facebook é uma ferramenta de mobilização e contato com o mundo para uma parcela importante da população.


Tecnologia e redes sociais têm, no entanto, funções bem mais relevantes do que apenas mobilizar e chamar às ruas. A transmissão de informações em formatos diversos é parte deste processo. Entrando na onda de memórias de revoltas passadas, é interessante comparar o que ocorre na Praça Tahrir, no Cairo, ao que se passou na Praça Tian’anmen, Pequim, em 1989.


Enquanto os manifestantes se concentravam na praça chinesa exigindo a abertura democrática do país, paramilitares passeavam pelos hotéis e prédios das redondezas confiscando as pesadas câmeras de vídeo e os igualmente pesados equipamentos de transmissão. Em pouco tempo, o registro de imagens da praça foi quase totalmente restrito – exceção ao cinegrafista da agência France Presse que conseguiu esconder uma fita contendo a clássica cena do rebelde enfrentando os tanques. No conforto de um “apagão” jornalístico, soldados e paramilitares invadiram a praça em um dos massacres mais relembrados da história recente.


Voltando ao Cairo, 2011. Telefones celulares com câmera, gravadores e câmeras digitais ultra-compactas permitem registro permanente de imagens e sua transmissão pela internet (com repercussão imediata nas redes sociais). Se não impede totalmente a violência, tal cobertura “independente” constrange o governo Mubarak a evitar um massacre nos moldes de Tian’anmen. A Al Jazeera, emissora de TV do Catar, transmite, no momento em que escrevo, ao vivo da praça Tahrir. O sinal do site oficial caiu, mas a página da emissora no Facebook resolve esse problema, com o vídeo direto.


Repórteres também conseguem maior segurança com as tecnologias avançadas. O correspondente da Rede Globo, Ari Peixoto, e seu cinegrafista desistiram da câmera convencional quando a batalha na praça ficou mais intensa. As imagens exibidas nos principais jornais da emissora nesta quarta-feira 02 foram feitas com um mero celular. Peixoto era só mais um cidadão comum, ao lado de um amigo, filmando o evento histórico com seu aparelho de telefonia móvel. E ninguém os importunou.


Classificar os acontecimentos no Egito de Revolução do Facebook ou atacar ferozmente esta nomenclatura é pouco produtivo. Tratar a internet como algo que existe de forma separada, alheia à “vida real”, é a maneira mais eficaz de chegar a lugar nenhum neste debate. Assim como fica evidente o reforço dado pela conexão à rede e às mídias sociais, é prudente combater a ingenuidade e o sentimento de que uma “hashtag” no Twitter pode, de per si, mudar o mundo.


A briga no Egito é grande, vem de longa data e a web é mais uma ferramenta. É de bom tom lembrar que há inúmeros agentes políticos envolvidos, grupos, clérigos, diplomatas, espiões e governos. E estes não deixaram de existir e atuar nas sombras com o advento do Facebook e do Twitter. Os serviços secretos, os estrategistas de bastidores, os ideólogos de teocracias e outros agentes não abandonaram seus movimentos e precisam ser incluídos nesta conta. As peças do xadrez internacional não viraram, de uma hora para outra, apenas seus vizinhos de Farmville.



Comentário(s)

-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;

Postagem Anterior Próxima Postagem

ads

ads