Se Petro fracassar, golpeia-se também a hipótese de que uma esquerda mais combativa poderia vencer a ultradireita em seu próprio tempo histórico

A eleição na Colômbia e o destino do Brasil

A Colômbia teve, no ano de 2025, um crescimento de 3,6% de seu Produto Interno Bruto. Foi o maior crescimento da América Latina e o quarto melhor desempenho do mundo. Entre 2022 e 2026, entre 2,2 e 3 milhões de pessoas saíram da pobreza graças a programas como o Renta Ciudadana, o aumento real do valor do salário mínimo e um programa robusto de reforma agrária que redistribuiu mais de 2,5 milhões de hectares de terra. Mesmo assim, a acreditar na pré-contagem feita por uma empresa privada e contestada pelo governo, um candidato de extrema-direita, Abelardo de la Espriella, lidera as apurações. Sua ascensão foi meteórica e construída através da transferência de votos da candidata oficial do uribismo, Paloma Valencia, vista dentro desse cenário como uma espécie de direita “moderada” parecida com nosso governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

Esta eleição interessa ao Brasil diretamente. Não apenas pela importância estratégica da Colômbia, um dos poucos aliados do governo brasileiro em um continente cada vez mais sujeitado à extrema-direita, mas principalmente por Gustavo Petro ter feito um caminho à esquerda muito distinto daquele realizado pelo Brasil. Seu fracasso será certamente um duro golpe naqueles que entendiam que uma postura mais combativa e radicalizada poderia trazer hegemonia eleitoral. Grupo no qual este autor se inclui.

A figura de Espriella é um exemplo pedagógico do tipo de estratégia-padrão adotada pelas elites latino-americanas diante do evidente esgotamento de suas políticas tradicionais de preservação do poder. A referência maior do candidato colombiano é o presidente salvadorenho Nayib Bukele, de quem copiou até mesmo o corte da barba. O eixo de seu crescimento é um discurso baseado no medo, no pretenso combate ao crime (mesmo que Espriella tenha sido advogado de narcotraficantes e paramilitares) e no controle militar da segurança nacional. Diante de sociedades marcadas pela decomposição social, a promessa de encarceramento em massa, deportação de imigrantes e cortes militares de cabelo nas escolas parece, para muitos, garantia de tempos melhores.

Esse foi o eixo da campanha vitoriosa de Kast no Chile e será, ao que tudo indica, o eixo da campanha brasileira. Basta ver a recente decretação de grupos criminosos como CV e PCC como entidades terroristas pelo governo norte-americano. Por trás disso, há a ideia de que o melhor governo é aquele que age como se estivesse em uma guerra permanente contra o inimigo do dia: traficantes, imigrantes, migrantes. Mesmo que o verdadeiro crime seja feito por banqueiros que pagam shows do Coldplay para seus casamentos com dinheiro da corrupção do estado. Banqueiros que normalmente são amigos fraternos dos mesmos que juram nos defender do crime e da insegurança.

Isso apenas mostra como a questão central é: em um momento em que está cada vez mais claro que o capitalismo não consegue sustentar a ilusão de uma sociedade que caminha para a integração cada vez maior de parcelas da população, a política se torna uma questão de quem será expulso, encarcerado, superexplorado. E para uma operação dessa natureza, o discurso da luta criminosa contra o crime é um álibi perfeito.

A experiência colombiana nos permitia acreditar que um processo real de ascensão econômica dos mais pobres e de fortalecimento político de sua força poderia ser o melhor contraponto a essa mobilização do medo. Sua maneira de defender uma política anti-proibicionista em relação às drogas era uma forma de tentar politizar esse amálgama espúrio entre drogas e violência. Pois nunca houve, não há e nunca existirá sociedade sem drogas. Ou seja, o uso de drogas é um fato normal da vida social. O problema nunca foram as drogas, e conhecemos várias formas de uso de drogas que se integram à vida. O problema são as vidas esvaziadas no interior de uma sociedade que  sabe apenas individualizar as causas do sofrimento psíquico, sem nunca procurar lidar com suas dimensões sociais de forma conveniente.   

O segundo turno da eleição colombiana será no dia 21 de junho. Caso Espriella realmente ganhe, a esquerda latino-americana terá tentado todas as alternativas, desde a conciliação chilena à radicalização colombiana, sem vitórias. Resta saber qual será o destino do Brasil. Caso Iván Cepeda vença, a experiência colombiana ajudará aqueles e aquelas que apostaram na clarificação ideológica e mobilização popular como a arma mais eficaz nesse momento.

 Publicado originalmente por: CartaCapital

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